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Samia Marsili

Samia Marsili

Crianças

O que eu aprendi com meus filhos meninos

filhos meninos
Meninos têm certas características que diferenciam seu comportamento do das meninas, como regra geral. (Foto: Imagem criada utilizando Grok/Gazeta do Povo)

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As listas são um modo excelente de organizar o nosso conhecimento, e de memorizá-lo. A massa de experiências, de princípios e casos particulares assume uma forma simples, numerada, que nos ajuda como um manual de bolso, como uma ferramenta à cinta, um canivete, uma caneta no bolso. Na última oportunidade, falei sobre o tema da obediência de um ponto de vista bem prático, supondo alguma reflexão de tipo mais teórico que eu já havia feito em artigos anteriores.

Hoje desejo fazer a mesma coisa com outro tema: coisas que aprendi sendo mãe de tantos meninos (para quem não sabe, tenho sete filhos meninos, e uma menina de pouco mais de 1 ano de idade). Penso que alguém que afirme que meninos e meninas são iguais, e que a natureza biológica do homem e da mulher, com suas características próprias, são ilusões, apenas constructos culturais, é porque não teve a mínima experiência concreta. Bem, eu já acumulo uma grande experiência concreta. E, neste artigo, mais do que o que os pais podem ensinar aos filhos, quero falar do que a experiência de família pode ensinar a nós, pais – mais especificamente ainda, o que observar sete homens crescerem e se desenvolverem me fez aprender.

É claro que nenhuma das características de que vou tratar aqui é exclusiva deles. São atitudes que também encontramos nas meninas e nas mulheres, mas tenho a impressão de que certas disposições se manifestam com maior frequência no sexo masculino e aparecem de maneira mais espontânea nos meninos.

Como acontece em tudo o que diz respeito à educação, porém, o ambiente em que vivemos exerce uma influência considerável. E o ambiente para o amadurecimento das crianças, e o seu crescimento na virtude, deve ser um ambiente de presença dos pais, a orientar e conduzir pela senda dos bons hábitos. Há, pois, características que podemos valorizar e estimular nas crianças, ajudando-as a se desenvolver, assim como podemos abafá-las ou incentivar atitudes contrárias a elas. É a partir dessa perspectiva que gostaria de compartilhar algumas coisas que aprendi com meus filhos.

1. Discrição

A primeira delas é a discrição: aprender a não falar excessivamente sobre aquilo que fizemos, sobretudo quando fizemos algo bom. Ser discreto significa não precisar anunciar nossas próprias qualidades nem fazer questão de que os outros saibam de todas as nossas boas ações. E significa também evitar falar demais sobre o que as outras pessoas fizeram, especialmente quando isso pode expô-las ou prejudicar sua imagem.

Certas disposições se manifestam com maior frequência no sexo masculino e aparecem de maneira mais espontânea nos meninos

Isso não é incomum em nossa casa. Meus filhos fazem coisas boas, mas não costumam anunciá-las nem se exaltar por causa delas. Simplesmente fazem o que consideram que precisa ser feito e seguem adiante. Eu poderia acumular exemplos e pequenas anedotas, em que vim a saber, só depois, pela boca de terceiros – professores, ou pais de colegas –, algo de valoroso que meus meninos fizeram.

Percebo que isso acontece com frequência entre os meninos: eles fazem coisas boas, muitas vezes sabendo que seus pais as valorizariam, mas não se preocupam em relatá-las. Não creio que ajam necessariamente com a intenção consciente de evitar a vaidade. Tenho a impressão de que existe neles uma discrição mais espontânea.

Não quero dizer, com isso, que nós, mulheres, contemos nossas boas ações para nos sentirmos superiores às outras pessoas. Não se trata disso. Mas reconheço que, muitas vezes, sentimos um impulso maior de contar o que fizemos, de compartilhar nossas experiências e de narrar as coisas boas que nos aconteceram ou que realizamos.

