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Suíça torna-se o primeiro país a autorizar uso não emergencial de vacina contra a Covid-19
Vacina da Pfizer/BioNTech usa a tecnologia do RNA mensageiro: não há risco de alteração do DNA humano, segundo Nicanor Austriaco, padre e especialista em biologia molecular.| Foto: AFP

Na manhã de domingo, o dominicano Nicanor Austriaco, padre filipino que é doutor em Biologia pelo MIT e em Teologia pela Universidade de Friburgo (Suíça), publicou um texto no Facebook que viralizou rapidamente, no qual explicava por que ele pretende se vacinar contra a Covid-19 assim que puder. Especialista em biologia molecular, ele rebate muitas objeções que vêm sendo feitas às vacinas, incluindo os boatos sobre esterilidade feminina e reprogramação do DNA – e, claro, também aborda o uso das linhagens celulares oriundas de fetos abortados. Recebi autorização dele para traduzir o texto e publicá-lo aqui no blog, confiram aí:

Nicanor Austriaco é padre dominicano, especialista em biologia molecular e professor universitário de Biologia e Teologia, com doutorado em ambas as disciplinas. (Foto: Facebook)
Nicanor Austriaco é padre dominicano, especialista em biologia molecular e professor universitário de Biologia e Teologia, com doutorado em ambas as disciplinas. (Foto: Facebook)

Ao longo dos últimos meses, recebi muitos e-mails pedindo minhas opiniões a respeito da vacina contra a Covid-19. Tenho andado muito ocupado com o gerenciamento da pandemia aqui nas Filipinas, e não vinha tendo muito tempo para responder a essas mensagens. Mas acho que agora é a hora de fazê-lo, com as campanhas de vacinação decolando mundo afora.

Para deixar bem claro, assim que uma vacina contra a Covid-19 esteja disponível e eu possa recebê-la, seja nos Estados Unidos ou aqui, nas Filipinas, eu pretendo me vacinar. Além disso, assim que houver uma vacina para minha mãe, nas Filipinas, também vou incentivá-la a se imunizar.

Por quê? Primeiro, porque essas vacinas salvarão vidas e preservarão nosso sistema de saúde. Elas vão encerrar a pandemia e acabar com a ameaça frequente de lockdowns e disrupção social. Elas vão permitir que nos abracemos novamente!

“Temos informação sobre o RNA mensageiro há 50 anos, sabemos como ele é criado, usado e destruído nas células. E também conhecemos vírus de RNA há algumas décadas, incluindo a subclasse dos coronavírus.”

Padre Nicanor Austriaco

Segundo, porque acredito no processo científico que envolveu o desenvolvimento e os testes dessas vacinas. Sim, elas foram desenvolvidas em tempo recorde, mas isso é o que acontece quando cientistas têm financiamento ilimitado para apoiar suas pesquisas e nenhum outro obstáculo para enfrentar, como ficar escrevendo e revisando uma proposta de financiamento após outra, com avanços mínimos.

Além disso, essas vacinas se apoiam em décadas de pesquisa. Não foi como se os cientistas tivessem acordado em uma bela manhã no início da pandemia e resolvido começar do nada. Temos informação sobre o RNA mensageiro há 50 anos, sabemos como ele é criado, usado e destruído nas células. E também conhecemos vírus de RNA há algumas décadas, incluindo a subclasse dos coronavírus.

Décadas de testes e inúmeras noites não dormidas de dezenas de milhares de cientistas, que gastaram horas sem fim debruçados em suas bancadas, formam a base das vacinas que agora estão sendo enviadas para vários países. Muita ciência da melhor qualidade está presente nessas vacinas, e muitos grandes cientistas foram necessários para criar essa boa ciência.

Mas e a velocidade dos testes? Sim, os testes foram acelerados, mas a quantidade de voluntários nas fases clínicas permaneceu nas dezenas de milhares para cada vacina. Mais uma vez: é o que acontece quando se tem bilhões e bilhões de dólares à disposição, entregues por governos desesperados que estão sofrendo com uma pandemia global sem precedentes e que está destroçando as economias de todas as nações.

