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Thiago Braga

Thiago Braga

Entender a história da guerra é entender a história dos homens. Uma nova coluna todo domingo.

Liberdade artística ou lacração?

Nolan e sua Helena de Troia

Helena de Troia ao longo do tempo: a pintura de 1898 por Evelyn De Morgan; Diane Kruger no filme “Tróia” (2004); e Lupita Nyong’o, apontada como possível intérprete em “A Odisseia” (2026), dirigido por Christopher Nolan. (Foto: Museu De Morgan/Wikimedia Commons; Divulgação/Warner Bros..; Caroline Brehman/EFE/EPA)

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A Helena de Troia negra está dividindo opiniões na internet: de um lado, os fãs de Nolan, o diretor do filme A Odisseia, que, segundo fortes rumores nas redes sociais, teria escalado Lupita Nyong’o para interpretar a personagem; do outro, existem aqueles que apreciam a história e a cultura grega e acham que essa escalação é mais uma prova da lacração e da cultura woke hollywoodiana, porque o mundo sabe que Helena era grega, portanto, europeia.

Estamos falando de um filme aqui: como defensor da liberdade de expressão que sou — e tenho certeza de que o leitor também compartilha essa visão comigo —, o filme é do diretor e de sua equipe, e ele tem o direito de fazer o que bem entender. Se Nolan quiser colocar o Batman na Guerra de Troia, ele pode colocar. Aliás, parece que ele fez isso mesmo, a julgar pelo trailer lançado em janeiro.

Em outras palavras, nada impede o diretor de fazer o que bem entende em qualquer obra que faça. Muitos defendem isso, e eu também. Porém, um filme é uma obra cultural destinada ao público, e a crítica faz parte do jogo. Senhoras e senhores, não temos dúvidas de que Nolan está bem ciente da enxurrada de críticas que suas escolhas no filme estão causando no mundo cinéfilo.

Estamos falando da obra homérica Odisseia, na qual Nolan se baseia (pelo menos diz se basear) para fazer o filme. De cara, muitos defendem que a obra de Homero é fantasia; logo, o diretor pode fazer o que quiser, inclusive colocar uma Helena de Troia negra. Como disse há pouco, sim, ele pode fazer o que quiser, pois o filme é dele.

Mas, ao dizerem que “é uma obra de fantasia, logo Nolan pode fazer tudo”, eles estão, na verdade, validando as decisões do diretor dentro do que entendem ser o mundo daquela obra hoje. E aí está o grande problema.

Nolan está se baseando em uma obra escrita há quase 3 mil anos, e, na época em que foi escrita e por muitos séculos seguintes, aquilo não era fantasia para os gregos; era história real.

Odisseu era real, os deuses eram reais, Helena era real. Portanto, não é correto alterar ou mudar padrões estabelecidos pelos gregos que escreveram sobre essa história “real” para eles

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Não cabe a nós dizer: “é fantasia, logo eu faço o que quiser com aquela história”. Isso é estupidamente egoísta e desrespeitoso com a cultura de um povo! Nesse caso, por que não criar uma história própria, então, do seu jeito? Por que colocar no título do filme e usar como base a Odisseia de outra pessoa?

Obviamente, é impossível ser fiel em cada detalhe da obra, e algumas liberdades artísticas são necessárias e esperadas para preencher lacunas de enredo ou limitações de tempo. Mas por que colocar uma Helena de Troia negra, quando as descrições e a iconografia milenares apontam para uma Helena grega e loira?

Inclusive, já há vídeos nas redes tentando provar que a descrição da “Helena branca e loira” é invenção moderna; os gregos não a descreviam assim; logo, o que o mundo ocidental hoje pensa sobre Helena seria sua própria idealização “branca”.

Pura ignorância! Homero, no Canto III da Ilíada, usa o epíteto “braços brancos” para se referir a Helena (assim como à deusa Hera). A poetisa grega Safo, do século VI a.C., em sua obra Fragmentos 23, refere-se a Helena como sendo loira; Eurípides, em sua peça Helena, descreve-a com cabelos dourados. Fora as incontáveis artes mostrando uma Helena indiscutivelmente grega, nos padrões de beleza gregos.

Os gregos viam Helena como grega e a descreveram assim durante séculos; até mesmo os romanos a viam dessa forma. Eu fiz um vídeo bem detalhado e repleto de fontes no canal Brasão de Armas, mostrando como os gregos viam Helena de Troia.

Portanto, não faz sentido, em qualquer nível de senso comum, alterar a etnia de pessoas que representavam os gregos e eram reais para eles. Eles nos mostraram e contaram como era a aparência deles. É a história deles que Nolan decidiu contar.

Se os donos daquela história definiam os personagens nesses termos, é desrespeito à memória deles alterar isso pelo bem de uma inclusividade forçada do século XXI. Não há razão para mudar os fenótipos europeus de Helena de Troia.

Na verdade, existe, sim, uma razão bem gananciosa e capitalista por trás disso: chama-se Óscar. Nesse caso, os diretores mudam até a aparência da própria mãe, se for preciso.

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