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No domingo passado, a revista acadêmica Archaeometry publicou uma resposta de duas páginas (a terceira contém apenas referências bibliográficas) ao artigo do designer brasileiro Cícero Moraes, publicado em agosto na mesma revista, e no qual ele afirmava que a imagem do Sudário de Turim teria sido formada por contato com um baixo-relevo. O novo artigo é assinado pelos sindonologistas Tristan Casabianca, Emanuela Marinelli e Alessandro Piana; ele foi enviado à revista poucos dias depois que o artigo de Moraes havia sido publicado, mas teve de passar pelos trâmites normais de publicações acadêmicas, e saiu apenas agora. Os especialistas questionaram várias das alegações e métodos do brasileiro, e não pegaram leve, falando em “objetivos ambíguos, erros metodológicos e raciocínios falaciosos”.
O trio concorda com Moraes quando o brasileiro afirma que as tecnologias digitais podem ajudar a “desvendar mistérios históricos”. Mas os especialistas são enfáticos: este não foi o caso do estudo do designer, que desprezou a precisão anatômica; ignorou que o Sudário também tem uma imagem dorsal, e não apenas frontal; criou um modelo digital usando as propriedades do algodão, quando o Sudário é feito de linho; escolheu para comparações apenas uma única imagem antiga do pano, quando existem versões muito mais recentes; e partiu de uma altura equivocada (ligeiramente maior que o consenso dos estudos feitos até hoje) do Homem do Sudário. Quando recorre à história da arte, Moraes também se equivoca, defendem os especialistas, fazendo uma salada que mistura elementos de várias épocas e regiões para tentar demonstrar que seria possível a um falsário medieval imaginar e executar uma imagem de um Cristo nu, como a do Sudário. “Se aceito, esse método explicativo minaria os próprios fundamentos da história da arte”, dizem os autores.
Além disso, Moraes criou seu modelo e defendeu a hipótese do baixo-relevo ignorando completamente uma série de outras características do Sudário, como a superficialidade da imagem impressa no pano, e a comprovada presença de manchas de sangue no tecido (prática totalmente alheia às produções artísticas medievais). Os sindonologistas ainda dizem que Moraes ignorou os vários problemas do teste de carbono-14 realizado em 1988, dando a seus resultados um grau de confiabilidade que ele não tem (ou não tem mais, depois de tudo o que já veio à luz sobre aquele teste). Por fim, o trio ainda afirma que Moraes parece dar a entender que a hipótese do baixo-relevo seria uma novidade, quando na verdade ela vem sendo discutida há mais de 100 anos, assim como as possíveis distorções na representação de um corpo tridimensional em um tecido bidimensional. “Todas as explicações envolvendo baixo-relevo foram rejeitadas como implausíveis após as pesquisas do Shroud of Turin Research Project. A única novidade do estudo de Moraes é a reconstrução digital seletiva da imagem do Sudário”, concluem Casabianca, Marinelli e Piana.
Os especialistas questionaram várias das alegações e métodos de Cícero Moraes, e não pegaram leve, falando em “objetivos ambíguos, erros metodológicos e raciocínios falaciosos”
No mesmo dia, a Archaeometry publicou uma tréplica de Moraes. Pode parecer estranho, pois indicaria que o brasileiro teria visto o artigo dos italianos antes que ele fosse publicado (do contrário, não teria conseguido escrever uma resposta para sair no mesmo dia, certo?). Mas consultei vários amigos ligados ao mundo acadêmico e eles me disseram que isso é habitual, para que ambos os textos saiam na mesma ocasião, facilitando o debate. Na tréplica, o designer brasileiro reafirmou suas conclusões e afirmou que seu foco era a questão da deformação causada pela projeção de um corpo sobre um tecido. No entanto, ele insistiu em sua tese sobre a origem do Sudário, e acabou criticado também pelo Vatican Media, que em sua reportagem sobre o tema afirmou que Moraes “se afasta dessa estrutura metodológica para citar quatro produções artísticas dos séculos 11 ao 14 que poderiam ter inspirado o criador do Sudário de Turim. No entanto, nenhuma dessas representações mostra Cristo nu em uma cena posterior à crucificação, portanto, nenhuma explica o aparecimento da imagem em uma pequena vila francesa em meados do século 14”.
Até hoje muita gente sabe dos resultados do teste de carbono-14 no Sudário, mas nunca ouviu falar de todos os questionamentos feitos a ele, nem de todos os buracos que foram achando, as quebras de protocolo, as inconsistências nos resultados brutos, enfim, tudo que foi tirando a confiabilidade daquele resultado anunciado com tanta empáfia. Pois também acho que o artigo do trio Casabianca, Marinelli e Piana terá uma divulgação bem menor na imprensa que o trabalho original de Cícero Moraes. Uma pena.
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O adeus a Antonino Zichichi, físico e personalidade do diálogo entre ciência e fé
O físico italiano Antonino Zichichi faleceu no último dia 9, aos 96 anos. Sua especialidade era a física nuclear; trabalhou nos principais laboratórios do mundo, como o Cern e o Fermilab – ele liderou a equipe que observou pela primeira vez o antideutério, uma partícula de antimatéria. Foi diretor de várias entidades que reúnem cientistas, e também ficou famoso por seu trabalho no campo da divulgação científica. E, além de ser um dos principais cientistas italianos, Zichichi também foi um nome importante na construção de pontes entre ciência e fé.
Zichichi se tornou membro da Pontifícia Academia de Ciências em 2000, mas bem antes disso já era interlocutor frequente dos papas. Foi ele quem trabalhou com João Paulo II e o convenceu da necessidade de colocar um fecho definitivo no caso Galileu, culminando com o famoso discurso de 31 de outubro de 1992 no qual o papa afirmou que o astrônomo florentino foi “mais perspicaz que seus adversários teólogos” e que “a maioria dos teólogos [da época de Galileu] não percebia a distinção formal entre a Sagrada Escritura e sua interpretação, o que os levou a transpor indevidamente ao campo da doutrina da fé uma questão que pertencia à pesquisa científica”. Este discurso encerrou um trabalho de 11 anos realizado por uma comissão destinada a rever o caso Galileu, e que também contou com a colaboração do brasileiro Carlos Chagas Filho, que presidiu a Pontifícia Academia de Ciências entre 1972 e 1988.
O físico italiano também foi uma das vozes mais enfáticas a protestar contra a intolerância de professores militantes da Universidade de Roma La Sapienza, que forçou o cancelamento de uma visita de Bento XVI – um episódio que causou profunda tristeza no papa, segundo o livro de memórias de seu ex-secretário, arcebispo Georg Gänswein. Os obituários de Zichichi também destacam seu trabalho pelo desarmamento nuclear e suas críticas à Teoria da Evolução e à tese do aquecimento global antropogênico, mas, muito mais que sua opinião sobre temas específicos, destacam o papel do físico italiano como alguém que, nas palavras do vaticanista Edward Pentin, “libertou os fiéis do medo de que a ciência erodisse sua fé” e “mostrou que a Igreja pode encontrar na linguagem da Física não uma ameaça, mas uma nova gramática para proclamar o mistério da criação”.