Isso não é necessariamente ruim. Há coisas boas que podem e devem ser compartilhadas. A questão está em perceber que nem tudo precisa ser contado, nem toda boa ação precisa ser anunciada e nem todo gesto correto precisa receber reconhecimento. Às vezes, basta que tenhamos feito aquilo que era certo.

Meus filhos têm me ensinado justamente isso: a possibilidade de fazer o bem sem sentir a necessidade de falar sobre ele.

2. Não expor os amigos nem fazer fofoca

A segunda característica que observo nos meus filhos é muito próxima da primeira: a discrição ao falar dos outros, especialmente dos amigos. Percebo isso não apenas em casa, mas também no colégio deles (que é exclusivamente masculino).

Nós, mulheres, parecemos ter mais necessidade de comentar os acontecimentos. Encontramos uma pessoa que não estava bem vestida ou que falou de maneira pouco gentil com outra, e logo queremos comentar: “Nossa, você viu como a Fulana falou com a Sicrana? Não precisava ter falado assim!” Além disso, sentimos necessidade de emitir opiniões: “Acho que ela fez bem”, “Acho que fez mal”. Os meninos também podem formar um juízo sobre o que aconteceu, mas esse juízo permanece interno. Eles são capazes de observar a situação tanto quanto nós, sem sentir a necessidade de comentá-la.

E, mesmo quando contam alguma coisa que aconteceu na escola, é muito comum que não mencionem quem estava envolvido. Se relatam uma situação em que alguém se comportou mal ou fez algo de que não deveria se orgulhar, contam o que aconteceu, mas frequentemente omitem o nome da pessoa. É como se pudessem compartilhar o fato sem transformar o colega em assunto.

Acho isso particularmente interessante porque entre nós, mulheres, a conversa tende com mais facilidade a incluir os nomes e os detalhes – nem sempre há uma intenção de prejudicar alguém, mas, ao contar o acontecimento, acabamos também expondo a pessoa que o protagonizou.

Marcou-me profundamente uma cena em que um de meus filhos veio nos pedir orações por um amigo seu, mas, quando começou a explicar a situação, seu irmão disse: “Se isso vai fazer a gente pensar mal dele, não precisa. Rezaremos do mesmo modo”. Isso é fantástico.

Meninos são capazes de observar a situação tanto quanto nós, sem sentir a necessidade de comentá-la

Acho que, nesse comportamento, se encontram dois fatores. Por um lado, os meninos parecem sofrer menos a pressão de conversar sobre a vida alheia, algo a que nós, mulheres, talvez estejamos mais inclinadas. Por outro, há um princípio que procuramos cultivar em casa: não falar mal das pessoas.

Quando essas duas coisas se encontram, uma disposição natural acaba sendo reforçada pela educação. Os meninos aprendem que nem tudo o que sabemos sobre alguém precisa ser contado; que podemos nos preocupar com uma pessoa sem expor suas dificuldades; e que, em certas situações, é melhor guardar uma informação e rezar do que transformá-la em assunto de conversa.

Essa é outra lição que tenho aprendido com meus filhos: a discrição não diz respeito somente ao que falamos de nós mesmos. Ela também se manifesta na maneira como preservamos os outros.

Há algo que também percebo na vida adulta. Muitas vezes, as mulheres tendem a criticar umas às outras por motivos bastante variados: porque uma trabalha ou porque não trabalha; porque fica em casa ou porque não fica; porque faz as unhas ou porque não faz, porque usa o cabelo de um jeito ou de outro, porque trata o marido assim ou educa os filhos assado. Entre os homens, esse tipo de julgamento parece ser bem menos frequente.

É claro que conheço homens fofoqueiros, não se trata de uma característica exclusiva de um dos sexos. Ainda assim, tenho a impressão de que a fofoca é mais comum entre as mulheres, talvez porque tenhamos uma tendência maior a pensar em voz alta: pensamos e falamos quase ao mesmo tempo, como se precisássemos verbalizar o pensamento enquanto ele se forma. Os meninos, por sua vez, parecem conseguir pensar sem sentir a mesma necessidade de falar.

