
Ouça este conteúdo
Não me lembro de ter assistido a algo tão deprimente como o desfile em homenagem a Lula feito pela Acadêmicos de Niterói, no carnaval do Rio de Janeiro.
A lista de problemas jurídicos e éticos é numerosa. O principal deles: a escola de samba recebeu recursos – cerca de R$ 1 milhão – do governo federal. Sim, outras escolas também receberam, mas isso não muda o fato de que dinheiro público foi utilizado para realizar propaganda pessoal do atual presidente da República. A escola também teria recebido recursos públicos da prefeitura de Niterói, dirigida por um aliado político de Lula. O dinheiro do contribuinte foi, portanto, utilizado para fazer culto à personalidade do presidente da República.
Bastaria ter imposto à escola a proibição de fazer propaganda pessoal de político com os recursos recebidos. À escola caberia escolher fazer o desfile de propaganda sem o dinheiro público, ou mudar de tema e usar os recursos.
O dinheiro do contribuinte foi utilizado para fazer culto à personalidade do presidente da República
Quando vi um dos carros alegóricos com um boneco gigante de Lula com o braço para cima, em pose de vitória, lembrei-me daqueles monumentos para a celebração de déspotas ou ditadores, como a grande estátua de bronze do ditador Kim II-sung, avô do atual líder Kim Jong-un, da triste Coreia do Norte. O Brasil segue rumo ao modelo Pyongyang?
Como se o escândalo não fosse suficiente, estamos em ano eleitoral e Lula pretende concorrer à reeleição. O desfile na avenida destinado ao seu enaltecimento quebra as regras de paridade das eleições e configura abuso de poder político e propaganda eleitoral antecipada.
TCU e TSE foram provocados para impedir o ilícito, mas lavaram as mãos. Os técnicos do TCU haviam recomendado o veto do repasse de recursos do governo federal. Foram ignorados pelo ministro relator do caso, Aroldo Cedraz. Já o TSE liberou o evento sob o pretexto de que não poderia fazer “censura prévia”, ignorando o uso de dinheiro público. Alguns creem que o TSE ainda poderá fazer algo a posteriori; eu simplesmente não acredito nisso.
O desfile foi abjeto. Os escândalos de corrupção foram omitidos. Não houve carro alegórico para o Departamento de Propina da Odebrecht, para o sítio de Atibaia ou para o tríplex do Guarujá. Não reconheci nem Marcos Valério, nem o mensalão no enredo. Também omitiram os esquemas mais recentes, do roubo dos aposentados e pensionistas do INSS e, ainda, da fraude do Banco Master.
Não faltaram ataques aos adversários políticos. Entre eles, pelo jeito, a família brasileira, os evangélicos e o agronegócio. Michel Temer foi retratado como um ladrão da faixa presidencial, enquanto a Jair Bolsonaro foi reservada uma caracterização de mau gosto, como o palhaço Bozo, recolhido e preso.
O Brasil vivencia uma rápida deterioração da institucionalidade e dos costumes políticos. Esse desfile foi representativo. Corremos o risco de normalização do ilícito e do inaceitável. Na longa lista dos escândalos mais recentes, este foi mais um deles.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos




