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Faz sete dias que o Brasil perdeu para a Noruega e, com essa derrota, foi eliminado da Copa do Mundo deste ano. Eu sei que já tem gente suficiente falando a respeito, e uma enxurrada de comentários já correu pela internet, feitos, com certeza, por gente mais entendida e competente na análise do esporte do que eu. Deu o pênalti para o outro bater, perdeu o pênalti, perdeu o gol, apatia, sem posse de bola, não marcaram o gigante norueguês... – eu sei, eu vi. Não preciso nem devo refazer essa análise.
Eu também li gente falando a respeito do que “essa derrota representa”, querendo colar alguns jogadores a estereótipos socioculturais, inclusive políticos, de forma um pouco imponderada. Mas é verdade que, para além dos aspectos técnicos e das contingências da partida, existe um padrão psicológico ou moral, uma tipologia de sentimentos e atitudes que marca a geração atual de brasileiros – dentro e fora de campo, e isso deveria, sim, nos preocupar. Tem a ver com saber ponderar quando se obedece a uma ordem ou quando se desobedece por uma razão superior; quando é preciso assumir uma responsabilidade que é nossa, em vez de nos escondermos atrás da circunstância; tem a ver com a concentração, a quase frieza que é preciso ter no momento único e irrepetível de agir e cumprir o dever. Tem a ver com dar valor à vida no instante, aproveitando-o, praticamente devorando-o com nossa fome de viver, e não nos perdendo numa abstrata expectativa de que a sorte nos encontre. E tem a ver, mais ainda, com a atitude que devemos recuperar no momento seguinte, quando acontecer de falharmos em alguma dessas coisas – o que acontece.
É grande sabedoria usar o inimigo como pedagogo, e usar a derrota para crescer, como na frase de Nietzsche, “aquilo que não me mata me fortalece”. Isso exige de nós uma estabilidade emocional, uma segurança sobre uma base sólida de compreensão de nós mesmos e da vida, um “saber quem somos” que, visto com a lupa que é o esporte, o futebol, mas também a arte, parece realmente estar faltando aos brasileiros. Falta-nos uma qualidade muito preciosa, decisiva como poucas, que parece mesmo ter ficado escassa na cultura contemporânea. Meu tema aqui é a chamada resiliência, e convido o leitor a, mais que refletir sobre o assunto, examinar-se a si mesmo no decorrer da leitura.
Vivemos cercados por recursos tecnológicos, informação abundante e possibilidades quase ilimitadas, mas, paradoxalmente, tornamo-nos cada vez menos preparados para lidar com a frustração, o fracasso e a demora dos resultados. Pequenos reveses adquirem proporções desmedidas; dificuldades passageiras são frequentemente interpretadas como derrotas definitivas.
Mas esse fenômeno não decorre apenas das circunstâncias externas, pois reveses e fracassos sempre existiram, quiçá até mais do que hoje. Ele nasce, principalmente, da maneira como interpretamos ou sentimos aquilo que nos acontece.
Mais do que uma simples capacidade de suportar as dificuldades, a resiliência é uma disposição interior que permite responder às adversidades sem perder o equilíbrio
Há pessoas que, diante de uma avaliação, de uma entrevista de emprego ou de um projeto importante, passam dias ou semanas reconstruindo mentalmente cada detalhe, convencidas de que tudo deu errado. Enquanto aguardam o resultado, deixam de viver o presente. Permanecem emocionalmente paralisadas, consumindo uma energia que poderia ser empregada naquilo que efetivamente depende delas. A mente insiste em revisitar erros, amplia incertezas e transforma hipóteses em certezas pessimistas. Quando finalmente os fatos aparecem, quase sempre revelam que a realidade era muito menos dramática do que a imaginação havia construído. Ainda assim, o ciclo tende a repetir-se. Mas saber disso, por si só, não basta para interrompê-lo. É justamente aí que entra essa virtude a que se convencionou chamar, especialmente na linguagem contemporânea, de resiliência.
Mais do que uma simples capacidade de suportar as dificuldades, como por vezes se a define, simploriamente, ela constitui uma disposição interior que permite responder às adversidades sem perder o equilíbrio. Diversos estudos em psicologia mostram que pessoas resilientes lidam melhor com o estresse, apresentam menor probabilidade de desenvolver quadros depressivos e recuperam-se com mais rapidez de experiências traumáticas. Não significa que sofram menos, ou que sejam insensíveis, não; mas sim que conseguem impedir que a dor e adversidade ocupem o centro de suas vidas.
