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Thiago Braga

Thiago Braga

Entender a história da guerra é entender a história dos homens. Uma nova coluna todo domingo.

Distorção

O novo mapa-múndi da ONU: ideologia ou ciência?

Animação do cientista Neil Kaye, publicada em 2019, compara a projeção de Mercator com o tamanho real dos países. A ONU aprovou em 4 de setembro resolução que incentiva mapas menos distorcidos. (Foto: Reprodução/X/Neil Kaye/@neilrkaye)

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O mapa-múndi que conhecemos não é o mapa do mundo que conhecemos. Há algumas semanas, a ONU resolveu mexer em uma daquelas coisas que parecem tão estabelecidas que raramente paramos para pensar nelas: o mapa-múndi.

No início de setembro, a Assembleia Geral aprovou uma resolução incentivando governos, escolas, organizações internacionais e empresas de tecnologia a utilizarem mapas que representem com maior fidelidade o tamanho relativo dos continentes. A iniciativa, liderada por países africanos, recebeu 164 votos favoráveis, seis abstenções e apenas um voto contrário, dos Estados Unidos.

No centro da discussão está um velho conhecido das salas de aula: o mapa de Mercator. Criada pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator em 1569, essa projeção não nasceu de uma conspiração para fazer a Europa parecer maior. Seu objetivo era muito mais prático: ajudar navegadores. A grande vantagem de Mercator é representar determinados rumos de navegação como linhas retas, algo extraordinariamente útil para quem precisava atravessar oceanos numa época em que GPS significava, basicamente, olhar para o céu e torcer para ter feito as contas direito.

O problema aparece quando tentamos transformar uma esfera em uma folha de papel. É impossível fazer isso sem distorcer alguma coisa. Preserve as formas e você sacrifica as áreas; preserve as áreas e as formas começam a mudar. Distâncias, direções e proporções entram nesse jogo de cobertor curto da cartografia. Se você acha que existem mapas perfeitos, pense melhor.

Mercator escolheu preservar ângulos e direções locais. Como consequência, regiões próximas aos polos ficam progressivamente maiores no mapa. É daí que vem uma das comparações mais famosas da cartografia: em muitos mapas de Mercator, a Groenlândia parece quase do tamanho da África. Na realidade, a África é aproximadamente 14 vezes maior.

É nesse ponto que entra a chamada Equal Earth, criada em 2018 e mencionada pela resolução da ONU. Como o próprio nome sugere, trata-se de uma projeção de “área equivalente”: as proporções territoriais são preservadas.

A África, portanto, aparece enorme — não porque alguém decidiu aumentá-la, mas porque ela sempre foi enorme. Rússia, Canadá, Europa e Groenlândia, por sua vez, parecem menores para quem cresceu olhando mapas baseados em Mercator. E talvez aí esteja a parte mais interessante da história.

Mapas não são fotografias da Terra. São representações matemáticas dela. Escolher uma projeção significa decidir o que queremos preservar e o que estamos dispostos a deformar

A própria ONU reconhece isso: seu serviço cartográfico utiliza diferentes projeções dependendo da finalidade, incluindo Robinson, Winkel Tripel e Eckert IV.

Por isso, dizer simplesmente que “o mapa antigo estava errado e agora temos o mapa correto” também seria uma distorção — desta vez histórica e conceitual. Mercator continua sendo uma ferramenta extremamente engenhosa para a finalidade para a qual foi concebida. O problema surge quando uma projeção desenvolvida para navegação passa a ser encarada como uma representação neutra das dimensões do planeta.

A discussão ganhou também uma dimensão política. Os defensores da mudança argumentam que séculos de mapas que ampliam visualmente regiões do Hemisfério Norte contribuíram para uma percepção equivocada da dimensão da África e de outras regiões próximas ao Equador. A resolução chega a falar em “justiça cognitiva” e “reparação memorial”. Os Estados Unidos, único país a votar contra, classificaram a iniciativa como parte de um projeto ideológico.

É justamente aqui que convém separar cartografia de discurso político. Existe um fato matemático bastante simples: Mercator distorce áreas e Equal Earth preserva suas proporções. Existe depois uma discussão muito mais complexa — e debatível — sobre até que ponto essas distorções cartográficas influenciaram nossa percepção histórica de poder, importância e centralidade dos diferentes continentes. Uma coisa não precisa necessariamente provar a outra.

E antes de sair acusando a ONU de identitária nesse caso (em muitos casos ela o é, claro), vamos lembrar que ela não “baniu” Mercator nem determinou que um único mapa passe a ser obrigatório no planeta. A resolução não é vinculante e recomenda o emprego de projeções de área equivalente quando a comparação territorial for importante, além do ensino das limitações inerentes aos mapas planos.

Talvez essa seja, aliás, a melhor lição de toda a polêmica. Durante séculos olhamos para mapas como se fossem janelas transparentes para o planeta. Não são. Todo mapa é uma escolha. Até colocar o Norte em cima é uma convenção, não uma lei da natureza.

O novo debate cartográfico da ONU não mudou o tamanho da África, da Europa ou da Groenlândia. Mudou apenas a maneira como escolhemos colocá-las numa folha de papel. E, às vezes, mudar o mapa é uma boa maneira de lembrar que o mundo sempre foi bem maior do que parecia... Ou não!?

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