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Samia Marsili

Samia Marsili

Religião

O Sagrado Coração de Jesus e o nosso coração novo

sagrado coração de jesus
Quadro com os corações de Jesus e Maria era presença comum nas casas até algum tempo atrás. (Foto: Imagem criada utilizando Flow/Gazeta do Povo)

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Qual lar católico não tinha, uma ou duas gerações atrás, aquela típica dupla de quadros em sua sala? À esquerda, a Mãe Santíssima, com a mão esquerda sobre o alto do peito, próxima ao pescoço, e o dedo da mão direita a apontar para o seu coração, enfeitado de flores e sobre cujo topo arde uma chama. Ou, em outra versão bem semelhante, com a mão direita aberta sob esse mesmo coração, também a mostrá-lo, a apresentá-lo ao observador, para que o apreciasse. Às vezes, há também uma espada que lhe crava a carne, e que representa as sete dores da Mater Dolorosa. A Virgem, de trajes vermelhos cobertos por uma capa azul – é a divindade que cobriu a sua humanidade, como quando “o Espírito Santo a cobriu com sua sombra” (cf. Lc 1, 35).

À direita, ao seu lado, seu Filho Jesus Cristo, inversamente, com um tecido azul sobre o qual se estende um manto vermelho – mostrando que a divindade assumiu a humanidade. Em outras versões, o Cristo está já de vermelho com um manto branco ou dourado a cobrir-lhe. O simbolismo das cores pode variar, e cada opção carrega a sua riqueza diferente. Em algumas imagens, Jesus tem os braços ligeiramente abertos, a mão direita voltada para baixo e a esquerda para cima, ambas revelando os sinais dos cravos. Às vezes tem a mão esquerda aberta ao lado do peito, e com a direita faz aquele gesto de bênção – dois dedos ligeiramente erguidos, os outros dois próximos ao polegar. No centro, está o seu coração, o coração sagrado, que sangra de amor ao ser perfurado pela coroa de espinhos, e tem sobre si a cruz, que resplandece em meio ao fogo.

Nessas populares imagens, ambos, a Senhora e o Senhor, têm um ar plácido e um olhar sereno, ainda que voltado diretamente para o observador. Costumavam ter traços imperfeitamente renascentistas, Jesus e Maria branquinhos com os cabelos castanhos, com algo de italiano no desenho do nariz, do queixo, nos dedos gordinhos.

Essas imagens eram postas em lugares nobres das casas porque esse gesto faz parte da devoção ao Sagrado Coração, tal como foi, segundo cremos os católicos, apresentada, no século 17, a Santa Margarida Maria Alacoque, na França, pelo próprio Jesus. Trata-se da chamada entronização da imagem, isto é, o colocá-la num lugar de destaque na casa, reconhecendo Jesus como o centro e o rei do lar. Em outras palavras, é como se colocássemos o coração de Jesus no coração da casa, ou o coração de Jesus no lugar do nosso próprio coração.

O amor divino se pôs em ato num coração humano: o ser humano agora pode aprender a amar como Deus

A devoção toda tem uma série de outras características, que incluem gestos da nossa parte, mas também promessas da parte de Deus para os devotos do Coração. Eu estou me recordando de tudo isso porque anteontem, na sexta-feira, dia 12, a Igreja comemorou a festa própria desse tema. Mas, como costuma acontecer frequentemente, acredito que a religião oferece algo do seu tesouro até mesmo para aqueles que não creem, e inclusive para os que, mesmo sendo fiéis católicos, ainda não pararam para olhar com atenção esse símbolo tão central e importante.

Reparem que, há pouco, eu disse “estou me recordando...”. Recordar até trazer de volta para o cordis, ou para o “cárdio”, quer dizer, trazer outra vez para o coração. O exercício da memória é, sendo nos ensina a etimologia, um atributo do coração. Quem decora, ou sabe alguma coisa de cor, sabe “de coração”. Acordar é trazer o coração de volta ao estado de alerta. Fato é que o coração, sendo parte da anatomia humana, já tem seu simbolismo, por assim dizer, natural. Quer dizer que, mesmo antes da Encarnação do Verbo (Jesus Cristo), o coração humano já tem por si um grande peso de significado: central e pulsante, ele foi, desde sempre, um símbolo privilegiado da própria pessoa humana.

Segundo alguns arqueólogos e outros estudiosos, desde os tempos neolíticos o homem já vem representando, com intenção simbólica, e não apenas representativa, a víscera onde é elaborado nosso sangue, onde se concentra a nossa vida. Em todas as civilizações antigas que conhecemos, entre as da Ásia, da Europa e da África, até a nossa era, quando não se refere bem diretamente à pessoa humana, à sua própria alma, o significado relacionado à representação do coração humano refere-se mais à inteligência do que ao sentimento, ou, mais exatamente, fazem da imagem do coração bem mais o ideograma da faculdade de conhecer, de raciocinar e de compreender que o amor afetivo e físico.

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Sexta agora, além da festa do Sagrado Coração, foi também o Dia dos Namorados no Brasil. Quantos coraçõezinhos vermelhos não vimos por aí, em toda parte! Geométricos, assim, duas metades curvadas que se unem na ponta aguda, embaixo. Geralmente vermelhos, mas também rosados ou dourados, dando forma a caixas de bombons e outros presentes... Representam, todos eles, o “amor” sentimento, a ternura entre os casais. Está bem que seja assim; mas esse uso ficou bem distante da imagem do coração que faziam os antigos! Veremos logo por quê.

Os egípcios antigos, por exemplo, tinham um grande apreço por essa imagem. O deus Hórus, aquele que é representado pela figura do falcão, era chamado, aliás, de “o Coração divino”. Era ele quem transmitia ao faraó os “pensamentos divinos”. É também aquele que tem o famoso olho, desenhado popularmente hoje em dia. É curioso lembrar que aquele povo acreditava que, após a morte, a pessoa seria submetida também a um tribunal. Nesse tribunal era julgada toda a sua vida, e o primeiro e supremo ato de juízo consistia, justamente... na pesagem de seu coração. Com medo desse juízo, e como que para enganar os poderes da vida após a morte, o egípcio fazia com que os coveiros substituíssem seu coração de carne por um escaravelho de bronze, ou por um coração de pedra negra. Tentavam substituir sua vida – seria leviana demais? – por algo de maior peso. E vejam só: o cérebro, antes da mumificação, era descartado como coisa de pouco valor, diferentemente do que pensava, por exemplo, o filósofo grego Platão.

Já os gregos mais antigos, porém, aqueles de 200 anos ou mais antes de Platão, como os personagens dos dois grandes poemas épicos de Homero, pensavam quase do mesmo modo que os egípcios. Tinham o entendimento de que no coração residia o thymos, isto é, a energia vital, a força que animava o corpo, e que era também a causa dos ímpetos elevados do sentimento, da coragem – reparem de novo, coragem vem da mesma raiz que cor, cordis, sinônimo de bravura e intrepidez.

Para os judeus, o coração – Lev ou Lebab – era também o centro absoluto de todo o nosso interior. Era a sede da inteligência e da sabedoria, e também a sede da vontade livre, da pessoa que age, e portanto do amor. No famoso salmo penitencial 50, ou 51, o Rei Davi pede a Deus que “crie nele um coração que seja puro”, um coração novo. Ou seja, que purifique o seu interior do pecado, da má tendência, da degradação da natureza humana, e que “renove o seu espírito decidido”. “Amar com as entranhas” (rachamim) é, no Antigo Testamento, amar com o coração.

Queremos que nosso coração seja manso, e não feroz; humilde, e não orgulhoso, como o do Senhor que, mesmo sendo Deus infinito, quis fazer-se homem como nós

Quando enfim vem ao mundo Nosso Senhor Jesus Cristo, Ele confirma esse simbolismo do coração em passagens como “o homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Lc 6, 45).“Mas o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem. Porque do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfêmias” (em Mt 15, 18-19 ou Mc 7, 21-23). Também no Sermão da Montanha (Mt 5, 28), diz: “Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma mulher com desejo luxurioso, já cometeu adultério com ela em seu coração”.