A vida dificilmente poupa alguém das derrotas. Perdas familiares, problemas de saúde, crises profissionais – como uma derrota no esporte –, decepções afetivas ou simplesmente o acúmulo de pequenos contratempos cotidianos podem desgastar lentamente qualquer pessoa. A diferença está na forma como cada um responde a essas circunstâncias. Alguns permanecem presos ao golpe recebido; outros conseguem reorganizar-se e seguir adiante.
A resiliência possui, nesse sentido, uma dimensão essencialmente reativa. Ela aparece quando a realidade contraria expectativas, quando um projeto fracassa ou quando a dor parece inevitável. Não elimina o fracasso, mas impede que ele determine todas as decisões futuras.
A pessoa resiliente não é a que cultiva um otimismo ingênuo. Sua força consiste em não permitir que o medo do amanhã ou a culpa pelo ontem ocupem todo o espaço da consciência, ela sabe dar-se uma nova chance, por assim dizer. Concentra sua atenção naquilo que ainda pode fazer hoje.
Essa postura também modifica a maneira de assumir responsabilidades. Quem é resiliente reconhece os próprios erros sem cair na tentação de procurar culpados para tudo. Ao mesmo tempo, evita transformar o arrependimento em condenação permanente de si mesmo. A culpa pode ensinar, quando é reconhecida e absorvida; mas a vergonha crônica apenas paralisa.
São justamente as grandes provações que tornam essa diferença mais visível. Há quem enfrente uma doença grave sem perder a esperança; quem atravesse o fim de um casamento sem permitir que a amargura domine sua personalidade; quem veja uma carreira cuidadosamente construída ruir e, ainda assim, encontre novos caminhos para servir à própria família e reconstruir a vida. Entretanto, reduzir a resiliência às grandes tragédias seria um equívoco. Ela é igualmente necessária para enfrentar os desgastes quase invisíveis do cotidiano: a convivência difícil no ambiente de trabalho, os conflitos inevitáveis da vida familiar, as decepções provocadas pelos filhos, os atrasos, os imprevistos, as críticas e as pequenas frustrações que, isoladamente, parecem insignificantes, mas que, somadas, têm o poder de esgotar qualquer pessoa. Responder com serenidade a esses acontecimentos exige uma “musculatura” interior que raramente se desenvolve espontaneamente.
Mas existe outro lado da coisa, outro aspecto igualmente interessante: a resiliência não serve apenas para suportar golpes, como virtude reativa; ela também impulsiona a ação. Existe um aspecto ativo dessa virtude que costuma passar despercebido. O seguinte: Toda iniciativa importante envolve algum grau de risco. Aproximar-se de alguém, iniciar um novo projeto, mudar de profissão, empreender, pedir uma promoção, expor uma ideia ou simplesmente sair da própria zona de conforto implica aceitar a possibilidade do fracasso. Quem não desenvolve essa capacidade acaba organizando a vida em torno da prevenção da dor. Como atletas que entrassem em campo para não perder, e não para ganhar. Essa pessoa evita desafios para não experimentar rejeições, renuncia a oportunidades para não correr riscos, e prefere permanecer onde tudo é previsível, ainda que isso signifique abrir mão do crescimento. A consequência é uma existência progressivamente menor. Não porque faltem talentos ou oportunidades, mas porque o medo passa a determinar os limites da ação.
Em contrapartida, as pessoas que admiramos pela coragem de iniciar conversas difíceis, propor mudanças, assumir responsabilidades ou aventurar-se por caminhos pouco conhecidos geralmente compartilham uma característica comum: elas não acreditam que um fracasso seja definitivo. Sabem que uma recusa, um erro ou uma tentativa malsucedida produzem desconforto, mas não definem quem elas são. Essa segurança lhes permite agir onde outros permanecem imóveis. Não porque esperem sucesso garantido, mas porque aprenderam que a verdadeira derrota não está em falhar, e sim em nunca tentar.
A boa notícia é que essa disposição não pertence apenas ao temperamento de alguns privilegiados. Embora existam diferenças individuais, a resiliência pode ser cultivada. Como qualquer virtude, fortalece-se pelo exercício constante. Cada pequena dificuldade enfrentada conscientemente amplia a capacidade de enfrentar desafios maiores no futuro.
