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Lições de um certo Álvaro Lins

Depois de ouvir, ou melhor, ser forçado a ouvir, dentro da estação tubo, uma longa peroração contra os políticos e o sistema democrático, Natureza Morta chegou à mansão da Vila Piroquinha e foi direto à biblioteca. Com “A Glória de César e o Punhal de Brutus” às mãos, buscou a página 188, onde tinha sublinhado na primeira leitura: “A experiência indica que, apesar das suas falhas, o regime democrático é o menos imperfeito, o melhor dos sistemas de governo. Poderemos sustentar, sem vacilação, a seguinte tese: a pior democracia é superior ao melhor dos totalitarismos”.
– A glória é de César, o punhal é de Brutus, e de quem é o livro? Quis saber Beronha.
– Álvaro Lins.

Exercício frequente

E o solitário da Vila Piroquinha leu mais um trecho: “Aperfeiçoar a democracia significa retirá-la do terreno das ficções para o exercício frequente de suas virtudes, o que há de realizar-se mais pela convicção, pela educação política dos cidadãos, do que pelos atos e intenções dos governantes”.
O livro, em segunda edição, é de 1963, da Editora Civilização Brasileira, reunindo ensaios e estudos publicados de 1939 a 1959. Álvaro, que nasceu em Caruaru em 1912 e morreu em 1970, no Rio, foi também, na época, o cara. Como jornalista, participou da mobilização para garantir a posse de Juscelino Kubitscheck na presidência da República (1956).
Na época, trabalhava no Correio da Manhã, onde deixou a crítica literária de lado para assumir a direção política do jornal. Depois, chefiou a Casa Civil e assumiu a embaixada do Brasil em Portugal, onde, inevitavelmente, trombou com o salazarismo e a política colonialista. Em 1957, recebeu a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, a mais alta condecoração portuguesa, e virou membro da Academia das Ciências de Lisboa.
E continuou defendendo o que achava correto, apesar do governo português, que não reconheceu o asilo político concedido pelo Brasil ao oposiconista general Humberto Delgado.
Aí, chutou o balde.

Dignidade da inteligência

Sobre o mestre, alguém escreveu: “Álvaro Lins consegue, enfim, esta coisa rara, no nível baixo em que estamos como inteligência: a personalidade. Coisa que independe até da concepção filosófica pessoal. Ler o que Álvaro Lins escreve é um ato da dignidade da inteligência: talvez a primeira personalidade real em toda a história da nossa crítica literária”.
Quem assina o texto? Mário de Andrade.
E tem mais: “Dignidade criadora que é a condição da crítica admirável do sr. Álvaro Lins, o lúcido e bravo crítico literário (…) Aquele que é hoje o maior dos nossos críticos, além de mestre da rate ou ciência da biografia”. Quem assina é Gilberto Freyre.
Mais um depoimento, agora de Jorge Amado, referindo-se também à atuação de Álvaro Lins como embaixador do Brasil em Portugal, onde sustentou a “bandeira do Direito de Asilo”. Diz Jorge: “Um diplomata que é, antes de tudo, um escritor admirável, escrevendo os seus livros ou agindo em sua vida”.

ENQUANTO ISSO…


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