3. Não guardar rancor

Outra característica que observo com frequência nos meninos é a capacidade de não guardar rancor. Basta prestar atenção ao que acontece durante uma partida de futebol. Às vezes, dois jogadores se desentendem, discutem por causa de uma jogada ou ficam contrariados um com o outro. Mas, terminado o jogo, o desentendimento costuma ficar para trás. É raro que uma discussão se prolongue a ponto de os dois deixarem de se falar por muito tempo.

No colégio dos meus filhos, que é exclusivamente masculino, também observo isso. Não é comum que os meninos rompam a amizade por causa de uma desavença. Eles podem brigar, discutir e ficar irritados, mas geralmente encontram uma maneira de resolver a situação e seguir em frente.

Em colégios femininos, pelo que observo, é mais frequente que uma desavença se prolongue. Uma menina deixa de falar com uma colega; outras se juntam para criticá-la; a menina excluída, magoada, também se afasta das demais... E assim se passam dias ou até semanas, com grupos que deixam de se falar e ressentimentos que vão se acumulando.

Já entre os meninos que acompanho de perto, essa dinâmica é bem mais rara. Eles parecem resolver suas questões com maior facilidade, sem permanecer presos a uma mágoa por algo que alguém fez sabe-se lá há quanto tempo. Às vezes, cinco minutos depois de um desentendimento, já estão conversando e brincando como se nada tivesse acontecido.

Isso me chama a atenção porque, entre nós, mulheres, nem sempre é tão simples deixar para trás aquilo que nos magoou. Podemos continuar remoendo uma situação, recordando o que foi dito e atribuindo àquela ofensa um peso que permanece por muito tempo.

Meninos parecem resolver suas questões com maior facilidade, sem permanecer presos a uma mágoa por algo que alguém fez sabe-se lá há quanto tempo

Não quero dizer, friso outra vez, que os meninos não sofram nem que suas desavenças sejam sempre insignificantes. Tampouco acredito que toda mágoa deva ser simplesmente ignorada. Há situações em que é necessário conversar, reconhecer o erro, pedir perdão e reparar o que foi feito. Mas existe uma diferença entre resolver um conflito e continuar alimentando o ressentimento depois que ele poderia ter sido superado.

Meus filhos me ensinam que nem todo desentendimento precisa se transformar em uma ruptura, nem toda discussão precisa deixar uma marca duradoura. Às vezes, é possível reconhecer que houve um problema, atravessá-lo e retomar a amizade sem continuar trazendo o passado para dentro do presente.

4. Desprendimento

Outra coisa que aprendo com meus filhos meninos é o desprendimento. Não me refiro apenas à capacidade de se desapegar daquilo que possuem, mas também à de viver sem sentir necessidade de tantas coisas.

Isso aparece de maneira bastante concreta na relação com as roupas. Em casa, por exemplo, temos praticamente duas categorias: roupas de time ou de esporte para ficar em casa, e roupas de sair. São duas opções, e está resolvido.

Quanto aos calçados, a situação é ainda mais simples: eles têm um sapato e um tênis. Nem chinelos costumam usar, vivem descalços. Não há uma grande variedade de peças, combinações ou acessórios, nem uma preocupação constante em adquirir coisas novas.

E o que mais me fascina: essa simplicidade também aparece nas brincadeiras! Em geral, os meninos conseguem se reunir e encontrar algo para fazer sem precisar de muitas opções. Para muitos deles, o futebol já resolve boa parte da questão. Além disso, é comum que se interessem por atividades que podem realizar juntos, como montar uma banda. Em festas de aniversário, por exemplo, não é preciso que as mães quebrem tanto a cabeça para encontrar uma atração: basta dar uma bola aos meninos, e eles já têm o que fazer. Brincam de futebol, de pique, inventam jogos e passam o tempo juntos.