Aproximar-se de alguém, iniciar um novo projeto, mudar de profissão, empreender, pedir uma promoção, expor uma ideia ou simplesmente sair da própria zona de conforto implica aceitar a possibilidade do fracasso
Talvez por isso antigos manuais de formação pessoal insistissem menos em medir talentos e mais em examinar o caráter. Em vez de perguntar apenas quais habilidades alguém possuía, propunham questões mais profundas: diante das dificuldades, costumo avançar ou recuar? Procuro desafios ou sigo sempre o caminho mais fácil? Aceito críticas como oportunidade de crescimento ou me deixo abater por elas? Quando fracasso, desisto ou recomeço? São perguntas antigas, mas continuam extraordinariamente atuais. Afinal, a qualidade de uma vida não depende apenas das oportunidades que encontramos, mas da maneira como respondemos a elas. E poucas virtudes influenciam tanto essa resposta quanto a resiliência.
Uma das descobertas mais inquietantes da psicologia moderna nasceu de uma experiência aparentemente simples. Alguns pesquisadores observaram que animais submetidos repetidamente a situações das quais não podiam escapar acabavam deixando de reagir, mesmo quando, mais tarde, a saída se tornava perfeitamente possível. A barreira estava aberta, mas eles já não tentavam atravessá-la! O fenômeno recebeu um nome sugestivo: desamparo aprendido.
Não somos simples animais. Contudo, a expressão descreve, curiosamente, uma tendência profundamente humana. Depois de sucessivas frustrações, corremos o risco de concluir que nossos esforços não fazem diferença. Não desistimos porque a situação seja objetivamente impossível, mas porque passamos a acreditar que qualquer tentativa será inútil.
Quem nunca experimentou algo semelhante? Há relacionamentos nos quais alguém fez tudo o que estava ao seu alcance e, ainda assim, foi abandonado. Há profissionais dedicados que veem promoções passarem para outros. Há estudantes que se esforçam intensamente e não alcançam o resultado esperado. Existem pais exemplares que enfrentam dores inesperadas, pessoas corretas que sofrem injustiças e trabalhadores honestos que atravessam longos períodos de desemprego... Mesmo que façamos tudo corretamente, existe uma grande teia de ações que nos transcende e abarca, e ela nem sempre parece justa, ainda que creiamos na justiça última de Deus. É o que os antigos chamavam de “Fortuna”, e tem algo a ver com o que São Paulo chamou de “o mistério da iniquidade” (cf. 2Tess 2, 7-8).
Essas experiências têm algo em comum: elas abalam nossa percepção de controle sobre a própria vida. Porque desde cedo aprendemos que boas ações costumam produzir boas consequências. Quando essa expectativa falha repetidamente, instala-se uma sensação perigosa de impotência. Surge a pergunta silenciosa e perigosa que corrói a disposição para agir: “Se nada depende realmente de mim, para que continuar tentando?”
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Entretanto aquelas mesmas pesquisas revelam um dado surpreendente. Nem todos reagem dessa maneira. Mesmo diante das mesmas circunstâncias, uma parcela significativa das pessoas consegue preservar a iniciativa, recuperar a esperança e enfrentar novos desafios. O sofrimento é real, mas não se transforma numa condenação permanente.
O que distingue esses dois grupos? A resposta parece estar menos nos acontecimentos que na forma como cada pessoa os interpreta. Os psicólogos chamam esse mecanismo de estilo explicativo: o hábito, quase sempre inconsciente, de atribuir significado aos fatos da própria vida.
Sempre que algo nos acontece, procuramos responder, ainda que intuitivamente, a três perguntas: 1. De quem é a responsabilidade? 2. Essa situação será permanente? 3. Ela compromete toda a minha vida ou apenas uma parte dela?
As respostas dadas a essas perguntas moldam profundamente nossa capacidade de recuperação. Algumas pessoas interpretam qualquer fracasso como prova de um defeito pessoal. Se algo deu errado, concluem imediatamente que elas próprias são inadequadas. Em seguida, acreditam que essa condição dificilmente mudará e, por fim, passam a enxergar o episódio como evidência de que toda a sua vida está comprometida. Assim, um único revés transforma-se numa sentença.
Outras pessoas percorrem o caminho oposto. Reconhecem sua parcela de responsabilidade, quando ela existe, mas também levam em conta circunstâncias externas. Percebem que determinadas dificuldades pertencem a um momento específico, e não necessariamente ao futuro inteiro. Sobretudo, recusam-se a permitir que um fracasso localizado defina todas as demais dimensões da existência. Essa diferença de interpretação altera profundamente a maneira de viver.
