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Uma onda vinda do mar: mas não era uma onda de água; era uma onda de pessoas. A recente invasão em massa de migrantes marroquinos à cidade de Ceuta recolocou no centro do debate internacional uma antiga questão geopolítica: por que existe uma cidade espanhola em pleno continente africano? Para compreender os acontecimentos dos últimos dias, é necessário voltar mais de seis séculos na história.
Tudo começou em 1415, quando o rei D. João I de Portugal, acompanhado dos infantes D. Duarte, D. Pedro e do célebre Infante D. Henrique, liderou a conquista de Ceuta. A cidade era então um importante entreposto comercial muçulmano, controlando parte das rotas que ligavam o Mediterrâneo ao Saara. A tomada de Ceuta marcou o início da expansão marítima portuguesa e é frequentemente considerada o primeiro grande passo da chamada Era dos Descobrimentos.
Durante cerca de 240 anos, Ceuta permaneceu sob domínio português. Nesse período, a cidade transformou-se em uma fortaleza estratégica para controlar o Estreito de Gibraltar e proteger as rotas marítimas entre o Atlântico e o Mediterrâneo. Entretanto, em 1580, Portugal e Espanha passaram a ser governados pelo mesmo monarca durante a chamada União Ibérica. Embora os dois reinos mantivessem administrações distintas, Ceuta passou a conviver com uma crescente presença de interesses espanhóis.
A grande mudança ocorreu em 1640, quando Portugal recuperou sua independência da Coroa espanhola. Curiosamente, Ceuta optou por permanecer fiel ao rei da Espanha, e não ao novo governo português. Essa escolha foi oficialmente reconhecida pelo Tratado de Lisboa de 1668, no qual Portugal reconheceu definitivamente a soberania espanhola sobre a cidade. Desde então, Ceuta tornou-se parte integrante da monarquia espanhola e, posteriormente, do Estado espanhol moderno.
Essa condição, porém, nunca foi plenamente aceita por Marrocos. Após conquistar sua independência da França e da Espanha, em 1956, o governo marroquino passou a reivindicar Ceuta e Melilla como territórios que considera ainda sob ocupação estrangeira. A Espanha rejeita essa interpretação, sustentando que ambas fazem parte do território espanhol há séculos e que seus habitantes são cidadãos espanhóis, além de integrarem plenamente a União Europeia.
É justamente essa posição geográfica singular que explica a recorrência das crises migratórias. Ceuta representa uma das únicas fronteiras terrestres entre a África e a União Europeia.
Para milhares de africanos e marroquinos em busca de melhores condições de vida, atravessar seus muros ou contornar suas barreiras marítimas significa alcançar território europeu
Nos últimos dias, a cidade voltou a viver momentos de enorme tensão. Dezenas de milhares de migrantes atravessaram a fronteira em um curto espaço de tempo, sobrecarregando os serviços públicos, mobilizando forças militares espanholas e provocando intenso debate político dentro da Espanha e da União Europeia. O episódio resultou em confrontos, mortes e em uma rápida cooperação entre Madri e Rabat para promover o retorno de grande parte dos migrantes.
A crise atual demonstra que Ceuta continua exercendo exatamente o mesmo papel estratégico que possuía em 1415. Se antes sua importância estava ligada ao controle das rotas comerciais entre continentes, hoje ela se encontra no centro das discussões sobre soberania, segurança de fronteiras, imigração e relações entre Europa e África. A história da cidade revela como decisões tomadas há mais de seiscentos anos ainda moldam alguns dos desafios políticos mais complexos do século XXI.

Thiago Braga é professor, youtuber e divulgador científico. Licenciado em Literatura e História, é especialista em Ciências Humanas: história, filosofia e sociologia pela PUCRS, e Língua e Literatura Inglesa pela PUC Rio. Criador dos canais “Brasão de Armas” e “Impérios AD”, leciona na Faculdade de Educação do RJ. Foi eleito Melhor Influenciador de Educação do Brasil pelo Prêmio iBest em 2023 e 2024. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