E, no fim, a verdade está nos números. E os números dizem que essas vacinas são seguras e eficientes. Dezenas de milhares de pessoas foram testadas e desenvolveram a resposta imune adequada ao Sars-CoV-2. Dezenas de milhares foram testados e ninguém ficou gravemente doente, nem morreu por causa das vacinas.

Elas têm efeitos colaterais? Claro que sim! Isso apareceu nas fases clínicas de teste. Eu espero ficar com um braço dolorido por um dia ou dois. Espero ter febre e cansaço no início. Mas esses são sinais de que a vacina está funcionando, que está provocando minha resposta imune para que eu produza os preciosos anticorpos que vão destruir o vírus da Covid-19 se eu for exposto a ele no futuro. E essa dor, esse desconforto, essa inconveniência não são nada em comparação com o que poderia me acontecer se eu tivesse um caso grave de Covid-19 ou, que Deus nunca permita, com o que poderia acontecer a alguém que eu infectasse e fosse parar em uma UTI.

Sou cristão, e aprendi que um mundo danificado só pode ser redimido com sacrifício. Esse é o sentido da Cruz. Para mim, os poucos dias em que eu me sentirei desconfortável ou miserável, e que devem se seguir a cada dose da vacina, serão minha contribuição para o sacrifício que cura o mundo (cf. Colossenses 1,24).

Mas e as reações alérgicas graves às vacinas? Sim, são uma possibilidade real. Nas duas primeiras semanas de vacinação nos Estados Unidos, houve 21 casos de reação alérgica grave entre 1.893.360 aplicações de vacina. A maioria dessas reações, 71%, ocorreu nos primeiros 15 minutos após a administração das doses.

“Eu espero ficar com um braço dolorido por um dia ou dois. Espero ter febre e cansaço no início. Mas esses são sinais de que a vacina está funcionando, que está provocando minha resposta imune para que eu produza os preciosos anticorpos que vão destruir o vírus da Covid-19.”

Padre Nicanor Austriaco

Eu estou preocupado? Sinceramente, não. Primeiro, porque nunca tive esse tipo de reação antes. As 21 pessoas que passaram por isso nos Estados Unidos tinham um histórico de reações severas. Então, é improvável que eu tenha reações graves. Segundo, porque já temos a solução para isso, a EpiPen [uma caneta usada para injetar adrenalina em casos de reação alérgica severa, também disponível no Brasil]. Tenho alunos que andam com uma dessas pelo câmpus porque sabem que estão sujeitos a reações alérgicas. Aqui, na Filipinas, planejamos ter EpiPens em todos os locais de vacinação. Então, estaremos prontos: se eu ou mais alguém tiver uma reação, vamos usar a EpiPen.

E as mortes? E as pessoas que morreram dias ou semanas depois de terem sido vacinadas? Sim, houve relatos de pessoas que faleceram um tempo depois de receber a vacina. Mas não existe nenhuma evidência de que elas morreram por causa da vacina. Estamos vacinando milhões de pessoas em todo o mundo neste exato momento, e é de se esperar que algumas morram dias ou semanas depois de receber a vacina. Por quê? Porque pessoas morrem. Especialmente os mais idosos. Era a sua hora, independentemente de receber a vacina ou não.

E a infertilidade? Ouvi gente dizendo que a vacina contra a Covid-19 vai deixar as mulheres inférteis. Essa afirmação se baseia na suposta similaridade entre a proteína Spike do Sars-CoV-2 – que é o alvo das vacinas contra a Covid feitas nos Estados Unidos e no Reino Unido – e a proteína Sincitina-1, encontrada na placenta humana. Isso significaria que uma resposta imune contra a proteína Spike dispararia uma resposta imune similar contra a Sincitina-1, deixando as mulheres inférteis.

