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Thiago Braga

Thiago Braga

Entender a história da guerra é entender a história dos homens. Uma nova coluna todo domingo.

Desinformação histórica e militância

A cultura woke precisa de uma Helena negra

Recuperação de Helena por Menelau. Ânfora ática de figuras negras (c. 550 a.C.), de Vulci — prova visual de como os gregos representavam Helena. (Foto: Bibi Saint-Pol/Pintor Amasis/ Coleções Estatais de Antiguidades/Wikimedia Commons)

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Infelizmente, eu estava certo, e o cenário é tenebroso: cada vez mais essas redes sociais de vídeos curtos, em especial o TikTok, têm sido uma tragédia quando o assunto é passar desinformação histórica. Sou a favor da liberdade de expressão, mas, em prol de uma narrativa progressista, alguns influencers abusam desse privilégio democrático.

Mais uma vez, estamos falando da Grécia Antiga: eles defendem que a Helena de Troia negra é totalmente aceitável; afinal de contas, os gregos tinham contato com povos negros.

Esse argumento é tão estúpido que parece cômico: a primeira pergunta que a gente precisa fazer é por que, então, nunca na história grega, nem em uma única arte, os gregos representaram Helena como negra?

Os etíopes, termo genérico para se referir a povos africanos abaixo do Egito, eram estrangeiros. Curiosamente, Heródoto, no livro III, diz que etíopes e indianos tinham cor de pele semelhante.

Aliás, Heródoto tem sido um dos baluartes dessa galera sinalizadora de virtude: nesses vídeos horrorosos, eles dizem que o próprio Heródoto narrou que “os homens etíopes eram os mais altos e mais bonitos”. Logo, se Heródoto disse isso, os gregos diziam isso.

Do ponto de vista histórico-crítico, qualquer estudioso sabe que o que uma pessoa disse no passado não deve ser entendido como representando um povo. Só tem um pequeno probleminha na própria fala de Heródoto que passa batido em muitos desses vídeos: não foi Heródoto que disse isso.

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No mesmo livro III, Heródoto diz que “dizem”. Não sabemos quem diz: gregos, persas, indianos? Nem quantos dizem: dez, vinte, mil pessoas? A Grécia, no período de Heródoto, tinha cerca de 4 milhões de pessoas; então, citar Heródoto para validar a inclusão de uma Helena negra não faz sentido algum.

Inclusive, não vamos esquecer que Andrômeda era etíope e, na cultura grega, era representada com fenótipos gregos... Isso já diria muita coisa se militantes estivessem minimamente atentos ao que os gregos nos dizem através da sua cultura milenar.

E o pior é que o próprio Heródoto detona esse romantismo no mesmo livro III, parágrafo 101 de sua obra História. Veja o que ele diz, referindo-se aos indianos e etíopes: “A relação sexual de todos esses indianos de quem falei é aberta como a do gado, e todos eles têm a mesma cor de pele, semelhante à dos etíopes; além disso, o sêmen que emitem não é branco como o das outras raças, mas preto como a sua pele; e os etíopes também são semelhantes neste aspecto.”

Isso já entraria em confronto direto com a perspectiva de que Heródoto se refere aos povos negros de maneira lisonjeira. Romantizar a história pode decepcionar corações “moderninhos”.

Os gregos não viam etíopes como gregos; eles eram os “outros”. Logo, imaginar Helena negra era algo que os gregos não imaginavam naquela época

Novamente, não se trata mais de “é só um filme”. Como disse na minha coluna anterior, Nolan tem o direito de fazer o que quiser com o filme dele. O problema é que essa gente politicamente correta quer usar a história para validar suas agendas, e o filme de Nolan tem servido a esse propósito.

O assunto da cor da pele para os gregos é fascinante: seu padrão de beleza, sua cultura e seu idealismo masculino e feminino.

Eu fiz um vídeo com estudos detalhados no meu canal Brasão de Armas, refutando ponto a ponto essas distorções históricas. Caso o leitor queira se aprofundar mais no assunto, acredito que será bem útil: “Os GREGOS Eram NEGROS: Respondendo MILITANTES”.

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