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Em plena corrida presidencial, a direita foi sacudida pela discórdia no núcleo mais íntimo do seu líder, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O confronto entre a ex-primeira-dama Michelle e o enteado Flávio expôs uma disputa que vai além de 2026, mirando o mando do campo conservador no futuro.
O vídeo de 27 minutos de Michelle com críticas ao candidato do seu partido, divulgado no fim de junho, seguido de outros gestos, escancarou a competição para liderar a direita. Projetos de poder de expoentes do PL e siglas da centro-direita ficam nítidos e brigam entre si, com 2030 no alvo.
O cenário em construção para a eleição seguinte, que só ocorrerá daqui a quatro anos, já se projeta sobre o quadro atual e influencia movimentos de diferentes atores. O principal vetor é a certeza de que o ciclo petista se encerrará de vez em 2030, considerando a hipótese de Lula ser eleito pela quarta vez.
Com vitória do petista, também há boa chance de Bolsonaro e filhos ficarem de fora na eleição seguinte devido a questões de saúde do pai e, sobretudo, à indisposição dominante no Judiciário contra eles, cujo perfil hostil da Corte seria perpetuado com mais quatro nomeações do atual presidente.
A ansiedade de alguns por se posicionar como opções para a conquista do Executivo ou apenas por apoiar a movimentação de candidatos ao Congresso, visando formar a própria bancada parlamentar, pode ser explicada por uma expectativa de a eleição de Flávio em 2026 se desdobrar numa reeleição dele.
A eventual derrota eleitoral de Flávio este ano possivelmente consolidaria o cerco judicial ao pai e filhos 01 e 03. E como pano de fundo dessa deterioração definitiva do equilíbrio entre Poderes na República estão as revelações do escândalo do Banco Master, que alveja transversalmente o mundo político.
Vitória de Lula em 2026 pode alijar a família Bolsonaro do jogo político
Antes de Bolsonaro indicar o seu filho primogênito, havia uma grande articulação de direita e de centro-direita para lançar à Presidência o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Tal candidatura acabou adiada para 2030, quando ele deverá findar o segundo mandato à frente do estado.
Caso a fila de candidaturas à direita ande com Tarcísio, a família Bolsonaro ficaria ainda mais distanciada do Palácio do Planalto. Além de escantear Jair e Flávio, manteria o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) no exílio, pois ele precisa da vitória do irmão para viabilizar sua volta ao país em liberdade.
Por outro ângulo é possível enxergar o promissor nome do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), mais influente parlamentar nas redes sociais e maior líder jovem do país, que, para chegar à Presidência, ainda precisa atingir a idade mínima de 35 anos para ser candidato, o que estaria já sanado em 2034.
A crise familiar e política da direita escancara a formação dos seus polos internos, organizados com base em crenças religiosas, vínculos ideológicos estritos e alternativas mais abertas ao diálogo com forças divergentes. À frente desses movimentos estão jovens, mulheres, evangélicos e soldados.
Outro pano de fundo importante para quem persegue 2030 estão trágicas perspectivas para o horizonte econômico a partir de 2027, desafiando o próximo mandato presidencial. A lambança fiscal do Lula 3 exigirá medidas austeras, mas elas são totalmente dissonantes com o perfil da gestão lulista.
Muitos então podem estar torcendo para Lula se ver mergulhado em grave crise logo no início de um eventual quarto governo, tornando mais urgente a mudança de rumo adiada pelas urnas de 2026. Até mesmo Renan Santos (Missão) veria terreno fértil para propor o ajuste radical do argentino Javier Milei.
No lado da esquerda, todas as fichas seguem colocadas em Lula até mesmo por absoluta falta de opção. Em 2030, hipotéticos sucessores dele ainda têm de ser construídos, sendo que nomes citados para esse papel estão muito longe de alcançar a densidade eleitoral, deixando 2030 à mercê da direita.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que divergências restritas aos bastidores passaram a ser expostas publicamente. O conflito entre Michelle e Flávio revelou a ansiedade de grupos rivais na direita em ocupar posições estratégicas antes mesmo de encerrada a corrida presidencial em curso.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




