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“A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar.” (Concílio Vaticano II, constituição Sacrosanctum Concilium, p. 116)
Um dos estragos que o “espírito do Concílio” (a implantação, no mundo católico, de novidades muito além do que os padres conciliares desejavam) fez na Igreja Católica foi o quase desaparecimento do canto gregoriano, a ponto de os poucos lugares onde ele foi mantido terem virado quase que uma atração turística – era o caso da missa dominical das 10 horas no Mosteiro de São Bento, na época em que eu morava em São Paulo. Mas isso é tema para a minha coluna de terça-feira sobre temas católicos. O que nos interessa aqui é que o canto gregoriano entrou naquela interessante lista de práticas religiosas que estão sendo submetidas ao escrutínio da ciência.
No blog da Sociedade Internacional para Ciência e Religião (ISSR, da qual eu sou membro), o secretário-executivo da entidade, Fraser Watts, professor visitante de Psicologia da Religião da Lincoln Bishop University, no Reino Unido (Lincoln foi a sede episcopal do grande Roberto Grosseteste, que dava nome à instituição de ensino até 2025), fala de um novo projeto com bolsas da Fundação John Templeton, chamado “Ciência dos exercícios religiosos e espirituais” (Sorse, na sigla em inglês). O objetivo é expandir o conhecimento sobre o efeito de várias práticas religiosas sobre o corpo e a mente, a exemplo do que já acontece com a ioga.
“Levados por sua linha melódica aparentemente infinita, deixamos de lado, esperançosos, o fardo da mortalidade, do pecado e da culpa, flutuando nas alturas para nos unirmos aos anjos na estratosfera – ou, ao menos, sob as abóbadas de uma igreja ou catedral.”
Wilfred Mellers, musicólogo, sobre o canto gregoriano.
O cantochão (que é, digamos, o “gênero” do qual o gregoriano é uma espécie) tem uma série de características que o diferenciam da música como a maioria de nós a conhece. É monofônico; não tem ritmo – no sentido de que não existe uma “batida” ou compasso –; é executado apenas com voz ou, no máximo, com o acompanhamento do órgão; e tem até uma notação própria, diferente daquela das partituras que costumamos ver por aí. O gregoriano é um canto por excelência litúrgico, feito como parte do culto católico; você até pode botar um CD (agora entreguei a idade) ou ouvir uma playlist de canto gregoriano no carro, mas não é para isso que ele foi criado. Não é entretenimento, não é nem para nossa edificação pessoal, mas para, digamos, conversar com Deus.
No blog, Watts cita o musicólogo Wilfred Mellers, para quem o cantochão é “portador de um ‘ritmo espiritual’ que minimiza a relação com o movimento corporal, sendo ‘libertador e, portanto, indutor de êxtase’”. Mellers ainda diz que, por meio do cantochão, “levados por sua linha melódica aparentemente infinita, deixamos de lado, esperançosos, o fardo da mortalidade, do pecado e da culpa, flutuando nas alturas para nos unirmos aos anjos na estratosfera – ou, ao menos, sob as abóbadas de uma igreja ou catedral”. O professor ainda descreve o que chama de “unidade orgânica incomum” entre letra e música no cantochão, em que nenhum elemento individual específico é feito para chamar a atenção: nem palavras, nem notas. O cantochão, continua Watts, “evoca um mundo perdido de confiança no ‘além’”, e ouvi-lo “transporta as pessoas para esse mundo, dando-lhes um senso de conexão com o além e a eternidade”.
Na pesquisa conduzida pela ISSR, grupos de voluntários foram submetidos a uma “experiência espiritual” e a um equivalente “secular”: um desses grupos ouviu o cantochão dentro de uma igreja gótica, e ouviu música instrumental comum em um outro edifício não religioso – as outras duas experiências envolveram exercícios de movimento e respiração, de origem chinesa; e a “exploração imaginativa de virtudes espirituais”. Os participantes do grupo que ouviu o canto e a música não tinham o hábito de frequentar igrejas, disse o professor Watts ao Tubo de Ensaio.
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Os participantes relataram maiores índices de saúde, bem-estar e afeto ao ouvir o cantochão, na comparação com a música instrumental secular. Mas não só isso: as diferenças descritas por esse grupo nesses indicadores foram maiores que as observadas nos outros dois casos de experiências espirituais comparadas com um equivalente secular. Além disso, a equipe de pesquisadores detectou que o cantochão pareceu “conduzir a uma estabilidade incomum na distribuição da atenção e a um baixo nível de excitação, apresentando uma coloração tonal sustentada em vez de uma sequência de expectativa e resolução”. Watts disse, ainda, que a pesquisa mediu outros biomarcadores, como batimentos cardíacos, mas os dados ainda não estão prontos – na verdade, ainda não saiu nenhum artigo publicado com os resultados da pesquisa, e quando isso acontecer voltaremos ao assunto aqui na coluna.
