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No fim de maio, o Vaticano divulgou a primeira encíclica do nosso papa matemático, Leão XIV. Magnifica humanitas trata da defesa da dignidade humana em tempos de inteligência artificial, e já foi assunto de inúmeras análises aqui na Gazeta – inclusive na minha outra coluna, semanal, dedicada à Igreja Católica. No terceiro capítulo da encíclica, intitulado “Técnica e domínio – a grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA”, o papa tratou brevemente do transumanismo. Transcrevo aqui os três parágrafos do texto:
“115. Na tentativa de evidenciar os pressupostos culturais que acompanham a revolução digital em curso, gostaria agora de focar-me em algumas correntes que interpretam o progresso como uma superação do humano e que podem ser agrupadas sob os nomes de transumanismo e pós-humanismo. Estas constituem o pano de fundo ideológico que está presente em alguns centros de poder tecnológico e coloniza o imaginário coletivo de forma simplificada, especialmente nos meios de comunicação e nas redes sociais, acendendo o entusiasmo pelas novas tecnologias com uma visão futurista do ‘homem aperfeiçoado’ ou do ‘homem hibridado’ com a máquina.
116. O transumanismo e o pós-humanismo incluem em si uma pluralidade de correntes e sensibilidades, sendo difícil dar deles uma descrição unívoca. Podem ser comparados a um arquipélago de ilhas conceituais diferentes, mas ligadas pelo mesmo mar de pressupostos: a centralidade da tecnologia e o sonho de ultrapassar os limites da condição humana. O transumanismo, em linhas gerais, imagina um aperfeiçoamento do ser humano através das tecnologias (biomedicina, engenharia corporal, dispositivos, algoritmos), aspirando a aumentar o seu desempenho e capacidades. O pós-humanismo, sobretudo nas suas versões radicais, vai além: critica o antropocentrismo e propõe uma forma de hibridação entre o ser humano, a máquina e o ambiente, chegando a imaginar uma transição em que a humanidade se superará a si própria, entrando num novo estágio de evolução. Mesmo se estas hipóteses permanecem em grande parte especulativas, elas adquirem relevância, porque modificam o imaginário coletivo e, consequentemente, orientam as escolhas sociais, econômicas e políticas.
“Uma coisa é integrar as tecnologias numa visão humana e relacional, outra é deixar-se guiar por um imaginário que desvaloriza os limites e promete uma ‘salvação’ puramente técnica.”
Papa Leão XIV, na encíclica Magnifica humanitas
117. O ponto crítico, à luz da Doutrina Social da Igreja, não é o uso da tecnologia em si, mas a visão que lhe está subjacente: se o ser humano for tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar, é então mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, desejáveis e dignos. Em nome do progresso, pode chegar-se a imaginar ‘sacrifícios necessários’ e a fazer com que os mais frágeis paguem o preço de uma suposta otimização da espécie. A já mencionada advertência de São Paulo VI mantém-se, portanto, de grande clarividência: as conquistas científicas e técnicas, desvinculadas do progresso moral e social, acabam realmente por se voltar contra o homem. Por isso, é necessário distinguir com clareza: uma coisa é integrar as tecnologias numa visão humana e relacional, outra é deixar-se guiar por um imaginário que desvaloriza os limites e promete uma ‘salvação’ puramente técnica.”
Alguns comentaristas lamentaram que o papa não tivesse dedicado mais espaço ao transumanismo. Se você está nesse grupo, recomendo que, depois de terminar a Magnifica humanitas, pegue Transumanismo e a imagem de Deus – A tecnologia de hoje e o futuro do discipulado cristão, de Jacob Shatzer (Vida Nova; meu exemplar foi cortesia da editora), professor de Teologia e ministro ordenado da Convenção Batista do Sul. É uma ótima explicação do que é o transumanismo, para onde ele pretende nos levar, dos motivos pelos quais temos de ter todos os pés atrás com ele, e de como podemos resistir e construir vidas e relacionamentos com significado.
Shatzer começa definindo transumanismo e pós-humanismo em termos que complementam as palavras do papa:
“O transumanismo e o pós-humanismo são dois movimentos filosóficos relacionados e intimamente interligados às promessas da tecnologia. O pós-humanismo defende que há um próximo estágio na evolução humana. Nesse estágio, os seres humanos se tornarão pós-humanos devido à nossa interação e à nossa conexão com a tecnologia. O transumanismo, por sua vez, promove valores que contribuem para essa mudança. Ele tem em vista o pós-humanismo, e ambos se baseiam, em grande medida, no potencial oferecido pela tecnologia. De certa forma, o transumanismo proporciona a reflexão e o método em direção ao pós-humanismo. O transumanismo é o processo, o pós-humanismo é o objetivo.” (p. 32)
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Parece futurista e distante, só que não: a tecnologia já está nos mudando, e já faz umas duas décadas que estão nos alertando para isso – o clássico artigo de Nicholas Carr “O Google está nos deixando burros?” é de 2008. De lá para cá, os estudos mostrando como a internet e o smartphone vêm alterando nosso cérebro, por exemplo reduzindo nossa capacidade de atenção e concentração, ou nosso poder de memória (já que terceirizamos tudo para o celular, de telefones dos amigos a rotas pela cidade), só se multiplicam. Nosso comportamento também tem mudado: turistas trocam a contemplação de um lugar novo pela busca do ponto mais “instagramável” para uma selfie (minha câmera digital não tem conexão com a internet, mas ainda assim eu percebo a diferença em relação a quando tinha uma câmera 35mm e precisava escolher muito bem o que fotografar, para não desperdiçar filme), e atire a primeira pedra quem não conhece ninguém que tenha ido a um show ou evento esportivo, e tenha assistido a ele praticamente todo pelo celular, em vez de com os próprios olhos (para depois nunca mais rever os vídeos que fez).
