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Thiago Braga

Thiago Braga

Entender a história da guerra é entender a história dos homens. Uma nova coluna todo domingo.

Fome no Grande Salto Adiante

Os milhões de mortos esquecidos na China

Fomes sob regimes comunistas, como na China de Mao, expõem políticas desastrosas: o “remédio” estatal agravou a tragédia e matou milhões. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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“Ah, mas o capitalismo não mata de fome?”. Esse é um dos poucos “argumentos” apresentados pela extrema-esquerda quando o assunto são as fomes comunistas do século XX, seja na URSS, seja na China. O único problema desse argumento, além de ele ser uma besteira total, claro, é que o comunismo se coloca como o único remédio para o capitalismo.

E, quando analisamos as políticas fracassadas e brutais dos maiores regimes comunistas da história, vemos a comprovação empírica e científica de que o remédio pode ser muito pior que a doença.

O comunismo surgiu nessas nações para acabar com a fome, mas ele próprio matou de fome milhões a mais do que o capitalismo antes deles. Nunca, na história dessas nações, tantas pessoas morreram de fome como nos governos comunistas. Que coincidência, não?

Já falamos da fome soviética antes; hoje vamos falar sobre a fome chinesa, a catástrofe humanitária mais devastadora dos últimos séculos. Ela ocorreu durante o período conhecido como o Grande Salto Adiante, implementado por Mao Zedong entre 1958 e 1962.

O objetivo oficial era acelerar a transformação da China em uma potência industrial socialista, mas, para a surpresa de zero pessoas, as políticas adotadas acabaram gerando um apocalipse para o povo chinês.

Estima-se que entre 15 e 30 milhões de pessoas tenham morrido em decorrência da fome, embora os números exatos ainda sejam objeto de debate entre historiadores

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Um dos fatores centrais da tragédia foi a reorganização radical da agricultura por meio das chamadas “comunas populares”. Pequenos agricultores foram forçados a abandonar suas terras individuais e trabalhar coletivamente, o que desorganizou a produção e reduziu os incentivos ao trabalho.

Além disso, metas de produção irreais eram impostas pelo governo central, levando autoridades locais a falsificar dados para evitar punições. Como resultado, o Estado requisitava mais grãos do que realmente existiam, deixando a população rural sem alimentos suficientes para sobreviver.

Outro elemento importante foi a tentativa de industrialização acelerada, simbolizada pela produção de aço em fornos improvisados nas áreas rurais. Milhões de camponeses foram desviados do trabalho agrícola para atividades industriais ineficientes, o que agravou ainda mais a queda na produção de alimentos. Ao mesmo tempo, decisões equivocadas — como campanhas contra “pragas”, que acabaram desestabilizando ecossistemas — contribuíram para perdas adicionais nas colheitas.

A fome foi agravada por fatores climáticos, como secas e inundações em algumas regiões, mas a maioria dos historiadores concorda que as políticas governamentais tiveram um papel decisivo. O sistema político autoritário dificultava a transmissão de informações reais até o topo do governo, e críticas eram frequentemente reprimidas. Isso impediu uma resposta rápida e eficaz à crise, prolongando o sofrimento da população.

As consequências humanas foram devastadoras. Milhões morreram de inanição, doenças relacionadas à desnutrição e exaustão.

Relatos de sobreviventes descrevem situações extremas, incluindo abandono de crianças e até episódios de canibalismo em regiões mais afetadas

Além das mortes, houve uma profunda ruptura social e psicológica nas comunidades rurais chinesas.

Após o desastre, houve mudanças significativas na política chinesa. Mao Zedong perdeu parte de sua influência direta na condução econômica, abrindo espaço para líderes mais pragmáticos, como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping, que implementaram medidas para recuperar a produção agrícola. Embora a fome tenha sido posteriormente reconhecida como um erro grave, ela permaneceu, por décadas, como um tema sensível dentro da China, sendo objeto de controle e debate limitado até hoje.

Se o leitor desejar se aprofundar no assunto, recomendo assistir à entrevista completa no meu canal Brasão de Armas com um dos maiores especialistas globais no tema, o professor Frank Dikotter. Além disso, não deixe de verificar as fontes especializadas na descrição do vídeo.

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