Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo

O caso da revista furada

Retornando de uma de suas tradicionais incursões aos sebos da cidade, o professor Afronsius estava eufórico. Esfregando as mãos, satisfeito, contou que tinha encontrado uma revista muito especial. Toda ela dedicada ao romance policial. Mais do que isso, o próprio exemplar sugeria “um caso a resolver”.
Um confesso apreciador do gênero, expôs as peças do quebra-cabeça para Natureza Morta, outro admirador de mistérios e enigmas.

No carimbo, o fio da meada

Resumo: a revista custava nas bancas R$ 8,90. Foi vendida ao sebo por R$ 3,50. Na página 5, um carimbo de considerável tamanho alertava: “Cortesia do editor. Venda proibida”. No alto, à esquerda da página, um orifício. Círculo perfeito, o que lembrou o filme do professor Leonel Moro.
– O furo atravessa todas as páginas e, elementar, meu caro Watson, a contracapa.
Natureza aproveitou para um break:
– “O Círculo Perfeito”, uma história policial, foi realizado pelo professor Leonel Moro, com muito sacrifício e dificuldades. Demorou anos para ser concluído. Pode ser exibido em 1969. O professor foi também o inventor do Moroscope, a nossa resposta ao Cinemascope.

De volta ao caso

Como a revista é a do tipo que se compra, lê e guarda para reler, algo deve ter ocorrido para que fosse descartada num sebo.
– Queima de arquivo? – interveio Beronha. Segundo nosso anti-herói de plantão, era um caso para Bherlock Sholmes…
– Você quis dizer Sherlock Holmes, personagem de Sir Arthur Conan Doyle, o primeiro detetive científico, que partia da observação, formulava uma hipótese, estabelecia uma teoria e a submetia a um teste.
– Não. Berlock Sholmes… mocinho de uma história no almanaque do Tio Patinhas… Ou do Pato Donald.
Levemente abalado, o professor Afronsius prosseguiu:
– Dedução 1: o cidadão retirou o exemplar – surrupiou? – de uma coleção, guardada em arquivo de capa dura. Daí o orifício para preservar e manter as publicações na ordem certa.
Dedução 2: foi demitido. Por isso, sem emprego, desesperado, vendeu o exemplar ao sebo. Esse e talvez outros exemplares – furto continuado? Daí se explicaria, então, uma demissão por justa causa – e o pouco dinheiro no bolso. Ou, talvez, buscasse nas fórmulas e esquemas dos romances policiais de Edgar Alan Poe, Dashiell Hammet, Agatha Christie, sir Arthur Conan Doyle, Auguste Lupin, Maurice Leblanc e Rubem Fonseca a pista (certa) para um crime perfeito.

Chamem Arsène Lupin

Diante do possível novo rumo que o caso tomava, o solitário da Vila Piroquinha sugeriu ao professor Afronsius que recorresse a Maurice Leblanc, mais especificamente ao personagem Arsène Lupin. Um misto de Robin Hood e dândi. Aliás, se quiser, tenho um exemplar de “A Agulha Oca”… Lupin surgiu entre 1905 e 1907, numa publicação mensal sintomaticamente chamada Je sais tout (Eu sei de tudo).
Sem esquecer o recente “Os Espiões”, Luiz Fernando Verissimo, é claro.

Capítulo final. Final?

Enquanto o professor Afronsius, cada vez mais encucado com o caso da revista furada, prometia fazer uma campana diante do sebo (“o criminoso sempre volta ao local do crime”), Natureza informava que o romance policial pode ter nascido com “Édipo Rei”, de Sófocles (496 a.C – 406 a.C), mas, oficialmente, surgiu em 1841, com o conto “Os Crimes da Rua Morgue”, de Allan Poe.
A propósito da galeria de famosos, temos ainda, quem diria, Machado de Assis, com o conto “A Cartomante”, publicado em 1884, na Gazeta de Notícias, do Rio.
Está lá, no final, que, “entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão”.
O crime não compensa, mas dá fama e fortuna para quem vive de casos policiais.
– Tendo talento. Para escrever, é claro.

ENQUANTO ISSO…


Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.