Tenho a impressão de que essa disposição contribui para que sintam menos necessidade de coisas materiais. Percebo isso especialmente nos meus filhos, que não têm acesso a telas. No aniversário ou no Natal, eles não aparecem com uma lista interminável de desejos, como se precisassem adquirir uma coisa depois da outra. Parecem contentar-se com aquilo a que têm acesso e encontram alegria em coisas simples.

É claro que o ambiente exerce uma influência decisiva. Se os meninos vivem em um meio consumista, no qual são constantemente estimulados a desejar novos produtos, brinquedos, roupas e aparelhos, é natural que também desenvolvam essa necessidade. Ainda assim, parece-me que, em geral, as meninas podem sentir com mais intensidade a falta de determinados objetos. Há uma preocupação maior com as roupas, com os cabelos, com os acessórios e com as possibilidades de variar a aparência. A ausência de alguma coisa pode se tornar motivo de sofrimento, como se possuir aquele item fosse necessário para sentir-se bem.

Não quero dizer que isso aconteça com todas as meninas, nem que os meninos estejam livres do consumismo. O que observo é que meus filhos parecem encontrar satisfação com mais facilidade naquilo que já possuem e nas atividades simples que podem realizar juntos.

Essa é uma lição importante para mim: muitas vezes, a felicidade não depende de multiplicarmos as opções, mas de aprendermos a desfrutar daquilo que está ao nosso alcance. O desprendimento, nesse sentido, não consiste em desprezar os bens materiais, mas em não depender deles para estar satisfeito. E meus filhos me mostram, no cotidiano, que uma vida simples pode ser bastante rica. E que, quando aprendemos a nos contentar com o necessário, sobra mais espaço para aquilo que realmente importa: as pessoas, as amizades, as brincadeiras e o tempo vivido juntos.

Os meninos parecem ter uma tendência natural a olhar diretamente para o essencial, para o ponto principal, estando assim mais capacitados para prescindir do acessório

5. Não inventar problemas

Outra coisa em que os meninos me ajudam é a não inventar problemas. Eles tendem a nunca complicar as coisas. Organizar um lanche, planejar um cardápio... Tudo sempre parece, à minha cabeça feminina, mais complicado do que realmente é, e os meninos geralmente me respondem: “Não, mãe, é simples... É só fazer assim”.

É claro que nós, mulheres, colocamos mais humanidade nas coisas, e isso é bom. Mas, ao querer acrescentar adornos para deixar tudo mais cuidado e delicado, prestando muita atenção aos detalhes, às vezes perdemos a objetividade – algo que os meninos parecem ter com naturalidade.

O cuidado e o zelo material, tipicamente feminino, podem fazer com que a gente se perca nas muitas contingências, nos muitos “acidentes” ou características secundárias, ainda que necessárias, dos eventos e das tarefas. Os meninos parecem ter uma tendência natural a olhar diretamente para o essencial, para o ponto principal, estando assim mais capacitados para prescindir do acessório. Vê-los fazerem deste modo sempre me ensina muito.

Enfim, conviver com sete meninos e mais um homem, o meu marido, me ajuda bastante a tentar melhorar nesses aspectos: ser mais discreta; não sentir necessidade de comentar os acontecimentos nem falar das pessoas; não guardar rancor e resolver os conflitos com mais facilidade, sabendo separar um fato da relação que tenho com determinada pessoa; viver com mais desprendimento, sem precisar de tantas coisas e simplificando minha vida material; alegrar-me com coisas simples e divertir-me sempre com as mesmas atividades; e não inventar problemas que não existem – algo que, muitas vezes, nasce da subjetividade da nossa própria cabeça. E, como os meninos realmente parecem ter facilidade para vivê-los, vejo essas qualidades se manifestarem de maneira muito viva na minha casa, e a convivência com eles me ajuda a cultivá-las também.

Não seria melhor se, no lugar da guerra dos sexos, nós colocássemos a admiração mútua, para que as virtudes de um viessem em socorro dos defeitos do outro? Não seria mais fácil assim progredirmos na direção da paz?

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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