O transumanismo, no entanto, não vai parar aí, e Shatzer lista três áreas para as quais o transumanismo tem grandes planos, ordenadas da mais “biológica” para a mais “virtual”: a liberdade morfológica, a possibilidade de fazer o que bem entendermos com nosso corpo (obviamente, não estamos falando de cortes de cabelo, mas de alterações radicais com a ajuda da tecnologia); a realidade aumentada, uma ampliação das capacidades humanas, inclusive com a ajuda de próteses ou outras tecnologias que conectem o biológico e o tecnológico; e, por fim, a inteligência artificial (olha ela aí!) e o upload mental, que permitiriam ao ser humano transcender o corpo biológico, transportando sua mente (e sua personalidade, e por aí vai) para uma, digamos, “base mais estável” e menos sujeita a falhas.
Repito: parece futurista e distante, só que não – e uma das melhores sacadas do livro, na minha opinião, é mostrar como já estamos sendo “amaciados” para abraçar todas essas coisas, quando elas estiverem disponíveis. Avatares que nos permitem ser o que e como quisermos (só não entendo a profusão de exemplos do Second Life dados por Shatzer; quem ainda usa isso?), inclusive se quisermos ser alguém muito diferente do nosso eu real; tecnologias vestíveis como smartwatches; a introdução de robôs em funções de cuidado ou companhia; e nosso hábito de botar nossas vidas inteiras nas mídias sociais – tudo isso já vai meio que nos treinando para um futuro transumanista. E, à medida que vamos sendo guiados nessa direção, somos induzidos a repensar questões fundamentais como a própria realidade das coisas, dos lugares, das pessoas, dos relacionamentos e de nós mesmos.
E o cristão com isso? De tudo o que Shatzer traz no livro, separei dois que julgo serem os maiores problemas que eu vejo no transumanismo. O primeiro é o fato de ele pretender “libertar” o ser humano do próprio corpo, enquanto a religião cristã, pelo contrário, é uma fé que valoriza o corpo. Ele é templo do Espírito Santo, e o próprio Deus quis se fazer carne para nos redimir. Shatzer é protestante, mas dou o exemplo dos católicos, que acabamos de celebrar a grande festa do Corpus Christi, a festa do Deus que se faz fisicamente presente na Eucaristia. E nem a vida eterna, na consumação dos tempos, será um mundaréu de almas soltas por aí: teremos corpos gloriosos.
Uma das melhores sacadas do livro de Jacob Shatzer é mostrar como já estamos sendo “amaciados” para abraçar o transumanismo
O segundo problema está no fato de o transumanismo promover uma “liturgia do controle” – Shatzer usa essa expressão baseando-se no pensamento de James A.K. Smith, que define “liturgias” como “práticas rituais que funcionam como pedagogias do desejo supremo”, afirmando que há “liturgias seculares” como o consumo ou o esporte. O transumanismo pretende o controle total sobre nós mesmos, nosso destino, nossa identidade, nosso futuro e o que mais houver por aí. O cristianismo propõe o oposto: é Deus quem está no controle; nós cooperamos com Ele. Shatzer cita o ensinamento de Cristo segundo o qual, para entrar no reino dos céus, temos de ser humildes como crianças.
Vamos, então, queimar nossos celulares e smartwatches, e viver no mato? Não, e isso talvez nem seja mais possível. Mas, se entendermos para onde as tecnologias (e as pessoas que as desenvolvem) querem nos levar, poderemos resistir ao transumanismo, poderemos aprender a usar as tecnologias com prudência enquanto nos recusamos a jogar o jogo. Uma chave importante (mas não a única) citada por Shatzer é o cultivo de relacionamentos reais, cara a cara, o compartilhamento de experiências ao vivo, o estreitamento de laços dentro de comunidades como a vizinhança, vida de oração, e participação na igreja – estando lá, e não acompanhando missa ou culto pelo YouTube. Vida real, no fim das contas.
Não seremos salvos pela tecnologia, mas por Jesus; e a transformação que o cristão almeja não é aquela em que ele se torna um ciborgue superpoderoso, mas aquela em que ele se abandona e deixa Cristo viver nele. E, como iniciamos com Leão XIV, terminamos também com ele:
“232. Nas promessas do transumanismo e de algumas correntes pós-humanistas, que aspiram a uma humanidade aperfeiçoada e quase desencarnada, reconhecemos um desejo que nos diz respeito: a necessidade de uma vida mais plena, menos exposta à fragilidade e ao sofrimento. A Encarnação abre, porém, um caminho diferente. Enquanto ideologias antigas e novas impelem o homem a superar tecnicamente os limites e a elevar-se acima dos outros para afirmar um domínio, o mistério do Filho de Deus que entra na nossa condição narra um movimento oposto: o Deus vivo desce à nossa história para nos libertar de toda a forma de escravatura, toma sobre si a nossa fraqueza e transforma-a num lugar de salvação. Não há circunstância ou condição humana que não seja digna de Deus: ‘Segundo o ensinamento da nossa fé, temos e adoramos, nos nossos mistérios, um Deus que nasce na manjedoura, um Deus que vive e viaja pela Judeia, um Deus que morre na cruz, um Deus morto que jaz no sepulcro’. O futuro da humanidade encontra assim o seu critério na capacidade de acolher esta forma divina de se aproximar, de partilhar o peso do mundo, de transformar as relações a partir de dentro. ‘Ó maravilha […] o homem é Deus e este Deus-Homem passa por todos esses graus, suporta todos esses estados e os enobrece, santifica e deifica em si mesmo!’. O que salva o homem é o amor divino que desce ao ponto mais vulnerável da sua história e a regenera profundamente.”