Quando está pendente da Cruz, dá-se então a cena famosa, aquela que, de algum modo, não cessou jamais de acontecer, pois fez cruzarem-se, para sempre, o tempo e a eternidade: o momento em que o soldado Longino tomou de sua lança e perfurou o costado do Cristo. Ao abrir seu coração, dele jorram imediatamente sangue e água (Jo 19, 34). A Igreja afirma ter ela própria nascido exatamente ali. Ensina que dali brotaram os sacramentos, principalmente o Batismo (na água) e a Eucaristia (no sangue de Cristo). Do lado do Cristo, que padecia o sono da morte, nasceu a Igreja, que é a Esposa do Cristo, a nova humanidade redimida por ele, do mesmo modo como, do lado de Adão, que padecia um sono profundo, nasceu sua esposa Eva. A Igreja é a humanidade recriada no Novo Adão – mais exatamente, do coração do Novo Adão. No coração sagrado de Cristo que, a nos fiarmos em toda essa tradição concernente ao seu simbolismo, representa a própria Pessoa Divina, o Filho, Deus como o Pai e o Espírito, mas que se encarnou, que tomou para si a carne de um coração humano.

O amor divino se pôs em ato num coração humano: o ser humano agora pode aprender a amar como Deus. Por isso a imagem do Sagrado Coração, que habitava tantas casas, e pode ainda habitar as nossas, é o emblema do seu amor infinito por nós. Todo o sangue derramado na Paixão, o sangue em que o vinho se torna após a consagração do autor, todo esse sangue vem do centro, da víscera palpitante, do coração do Senhor. A luz e o calor do fogo representam para os nossos olhos que esse coração ama ardentemente, assim como conhece todas as coisas.

Nessa esteira, a tradição cristã sempre propôs a seus adeptos um caminho de “purificação do coração”, o qual só Deus conhece. Significa purificar-se das paixões, das más tendências, dos maus pensamentos, buscando uma qualidade de atenção e de vigilância que corrige ou torna reta as intenções de todos os nossos movimentos interiores, os quais, por sua vez, dão origem aos gestos exteriores. É como ensinava o Mestre: “o que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem”, e mesmo um olhar mal-intencionado nos fazer “cometer adultério no coração”.

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É célebre aquela escola oriental de oração, mais tarde chamada de hesicasmo, como lemos naqueles dois belos livros que trazem os Relatos de um Peregrino Russo. Esses ascetas buscam uma oração que, de tanto que tivermos repetido as palavras, e agrupado nossos sentimentos e intenções, passe a pulsar junto com o coração, não somente em seu sentido espiritual, mas encarnado, quer dizer, junto com o movimento do nosso próprio músculo cardíaco. Assim, aqueles monges cumpririam o mandamento de “orar sem cessar”, alcançando um estado em que seu coração já rezasse sempre, quase que espontaneamente, mesmo quando o corpo está dormindo. É um entendimento belíssimo da vida espiritual.

Contudo, seja qual for o modo da nossa “purificação do coração”, isto é, sejam quais forem nossas batalhas interiores e pessoais, e não importando quais sejam as armas que melhor nos cabem, as práticas de oração, de correção moral, de aprofundamento no estudo... toda a nossa vida, e tudo aquilo que fizermos, começa e termina no centro. Começa e retorna para o centro, como nos batimentos do nosso coração. E todos os nossos gestos, como o sangue bombeado, devem buscar, lá fora, algo que alimente a nossa transformação interior. Devemos estar sempre buscando cumprir aquele único ensinamento em que, na Bíblia, Jesus falou sobre seu próprio coração (Mt 11, 29): “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”. Queremos que nosso coração seja manso, e não feroz; humilde, e não orgulhoso, como o do Senhor que, mesmo sendo Deus infinito, quis fazer-se homem como nós.

Que o Senhor do Sagrado Coração faça o nosso coração semelhante ao d’Ele, para que, no dia do juízo, não seja o nosso coração leve e indiferente sobre a balança, mas que tenha consistência e peso sobre a medida do amor, que vale mais do que qualquer peça de bronze ou pedra. Melhor seria ainda se tivéssemos nos livrado desse nosso coração de pedra! Se Deus tiver criado em nós, como pediu o salmista, um coração novo. Melhor ainda que, no lugar do nosso coraçãozinho pobre, estivesse, trocado por ele, o próprio Coração Sagrado do Senhor: como a imagem entronada no centro da nossa casa, o coração de Jesus no lugar do nosso próprio coração.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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