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O outro lado do estilingue

Aquele 12 de maio de 1968 em Curitiba foi um Dia das Mães realmente inesquecível para muitas delas. Um domingo cheio de medo e apreensão. O Centro Politécnico tinha virado um campo de batalha.
Estudantes estavam mobilizados contra o reitor da Universidade Federal, o ex-ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda. Entre outras coisas, ele pretendia cobrar anuidade em um curso noturno de Engenharia recém-criado. E o vestibular seria realizado às pressas, de afogadilho.
No confronto, seis PMs ficaram feridos e dezenas de estudantes foram presos. Mas o rastilho de pólvora estava acesso.

Batalha da Reitoria

Como a Gazeta do Povo registrou de 2008, em matéria de Christian Schwartz, especial para Caderno G, uma segunda batalha ainda iria ocorrer dois dias depois. No dia 14 de maio, a Reitoria foi tomada de assalto. O busto do reitor, no hall de entrada, acabou no chão, derrubado e arrastado pela rua, mas não houve choques entre polícia e estudantes – o Conselho Universitário havia cedido às reivindicações dos alunos.

De volta ao Politécnico

É do jornalista Luiz Manfredini, o velho amigo Manfra, outro depoimento sobre o quebra-pau no Centro Politécnico. Na época, ele tinha 18 anos. E, ao recordar o episódio em 2008, conforme registro para o Centro Acadêmico de Psicologia (CAP), da UFPR, conrou que “na primeira investida obtivemos sucesso. Na segunda, no dia 12 de maio, domingo, 1.200 policiais militares nos aguardavam. E éramos tão somente 500 guris. A polícia nos atacou a cavalo e armada com espadas. Durante mais de quatro horas lutamos com tenacidade e coragem, transformando os campos vizinhos ao Politécnico numa praça de guerra. Mas fomos vencidos”.

Do lado oposto, o Luiz

O que pouco mereceu atenção foi como se sentiam os soldados antes do entrevero às margens da BR-277. Os comandantes e secretários de Estado, é claro, tiveram espaço para explicações e justificativas. Só depois de muito tempo, um dos integrantes da turma de baixo, o ex-PM Nêgo Luiz, pôde ser ouvido a respeito da pauleira. Contou a um amigo próximo que tinha sido um sofrimento.
– Amanhecemos no local, barriga vazia (tomei apenas café antes de sair do quartel) e tensos. A expectativa era grande. De repente, com o clarear do dia, começaram a chegar estudantes. Muitos deles de carro. E as provocações começaram. Dos gritos, xingamentos e palavras de ordem, alguns passaram a lançar pedras e bolinhas de gude contra os cavalarianos. Eu, inclusive, levei uma no capacete.
Mas, na linha de frente, permanecíamos impassíveis. Aguardando ordens. Apesar do treinamento e da rigidez da disciplina militar, é duro aguentar provocação. Alguns colegas de farda, no entanto, irritados e impacientes, não viam a hora de o comandante dar a ordem para avançar e dispersar a turma.
– Pessoalmente, não tinha nada contra os estudantes. E nem tenho, mas, como os outros, estava ali cumprindo ordens.

Zequinha e o Prêmio Esso

Quando veio a ordem para agir contra os estudantes, um cavalariano saiu da posição – e não era o Luiz – e investiu contra um estudante, mas tarde identificado como o aluno de Medicina José Lopes Ferreira, de apelido Zequinha. O fotógrafo Edison Jansen, do jornal O Estado do Paraná, documentou a cena. As fotos lhe dariam o Prêmio Esso de Jornalismo de 1968 e reconhecimento internacional pelas imagens.
Zequinha virou médico. O famoso e benquisto doutor Zequinha.
Ainda sobre o Nêgo Luiz: bom de bola, na juventude foi jogador de futebol, atuando no Santa Rita FC, da Vila Hauer, que disputava a 3.ª Divisão de Amadores. Campos abertos. E, estudando à noite, no Ginásio Estadual Professor José Guimarães, fazia parte do trio vocal “Os Aranhas”. Famoso, pelo menos na vila e nos bairros vizinhos, como Boqueirão, Vila Fany e Vila Pinto. Cantava ao lado dos amigos Amauri Sourient, o Cabelo, e o Eloir, o Êlo.
– Eu levava jeito para futebol e para música, bons tempos. Entrei na PM por necessidade. Depois, fui tentar a sorte em São Paulo.

ENQUANTO ISSO…


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