Imagine alguém dispensado do emprego. Uma reação possível consiste em concluir: “Sou incompetente. Nunca conseguirei outra oportunidade. Minha carreira acabou”. Pouco importa que nenhuma dessas afirmações possa ser demonstrada; elas rapidamente adquirem aparência de verdade. Outra pessoa, diante do mesmo acontecimento, poderá reconhecer fatores econômicos, mudanças na empresa ou simplesmente admitir que aquele cargo já não correspondia às próprias capacidades. Perder o emprego continua sendo doloroso, mas deixa de representar o colapso completo da própria identidade. A diferença entre essas duas leituras não está na intensidade da dor, mas nas possibilidades que permanecem abertas depois dela.
A resiliência começa quando deixamos de perguntar apenas o que aconteceu conosco e passamos a perguntar o que ainda podemos fazer a partir do que aconteceu
Naturalmente, o risco inverso também existe. Há quem jamais reconheça a própria responsabilidade por qualquer fracasso. Tudo seria culpa do governo, da economia, da família, da sorte ou das circunstâncias. Essa postura talvez alivie momentaneamente a consciência, mas impede qualquer crescimento. Afinal, se nada depende de mim, também não há nada que eu possa melhorar.
Eis aí. A maturidade exige um equilíbrio mais difícil, e esse equilíbrio é a nossa justa amoldagem aos fatos. É preciso admitir os próprios erros sem concluir que eles definem quem somos. Da mesma forma, é necessário reconhecer os limites impostos pelas circunstâncias sem utilizá-los como desculpa permanente para a inércia. E então voltar-se para o futuro. A resiliência começa precisamente nesse ponto: quando deixamos de perguntar apenas o que aconteceu conosco e passamos a perguntar o que ainda podemos fazer a partir do que aconteceu. Os acontecimentos exercem grande influência sobre nós, mas raramente determinam, por si sós, o rumo da nossa vida. Entre o fato e a reação existe um espaço invisível: a interpretação que fazemos daquilo que aconteceu. É nesse espaço que nasce – ou se perde – a resiliência.
Dois indivíduos podem enfrentar exatamente a mesma contrariedade e sair dela profundamente diferentes. Um permanece abatido durante meses; o outro, embora igualmente ferido, encontra forças para recomeçar. Em ambos os casos, a realidade objetiva é a mesma. O que muda é o significado atribuído a ela. Essa constatação possui consequências práticas importantes. Se nossas interpretações influenciam diretamente nossas reações, então vale a pena submetê-las a exame. Nem tudo aquilo que pensamos corresponde aos fatos.
O primeiro passo consiste em perguntar se nossa conclusão realmente encontra apoio na realidade. Quantas vezes confundimos uma impressão momentânea com uma verdade permanente? Em seguida, convém considerar outras explicações possíveis. Nossa mente costuma privilegiar a hipótese mais pessimista, como se ela fosse automaticamente a mais provável. No entanto, a experiência mostra que os acontecimentos humanos quase sempre possuem múltiplas causas. Nem tudo depende exclusivamente de nós, assim como nem tudo depende das circunstâncias. Também é saudável avaliar as consequências que estamos imaginando. O ser humano possui extraordinária capacidade para transformar pequenos acontecimentos em tragédias futuras. Uma dificuldade financeira converte-se, em poucos minutos, na certeza da ruína completa. Por fim, existe uma pergunta talvez ainda mais importante: esse modo de pensar nos ajuda a agir melhor?
Talvez essa seja a essência da resiliência. Não consiste em jamais cair, nem em permanecer indiferente ao fracasso. Consiste em recusar a tentação de transformar um acontecimento transitório numa verdade definitiva sobre nós mesmos. Quem aprende essa disciplina interior continua sujeito aos fracassos, às perdas e às decepções que acompanham toda existência humana. A diferença é que deixa de conceder a eles a última palavra. Com esta virtude, caríssimos, lutaremos até o apito final do grande jogo que é nossa vida.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Samia Marsili é médica, palestrante, escritora, mãe de 8 filhos e esposa do Dr. Italo Marsili, um dos psiquiatras mais influentes do país. Deixou o consultório médico e a residência em Pediatria para se dedicar integralmente à pesquisa e à prática da criação de filhos, aconselhando milhares de famílias por meio de seus conteúdos digitais. **Os textos da colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



