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A cada 28 anos, o Sol no seu “marco zero”

Reprodução
“A criação do Sol e da Lua”, parte do altar Grabower (1379-83), do mestre Bertram de Minden, na igreja de São Pedro, em Hamburgo, Alemanha.

(Essa eu devo à Cathy Lynn Grossman, do USA Today, que por sua vez cita uma matéria de Nicole Neroulias – minha colega de curso no International Center for Journalists –, do Religion News Service)

Amanhã a comunidade judaica celebra um evento que só ocorre a cada 28 anos – é o Birkat Hachama, ou “bênção do Sol”, evento que recorda o momento em que Deus criou o Sol. Segundo o Gênesis (capítulo 1, versículos 14 a 19), Deus criou o Sol e a Lua no quarto dia; como no calendário judaico os dias começam ao pôr-do-sol, o quarto dia da criação começa ao pôr-do-sol da nossa terça-feira, terminando no pôr-do-sol seguinte.

Segundo a halacha (lei judaica), Deus criou o Sol na posição do equinócio vernal, o ponto em que os dias e noites tem duração igual durante a primavera do Hemisfério Norte (e o outono no Hemisfério Sul; “vernal” vem de ver, “primavera” em latim). Nos equinócios, a trajetória do Sol no plano celeste – chamada “eclíptica” – intercepta a linha imaginária do equador celeste, que é a projeção do equador terrestre no plano celeste. Para visualizar melhor, clique aqui – o ponto amarelo representa o equinócio vernal.

Então, toda vez que o equinócio vernal ocorre no início do quarto dia da semana judaica (ou seja, no pôr-do-sol de terça), é como se o Sol voltasse ao ponto original da criação, e essa é a justificativa para o Birkat Hachama.

Obviamente, o fato de se acreditar que Deus criou o Sol num instante não é nada científico, mas o cálculo das datas para a bênção do Sol exigiu um tanto de ciência antiga. Hoje, sabemos que o ano não tem exatamente 365 dias e 6 horas (como nos calendários judaico e juliano), mas na época em que as leis judaicas foram compiladas, era um número um tanto preciso considerando-se a quantidade de informação científica disponível. Foi com base nesses números que se pôde calcular o intervalo de 28 anos entre cada ocasião de se fazer a bênção do Sol – algumas fontes, no entanto, afirmam que o sábio Schmuel, que viveu no século III d.C., sabia que o ano durava um pouco menos que 365,25 dias, mas arredondou o número para evitar cálculos complicados demais. Meu amigo Alexandre Zabot, que é astrônomo, explica que o ciclo de 28 anos foi consequência de se determinar um momento exato (o pôr-do-sol numa terça-feira) e de se usar um ano solar de 365,25 dias. “Se eu tivesse uma outra data (por exemplo, nascer do sol no domingo) e o ano tivesse uma duração diferente, o ciclo seria outro”, diz.

No entanto, as imprecisões que levaram ao abandono do calendário juliano e adoção do gregoriano no século XVI fizeram com que o Birkat Hachama fosse, aos poucos, se afastando do equinócio vernal astronômico. Esse ano, por exemplo, ele ocorreu às 11h44 (UTC, três horas a mais que em Brasília sem horário de verão) do dia 20 de março. Antes da mudança, o Birkat Hachama sempre caía em 25 de março no calendário juliano. Com a introdução do novo calendário, com novos e mais complexos mecanismos de compensação pelo tempo “quebrado” da órbita da Terra, a comemoração judaica vai se afastando gradativamente do equinócio vernal astronômico. O Birkat Hachama tem ocorrido em 8 de abril desde 1925, e continuará assim até 2093; a partir de 2121, muda para 9 de abril.

Um detalhe interessante é que, embora o equinócio vernal “haláchico” (de acordo com a lei judaica) ocorra na terça-feira, a bênção só é recitada na quarta. O motivo é simples: como após o pôr-do-sol na terça-feira já não se vê mais o astro, ele só é abençoado quando aparece novamente no céu, ou seja, na manhã seguinte. Para quem ficou curioso, este artigo, em inglês, explica como se faz o cálculo do Birkat Hachama, como a data da celebração foi se afastando do equinócio vernal astronômico, e por que os judeus não “corrigem” a festa para se adequar à exata posição do Sol de acordo com a astronomia. O Beit Chabad de Curitiba também tem um texto sobre o assunto, inclusive com perguntas e respostas. Amanhã haverá uma cerimônia às 8h30 no Beit Chabad, mas eles não souberam me dizer se é pública, ou seja, se qualquer interessado pode participar.

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