
Não é de hoje. Emprestar livro ou disco é um perigo. Quem lê (e ouve), devolve. Mas, como tem gente que faz que lê e que ouve…
Foi pensando nisso (aliás, ainda não devolveram o “Planejamento Estratégico”, do Golbery do Couto e Silva) que Natureza Morta decidiu adotar a tática do jornalista Jorge Eduardo Mósquera. O Jorjão só empresta livro mediante refém. Ou seja, cede um livro e toma emprestado outro. Passado um tempo, ocorre a troca de reféns. Todo mundo sai ganhando.
Onde foi parar?
Dia desses, Natureza saiu atrás da trilha sonora de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, 1964, de Glauber Rocha. Estava, é claro, com o Beronha, que após uma prensa (ameaça de ficar sem a vodka Bakunin na mansão da Vila Piroquinha) tratou de restituir o disco ao legítimo dono.
Satisfeito, o solitário da Vila Piroquinha pôde ouvir novamente “Perseguição”, na voz de Sérgio Ricardo:
– Se entrega Corisco!
– Eu não me entrego não!/ Eu não sou passarinho/pra viver lá na prisão (bis)
– Se entrega Corisco!
– Eu não me entrego não/não me entrego ao tenente/não me entrego ao capitão/eu me entrego só na morte/de parabelo na mão.
– Se entrega Corisco!
– Eu não me entrego não! Eu não me entrego não!/Eu não me entrego não! Mais fortes são os poderes do povo!
E entra “Sertão Vai Virar Mar”:
– Farreia, farreia povo/farreia até o sol raiar/mataram Corisco/balearam Dadá/O sertão vai virar mar/e o mar virar sertão (bis)/Tá contada a minha história/verdade-imaginação/espero que o senhor/tenha tirado uma lição/que assim mal dividido/esse mundo anda errado/que a terra é do homem/não é de Deus nem do Diabo (bis)/Não é de Deus nem do Diabo.
Um pequeno detalhe
Para compor a trilha sonora, o paulista de Marília Sérgio Ricardo e o baiano de Vitória da Conquista Glauber Rocha ouviram uma série de fitas de cegos cantadores do Nordeste, até chegar ao que queriam.
No filme, a música funciona como narrativa da ação. Os trechos transcritos acima são do duelo final entre Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros, pago por grandes latifundiários, e Corisco, um remanescente do bando de Lampião.
Música e interpretação de Sérgio Ricardo; letras de Glauber.
Mais tarde, bem mais tarde, Glauber faria uma revelação: deu uma pequena (grande) mexida na letra. É que, pelo cancioneiro popular, Corisco diz que não se entrega porque não é passarinho “pra viver lá na gaiola”.
Trocou gaiola – parte da plateia poderia achar graça, quebrando todo o impacto da sequência – por prisão, palavra mais forte e que se encaixava perfeitamente no tom desafiador do cangaceiro.
Até nisso esbanjaram talento e criatividade.
ENQUANTO ISSO…




