
Andar de ônibus é uma arte. Não é qualquer piá de prédio que consegue encarar o cotidiano nas latas de sardinha de Curitiba. Sem falar no tempo de espera nos pontos. Ser um usuário do transporte coletivo da capital é uma aventura tão eufórica que pode até levar à morte.
O amigo surdo Thiago Costa desfruta há anos dessa experiência e nos deixa seu relato. Leia nas próximas linhas.

Sempre tem um que olha para o lado errado
“Há pessoas que têm um verdadeiro talento para a chatice. É aquele tipo de gente que estraga o dia dos outros com os gestos mais simples, com elementos que, “nas mãos” de outras pessoas, seriam armas completamente inofensivas.
Por algum motivo misterioso, eles costumam aparecer sempre no ônibus. Há três tipos básicos de chato de ônibus: o chato chato, o chato tabagista e o chato musical.
O primeiro, o chato chato, doravante mencionado apenas como CC, é o que menos merece ser criticado, pois possui um talento nato, um dom adquirido ainda no ventre materno. O CC não tem consciência de que é chato. Ele vive numa dimensão alheia ao bom senso e à observação do mundo que o cerca. Para identificá-lo, basta prestar atenção a alguns sintomas comuns a todos os CCs.
Primeiro: ele sempre chega atrasado ao ponto de ônibus, geralmente quando o veículo já se encontra totalmente lotado. O CC poderia esperar pela próxima condução, mas não! Ele adentra espalhafatoso pelas portas que se fecham, espremendo jovens, idosos e crianças. Ninguém está imune ao CC. Quando todos já haviam encontrado seu lugar no exuberante emaranhado humano, o CC, com sua teimosia, faz com que todos precisem reconfigurar suas posições e encontrar novos espaços, novos pedaços de chão para apoiar as pontas dos pés.
O CC, inexplicavelmente, SEMPRE vem parar ao seu lado. Aí começa o tormento! A primeira coisa que o CC faz é segurar-se no mesmo ferro que você. Ele coloca as mãos sempre perto, muito perto das suas. A cada curva é uma ralada com as mãos do inconveniente. Aquilo incomoda, mas você se mantém calado, para não arrumar confusão. A segunda manobra do CC é colocar o cotovelo a poucos centímetros do seu rosto. Outra curva, e você ganha uma ralada de mão e uma esfregada de nariz no braço do indivíduo. Outro detalhe importante é a bolsa. O CC sempre carrega uma bolsa, que pode ser mochila ou aquela carregada a tiracolo. Não importa; ele sempre irá encaixá-la bem em seu rim, no lugar mais incômodo possível.
A essas alturas você sente-se tentado a manifestar sua indignação e dizer ao CC o quanto ele é chato e folgado. Começa a imaginar o que vai falar, mas não consegue achar nada que não possa ser rebatido pelo CC com um “não ta vendo que o ônibus ta lotado? Vai de taxi se quer espaço só pra você”. Corre ainda o risco de ter de enfrentar o olhar de reprovação dos outros passageiros, que vão te achar fresco e metido a besta. Em outras palavras, o CC possui o álibi para continuar o terrível jogo de tortura.
O passo seguinte é o barulho com a boca. O CC sempre – sempre – emite barulhos inexplicáveis com a boca. A tortura é sutil, um castigo lento e desgastante. Um barulho de saliva ou um pigarrear que se repete ad infinitum. O barulho começa a ser notado aos poucos por você, mas logo vai tomando vulto, vai se encorpando, vai ficando alto, ensurdecedor. Você se sente dentro da própria boca do chato, sendo levado por uma torrente de revolta, ânsia, desespero e saliva. Nesse estágio, você já não ouve mais o ronco do motor do ônibus, não vê a paisagem que passa lenta, não sente seu corpo, seus membros. Apenas o barulho infernal que provém do chato lhe toma os sentidos.
Mas, como tudo na vida, a viagem também uma hora termina. Depois de uma eternidade para você, mas termina. Você olha para a porta do ônibus como um condenado que se delicia com a previsão de liberdade. Faltam poucos segundos para o fim do suplício. É só descer do ônibus e correr para a vida, mas não sem antes tomar uma cotovelada no ombro, quando o chato solta de onde se segurava.
Os dois outros tipos de chatos – o tabagista e o musical – aparecem com menos frequência, mas merecem uma menção honrosa, pelo incômodo que provocam. O chato tabagista ataca nas filas de ônibus. Acende o cigarro como se fosse o senhor do universo. Pouco se importa com a multidão de reféns que têm de absorver a fumaça que exala de seus pulmões. Se alguém o repreende, o chato tabagista se revolta, grita, xinga, defende-se, incapaz de perceber o quanto está sendo inconveniente aos demais.
Por fim, o chato musical. Geralmente tem pouca idade e anda em bando com adolescentes de trejeitos ameaçadores. Liga o celular ou mp3 no último volume suportado pelo equipamento. Obriga os demais passageiros a compartilharem de seu gosto pelo dance, funk ou rap. A música clássica dos ligeirinhos de Curitiba se mistura ao som agudo e rasgado dos aparelhos, criando uma sinfonia horripilante de violinos e batidas frenéticas. Os demais passageiros se olham, impotentes.”
Por Thiago André Costa