Essas conclusões preliminares me deixaram com duas curiosidades, que a pesquisa não abordou. A primeira seria analisar os efeitos produzidos pelo canto gregoriano em comparação com a experiência de ouvir polifonia sacra clássica, litúrgica ou não (por exemplo, alguma das Paixões de Bach), e cantos religiosos “modernos”. A segunda tem a ver com um outro pedido do Concílio Vaticano II: “tomem-se providências para que os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem”. Será que cantar gregoriano, em vez de apenas ouvir, também afeta o corpo e a mente das pessoas? A esse respeito, Watts ponderou que “ouvir e cantar são experiências muito diversas”, e que seria impossível fazer o grupo pesquisado cantar, pois o resultado “seria muito diferente do canto produzido por uma comunidade religiosa experiente”. De fato, essa seria uma dificuldade, porque seria preciso usar as mesmas pessoas, que teriam de ser tão boas no canto gregoriano quanto na música secular. Seria essa uma missão para minha amiga Maria Madalena Wagner?
O papa Leão XIV gosta de cantar – mal tinha sido eleito, e estava puxando o Regina Coeli no domingo seguinte. Um bom filho de Santo Agostinho, que nos Comentários aos Salmos escreveu que “quem canta o louvor não apenas canta, mas louva com alegria; quem canta o louvor não somente canta, mas ainda ama aquele a quem canta. Constitui uma pregação o louvor de quem confessa, e o cântico de quem ama desperta a afeição”. No YouTube, o Pontifício Instituto de Música Sacra até lançou uma série de vídeos chamada “Vamos cantar com o papa”. Que o canto gregoriano possa de fato ressurgir: é o “canto próprio da liturgia romana”, como diz o Vaticano II; é bonito; é humilde (no sentido de que evita o estrelismo de solistas ou instrumentistas); e, pelo jeito, também faz bem a quem ouve.
Leão XIV denuncia a deturpação da ciência que se desvia do bom, do belo e do verdadeiro

Falando em papa Leão, ontem ele iniciou uma viagem apostólica à França, e discursou a autoridades, diplomatas e representantes da sociedade civil no Palácio do Eliseu, em Paris. Nessas ocasiões, o pontífice não tem medo de atirar na cara mesmo, defendendo plataformas que batem de frente com as políticas daqueles que o estão ouvindo. Fez isso, por exemplo, no parlamento da Espanha, e voltou a fazer agora. Pouco mais de um mês depois de o presidente Emmanuel Macron promulgar uma lei de eutanásia aprovada pelo Legislativo francês, o papa denunciou a “oferta de uma morte programada”, em um trecho mais amplo sobre a deturpação da ciência e da tecnologia. Transcrevo aqui esse parágrafo, que foi antecedido por uma menção a Georges Bernanos e seu alerta sobre o “paraíso das máquinas”:
“Atualmente, existe a tentação de esperar da ciência solução e conforto para todos os nossos sofrimentos. O risco é, muitas vezes, o de cair na ilusão. Quando a ciência e a tecnologia não são orientadas pela consciência, podem propor soluções imediatas que parecem responder aos desejos e às dores dos homens e das mulheres, mas que, na realidade, podem desviá-los gravemente do bem a que aspiram profundamente. Por vezes, constato com preocupação os desvios atuais das sociedades, que correm o risco de deturpar a ciência e a tecnologia, transformando-as em empreendimentos lucrativos que favorecem as manipulações genéticas, a maternidade de substituição, o tráfico de órgãos ou a oferta de uma morte programada. Não esqueçamos que o respeito mútuo e a proteção da vida duma só pessoa são uma responsabilidade de todos e de cada um, que começa com uma conversão da inteligência e do coração e que exige um compromisso real e desinteressado para com os nossos irmãos e irmãs.”
Leão XIV iniciara seu discurso afirmando que “as ciências, as artes, a literatura e a filosofia podem contribuir para o bem da humanidade”, mas apenas quando estão “orientadas para a busca do belo, do bem e do verdadeiro, para que o mundo tenha vida”. Um alerta que outros papas antes dele já fizeram, e que pode até ser muito ouvido, mas logo em seguida acaba esquecido, como o caso francês demonstra. Que esse novo chacoalhão do papa ajude a mudar um pouco as coisas.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Autor de "A razão diante do enigma da existência" e coautor de "Bíblia e natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé", mantém a coluna quinzenal Tubo de Ensaio, sobre a relação entre ciência e religião, e uma coluna semanal sobre temas relacionados à Igreja Católica. Em 2025, cobriu em Roma o conclave que elegeu o papa Leão XIV. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.







