
A frase é atribuída a Beijoca, do Bahia: “Não ganhemo nem perdemo, empatemo”. Mas, no Sul, sofreu uma pequena metamorfose: “Nem ganhimo nem perdimo, empatimo”. Isso dentro de campo, porque, fora dele, o jogo pode ter um quarto resultado. A Copa de 70 é um exemplo. Além da linha burra, existia a linha dura.
Em torno disso, o professor Afronsius trouxe para o dedo de prosa, junto à cerca (viva), a conquista do mundial na Cidade do México, que, aliás, está prestes a comemorar mais um aniversário.
Primeiro tempo
Natureza Morta pediu um tempo e, graças à seção Achados&Perdidos, exclusiva do blog, voltou com um recorte. Um reencontro com o até então insuperável futebol brasileiro. Primeira página do jornal O Globo, do Rio, dia 22 de junho de 1970, uma segunda-feira: “TRI. Carnaval em junho”. Três fotos, da agência UPI – United Press International. Na primeira, com destaque, Pelé marcando de cabeça. Na segunda, sob o título “O goal do alívio”, Jairzinho, que fez o terceiro aos 27 minutos “num lance armado por Piazza e Pelé”. Na terceira, em uma coluna, sob o título “Tiraram as meias de Tostão”, a legenda explica que o jogador foi “submetido a um verdadeiro strip-tease, perdendo a camisa, as chuteiras e as meias”.
Beronha, nosso anti-herói de plantão:
– É, ainda bem, até porque seria terrível se ele perdesse as meias sem tirar as chuteiras.
O “homem comum”
Ainda na primeira página, com o devido destaque, é claro, o título “Médici acertou o placar”:
– O Presidente Médici, que acompanhou pela televisão todos os jogos da Seleção tricampeã do mundo, provou ser mesmo um entendido (sic) de futebol ao fornecer na sexta-feira a O Globo seu palpite para a finalíssima de ontem: Brasil 4×1. Ontem, logo após a emocionante vitória, o Presidente dirigiu mensagem à Seleção, na qual expressa que, como homem comum (sic), sente-se profundamente feliz, pois nenhuma alegria é maior no meu coração que a de ver a felicidade de nosso povo no mais puro sentimento patriótico.
Detalhe, devidamente apontado por Natureza: nenhum texto indica quem era o adversário. Ou seja, a Itália. Outra chamada anuncia no título “Facultativo hoje e amanhã”.
A demissão de Saldanha
Na página 3, o relato sobre o jogo: da Cidade do México, Ricardo Serran, especial para O Globo – via Embratel, pelo satélite. As fotos, agora, são da AP – Associated Press. Aí, a Itália teve uma colher de chá. É citada.
O solitário da Vila Piroquinha fez questão de alguns adendos: o panorama fora de campo, os interesses bem pouco ou nada esportivos. A Revista História da Biblioteca Nacional, edição de maio, maio, agora, contou que os arquivos da BN são o embrião de muitas produções para o cinema.
– Foi assim que André Iki Siqueira, autor do livro “João Saldanha – Uma vida em jogo”, e agora diretor do documentário “João Saldanha”, conta como o acesso aos jornais da época (1970) ajudou a entender o que havia por trás da demissão do técnico Saldanha. Pinçou uma informação de que “o Cláudio Coutinho, militar e membro da comissão técnica da seleção, tinha sido chamado a Brasília pelo ministro Jarbas Passarinho para articular a demissão do João, que era reconhecidamente um militante comunista. E eu encontrei uma matéria do jornal O Globo em que o coronel Ronaldo Coutinho, irmão do Cláudio, confirmava essa história”.
O rebelde com causa
João Saldanha, o João Sem Medo, era comunista. E tinha temperamento muito forte. Ou, como escreveu Nélson Rodrigues, “circulava nas veias de João sangue e não água de bica”. Depois de classificar o Brasil para a Copa, passou a ser um duplo risco para a ditadura civil-militar. Vivívamos o Brasil do “ame-o ou deixe-o”, “ninguém segura este país”.
– Já pensaram? O sonhado tricampeonato, com a posse definitiva da Jules Rimet, conquistado por um notório comandante inimigo do regime?
Uma tese sobre o golpe (em cima do João):
“Não havia espaço para a ditadura capitalizar a provável conquista do tri”. E ele foi demitido no dia 17 de março.
No livro, Iki Siqueira conta que, nas viagens com a seleção, Saldanha sempre mantinha contatos com exilados e comunistas de outros países e denunciava a jornalistas o que acontecia no Brasil: repressão, tortura, perseguições, censura. “Há provas de que João estava sob vigilância do Dops. Os relatórios policiais eram despejados em algumas mesas em Brasília”.
O “aspecto ideológico” prevaleceu. João foi derrubado. O próprio Saldanha, ainda conforme o livro, brincou:
– Por que eu saí é muito fácil de entender. O que eu tenho dificuldade de explicar é porque eu entrei.
Encerrando o papo, Natureza e o professor Afronsius comentaram:
– O brasileiro sabe tudo de e sobre futebol. Será mesmo?
ENQUANTO ISSO…