Essa afirmação não faz sentido e não tem base científica. A Spike e a Sincitina-1 são proteínas totalmente diferentes. Elas têm uma similaridade em quatro aminoácidos, dos 1.273 que estão presentes na proteína Spike. É como dizer que um menino coreano e um dinamarquês são similares porque ambos têm olhos castanhos – os olhos podem até ser da mesma cor, mas todo o resto é diferente. Um tem cabelo escuro, o outro é loiro. Um é magro, o outro é gordinho. Um tem 3 anos, o outro tem 18. Então, sim, eles podem ter olhos castanhos, mas isso não faz deles parecidos. Da mesma forma, quatro aminoácidos no meio de milhares não tornam duas proteínas parecidas entre si.

Além disso, se uma resposta de anticorpos contra a Covid-19 também disparasse uma resposta contra a placenta humana, deveríamos imaginar que a própria Covid-19 resultasse em vários abortos espontâneos à medida que o corpo, ao atacar o vírus, também atacasse a placenta. Mas nenhum salto nos abortos espontâneos foi verificado entre as mais de 45 mil mulheres infectadas desde o início da pandemia. E, finalmente, temos relatos de mulheres que engravidaram durante os testes clínicos da vacina, tendo desenvolvido a resposta imune contra o vírus. Isso demonstra que a vacina não as tornou estéreis.

Mas e a reprogramação do nosso DNA? Já me falaram do medo de que a vacina contra a Covid-19 baseada em RNA mensageiro irá mudar nossos genes. Essa afirmação se baseia no suposto mecanismo pelo qual o RNAm do vírus que está incluído nas vacinas da Pfizer e da Moderna é recodificado em DNA, que por sua vez é inserido no DNA da própria pessoa vacinada.

Mais uma vez, isso não faz sentido e não tem nenhuma base científica. Cada célula humana tem centenas de milhares de cópias de seu própria RNAm em determinado momento. Nunca vimos esse RNAm ser recodificado em DNA e reinserido no DNA da pessoa, mesmo quando a célula está infectada com um vírus de RNA que tenha a enzima, ou máquina molecular, chamada “transcriptase reversa”, que é necessária para transformar RNA em DNA. Se essa história fosse verdadeira, células humanas infectadas com um vírus de RNA conteriam DNA novo, oriundo do RNAm da pessoa. Isso jamais foi visto. Como padre e cientista, tenho de respeitar a evidência, seja a dos dados científicos ou a da revelação divina. E não existe evidência nenhuma de que vacinas de RNAm vão reprogramar nossos genes.

“Acredito que o sucesso inesperado e sem precedentes que temos verificado na produção dessas vacinas é uma bênção do Senhor.”

Padre Nicanor Austriaco

Por fim, tenho de tratar das complicações morais causadas pelo uso de linhagens celulares derivadas de abortos realizados décadas atrás, e que são usadas para fabricar algumas das vacinas contra a Covid-19. Sou padre e sei que cada pessoa tem graus diferentes de percepção do mal. Algumas o experimentam intensamente; outras, nem tanto. É de se esperar que diferentes pessoas cheguem a conclusões morais diferentes, e que podem ser até mesmo opostas, embora ambas sejam respostas virtuosas. Pessoalmente, eu prefiro evitar as vacinas feitas com o uso dessas linhagens celulares. Mas o próprio Vaticano já afirmou que não é imoral recorrer a essas vacinas moralmente controversas, especialmente se não houver outra alternativa disponível.

No fim das contas, acredito que o sucesso inesperado e sem precedentes que temos verificado na produção dessas vacinas é uma bênção do Senhor. Se, durante o primeiro lockdown, você tivesse me dito que teríamos algumas vacinas seguras e eficazes prontas para distribuição menos de um ano após o início da pandemia, eu teria demonstrado toda a minha incredulidade.

E, mesmo assim, te Deum laudamus!

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