
Ouça este conteúdo
A França tem uma história linda e violenta. E a violência está escrevendo novamente a história da França nos últimos dias. Os protestos que começaram em setembro, em escolas dos subúrbios populares ao norte de Paris, cresceram e incorporaram a insatisfação com o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos. Em 17 de outubro, centenas de milhares de pessoas foram às ruas. Houve manifestações pacíficas, mas também saques, incêndios e confrontos. A diversidade dessas ações exige cuidado: uma multidão não tem necessariamente uma única voz, nem um único objetivo.
Diante dessas imagens, a comparação com a Revolução Francesa é irresistível. Entretanto, aproximar toda barricada da Bastilha explica pouco. Em 1789, a crise financeira da monarquia, os privilégios jurídicos e a disputa pela representação política se combinaram com dificuldades de abastecimento. Os manifestantes atuais vivem sob instituições e condições profundamente diferentes. O vínculo histórico mais interessante está em uma pergunta persistente: o que acontece quando parte da sociedade deixa de reconhecer nas decisões do governo uma resposta às suas necessidades?
A experiência francesa oferece respostas variadas. As revoluções de 1830 e 1848 mostraram que as ruas podiam derrubar governos. Também demonstraram que os participantes de uma mesma mobilização podiam divergir sobre o futuro. Liberais, republicanos e trabalhadores nem sempre desejavam a mesma transformação. A unidade contra uma autoridade não significava acordo sobre quem deveria substituí-la ou sobre como distribuir o poder.
A capacidade de ocupar as ruas e a capacidade de conquistar votos são formas distintas de força política
Maio de 1968 acrescentou outro capítulo. A contestação estudantil encontrou uma gigantesca mobilização trabalhista, reunindo críticas à autoridade, às relações de trabalho e aos costumes. Ainda assim, a crise não terminou com a revolução imaginada por alguns participantes. Nas eleições legislativas seguintes, o campo governista conquistou uma ampla vitória. A lição merece atenção: a capacidade de ocupar as ruas e a capacidade de conquistar votos são formas distintas de força política.
Mais recentemente, os coletes amarelos, surgidos em 2018, evidenciaram como uma medida apresentada pelo governo como necessária podia ser recebida como injusta por quem arcaria com seus custos. Nas disputas francesas, o conteúdo de uma política frequentemente se mistura à percepção de distância entre governantes e governados. Quando essa distância aumenta, uma reivindicação específica pode se tornar o ponto de encontro de frustrações acumuladas.
Essa é uma chave possível para interpretar a crise atual. Uma escola sem condições adequadas de funcionamento representa, para seus alunos, uma experiência concreta de abandono. O governo pode apresentar razões orçamentárias; as famílias continuarão perguntando por que o sacrifício chega à sua porta. A negociação democrática precisa enfrentar as duas questões: como financiar os serviços e como distribuir os custos de maneira considerada legítima.
Isso não transforma destruição em argumento. Vândalos tomaram as ruas da França junto dos manifestantes; aliás, muitos manifestantes são destruidores, realmente. Incendiar patrimônio público e saquear estabelecimentos prejudica pessoas que também dependem da cidade e de seus serviços. As demandas são reais e legítimas; a violência não é legítima, mas real.
A história francesa não diz como essa crise vai acabar. Extremistas da esquerda já estão dizendo que é uma Revolução Francesa 2.0. Seja como for, a história daquela nação pode nos ajudar a compreender seu desafio central. A autoridade precisa preservar a ordem e manter canais de escuta; os movimentos precisam converter indignação em propostas e representação. Entre as urnas e as ruas, os próximos dias vão decidir os rumos da França.

Thiago Braga é professor, youtuber e divulgador científico. Licenciado em Literatura e História, é especialista em Ciências Humanas: história, filosofia e sociologia pela PUCRS, e Língua e Literatura Inglesa pela PUC Rio. Criador dos canais “Brasão de Armas” e “Impérios AD”, leciona na Faculdade de Educação do RJ. Foi eleito Melhor Influenciador de Educação do Brasil pelo Prêmio iBest em 2023 e 2024. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




