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O petróleo entrou de vez na corrida presidencial. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) amarra as novas fronteiras exploratórias à Petrobras, Flávio Bolsonaro (PL) abre pontes com empresas privadas e incorpora especialistas do setor à elaboração de seu programa de governo.
O movimento ganhou visibilidade após recente encontro do senador com representantes de grandes empresas de petróleo e energia. A reunião reuniu executivos interessados em abrir diálogo com uma eventual gestão do candidato da direita e em discutir rumos da política energética brasileira.
A aproximação ocorre justamente quando a campanha do PL reforça a equipe com quadros ligados ao mercado. O ex-ministro Adolfo Sachsida integra o núcleo econômico, enquanto Adriano Pires e Alexandre Chequer foram escalados para formular as propostas de energia e infraestrutura.
Flávio indica uma agenda liberal para o setor de energia
A composição sinaliza orientação mais aberta ao capital privado. Pires é especialista no setor e fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Chequer atuou na elaboração da Lei do Petróleo, na estruturação da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e em ações envolvendo a Eletrobras.
Sachsida acrescenta a experiência de ter comandado o Ministério de Minas e Energia no governo Jair Bolsonaro. A presença desses nomes reforça visão que privilegia investimentos privados, competição e segurança regulatória, contrapondo-se ao modelo de um Estado predominantemente empresário.
Essa orientação recupera teses de Paulo Guedes. Em 2019, após leilões com baixa competitividade, o ex-ministro da Economia defendeu mudanças no modelo de partilha do pré-sal, argumentando que o regime restringia a concorrência e trazia situações em que o Estado negociava consigo mesmo.
Guedes alertava para a janela do petróleo
O raciocínio de Guedes consistia em acelerar a transformação das reservas em riqueza via ampliação do espaço privado. A preocupação ganha peso diante da transição energética: demorar para explorar o petróleo pode levar à perda de oportunidades quando a demanda global começar a recuar.
Esse debate reaparece agora com a Margem Equatorial e a necessidade de recomposição das reservas. A Petrobras estima que o pré-sal alcance seu pico de produção em 2034, o que torna as novas fronteiras essenciais para evitar queda acentuada do patamar extrativo do país na década seguinte.
Flávio converteu parte da discussão em promessa eleitoral. O candidato disse que, se eleito, extinguirá o imposto de 12% sobre a exportação de petróleo bruto criado pela gestão atual. Para ele, a tributação desestimula produção e investimentos justamente quando o país deveria ampliá-los.
Lula leva a Margem Equatorial para a campanha e exalta papel indutor do Estado
Lula também incorporou o tema à sua plataforma. Na segunda-feira (17), o petista visitou um navio-sonda da Petrobras na costa do Amapá e classificou a descoberta no poço Morpho como novo “passaporte para o futuro”, associando a fronteira ao progresso, à soberania e à proteção ambiental.
A viagem teve forte teor político. Lula estava ao lado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), no primeiro evento público dos dois após três meses afastados. O senador agradeceu o esforço do governo para viabilizar a exploração e Lula elogiou o avanço de suas pautas no Congresso.
A convergência beneficia os dois. Lula associa sua gestão à nova promessa de riqueza e fortalece Clécio Luís (União), candidato à reeleição para o governo do Amapá. Alcolumbre associa o seu grupo político às expectativas de investimentos, empregos e desenvolvimento com a atividade petrolífera.
Duas visões para a mesma riqueza
A divergência tende a se concentrar menos na conveniência de explorar e mais na estratégia de execução. Lula preserva a Petrobras no centro da estratégia de desenvolvimento. Já Flávio cerca-se de apoiadores da livre concorrência, previsibilidade jurídica e maior participação do setor privado.
Para as petroleiras, há questões imediatas em jogo, que vão da política tributária às regras de concessão e partilha. A aproximação com Flávio mostra que o setor mapeia cenários eleitorais e procura participar da formulação de diretrizes que guiarão aportes bilionários na próxima década.
O petróleo torna-se então valiosa pauta eleitoral. Com a proximidade do pico de produção do pré-sal, Lula e Flávio enfrentam o mesmo desafio sob perspectivas opostas sobre como converter rapidamente reservas nacionais em ativos reais antes que a janela global dos combustíveis fósseis se feche.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.





