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Mapa da partilha do mundo

Livros e sites abrem as portas para o que já foi segredo de estado: mapas históricos e raros. Ao ler a respeito, e anotar o endereço – www.albumchorographico1927.com.br -, o professor Afronsius comemorou.
– Um assunto que sempre me interessou. Desde os tempos de velhos filmes de piratas.
– Errol Flynn?
– Não. Mais recente…
E, no dedo de prosa com Natureza Morta, junto à cerca (viva) da mansão da Vila Piroquinha, o vizinho disse que a sua paixão ganhou corpo ao ver a reprodução de um mapa de Arnold Floresnz Langren, de 1596, que mostra a América do Sul.
De cima. Incrível, já que não existia avião – muito menos satélite.

“Uma nau lava a outra”

Natureza aproveitou o embalo e foi buscar no anexo 2 da biblioteca da mansão da Vila Piroquinha um exemplar da Revista História, de dezembro de 2010, que traz um texto (“Uma nau lava a outra”) da professora Iris Kantor, do Departamento de História da Universidade de São Paulo e autora de “Esquecidos e renascidos: a historiografia acadêmica luso-americana 1724-1759” (Hucitec, São Paulo, 2004).
Nele, ensina que, “se, no século XVI, a interação entre diferentes navegadores, cosmógrafos, construtores navais, comerciantes e reis foi fundamental para a revolução da cartografia, pode-se dizer que, no século XVIII, prevaleceu o espírito de cooperação e intercâmbio entre os cartógrafos lusos e franceses”.
Nem tudo, porém, permaneceria cooperação. Afinal, era mais do que o mapa da mina. Muito menos uma mísera mina.

Um olho no padre e outro na missa

Preocupado com a disputa, o rei D. Manoel, por exemplo, tratou de restringir a difusão das técnicas náuticas “proibindo a venda de caravelas e punindo os pilotos e cosmógrafos que fossem trabalhar para reis estrangeiros”.
Exemplo: a carta de uma determinada viagem. “Não é possível obtê-la porque o Rei pune com a vida quem as manda para fora”, como registraria o navegador italiano Ângelo Trevisan.
“A organização da espionagem, as viagens secretas e a proibição de imprimir os mapas portugueses tinham o intuito de enfrentar a competição com as monarquias rivais. O excessivo zelo em relação aos roteiros, livros de bordo e cartas de marear fez com que tais informações fossem ainda mais cobiçadas. A preservação dos segredos geográficos estimulou a prática das fraudes cartográficas e a divulgação de falsas notícias”, como mostra Iris Kantor.
A manutenção dos impérios ultramarinos dependia da capacidade de produzir mapas. Sem entregar o jogo.
No cenário anterior, “numerosos cosmógrafos e matemáticos de origem portuguesa, por diversas razões e em diferentes momentos, atuaram na Corte espanhola, como foi o caso de Fernão de Magalhães, Pedro Reinel, Jorge Reinel, Diogo Ribeiro, João Batista Lavanha e Pedro Teixeira”.

Dividir para não perder (o mundo)

Era inevitável. A preservação de segredos estimulou fraudes cartográficas e a divulgação de falsas notícias: “Um exemplo de manipulação teria sido o caso da localização do Brasil e das ilhas Molucas nos mapas portugueses. Até muito tardiamente, para incluir a porção ocidental do continente sul-americano na jurisdição portuguesa, os cartógrafos portugueses deslocavam a linha divisória de Tordesilhas”.
O Tratado de Tordesilhas, como se sabe, foi assinado em 7 de Junho de 1494, dividindo o mundo em duas partes: a Espanha ficou com tudo aquilo que ficasse no Ocidente e, a Portugal, com o que estivesse na banda do Oriente. Decisão, é claro, dos nobres e “pessoas de bem”…
“O monarca francês, Francisco I, foi o primeiro a contestar a partilha do mundo pedindo ironicamente para ver a referida cláusula no testamento de Adão”, assinala Kantor.
– É, essa do testamento de Adão é ótima – encerrou Natureza, enquanto Beronha chegava meio perdido. Sem mapa, rumo ou sextante, como sempre.
Para ele, aliás, conforme resposta que deu no exame de admissão ao Colégio Militar de Curitiba, em priscas eras, o Tratado de Tordesilhas era Tratado de Doutor Desilhas.
Levou bomba, é claro.

ENQUANTO ISSO…


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