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Dicas para um crítico musical

Um exército de leitores desse blog, liderados pelo Marcão, cobram mais atualizações nesse espaço. Entendo a carência senhores.

E admito minha culpa, minha máxima, como na liturgia. Em minha defesa, digo que sou preguiçoso e que não ando escutando tantas coisas novas como eu gostaria. Logo, não ando escrevendo no ritmo que um blog pede. Minha companheira neste espaço, a Juliana, também anda atarefada com as coisas dela no Caderno G. Mas qualquer hora ela aparece com muito mais competência do que eu.

Para matar a saudades, porém, republico um texto originalmente escrito para o Abacaxi Atômico, site do qual fui, com orgulho, colaborador durante algum tempo. À época, o Álvaro Pereira Júnior dava dicas na Folha de São Paulo para você se tornar um crítico musical. “Se o Álvaro pode, eu também posso”, pensei.
Não é nada, não é nada, achei meu manual de Lester Bangs bem mais bacana que o do editor do Fantástico. Confira e dê sua opinião:

A FolhaTeen da semana passada deu suas dicas para você se tornar um crítico musical. Milhares de e-mails entopem a caixa postal do ABACAXI ATÔMICO com a mesma dúvida: “Como? Oh Deus! Como me tornar o novo crítico musical indie descolado?” Esqueça o “Escuta Aqui”. Preparamos umas dicas básicas que realmente vão te fazer chegar lá:

1) Essencial: para ser um crítico de música não é preciso ouvir música. Bobagem. Perda de tempo. A internet está cheia de gente que já fez o serviço por você. Ler algumas resenhas é bem mais fácil que ouvir discos. Decore o nome das bandas novas, escute o hit e faça o serviço. Não dê bola pros grupos antigos em especial. Basta saber que Velvet Undergound foi uma banda de um pessoal que usava óculos escuros e que o Jesus And Mary Chain não é uma seita religiosa. Faça uns elogios e diga que influenciaram muita gente, mas que a música pop está cheia de novidades e não dá pra perder tempo com velharia.

2) Leia o Álvaro Pereira Júnior, o Lúcio Ribeiro e, no máximo, mais um site cabeça a sua escolha. Basta. Eles lêem a NME pra você. Se eles falaram das bandas é porque deve ser legal. Evite os livros, principalmente clássicos e longos. Fuja dos russos, em especial. Essa coisa de estilo é bobagem. Monte um blog e use os termos paulistanos modernos do Lúcio Ribeiro mesmo que você more na Paraíba.

3) Engane no inglês. Como eu disse, o Lúcio Ribeiro já leu a NME por você. Veja no máximo as figurinhas. Sempre tem uma foto da Mariah Carey com pouca roupa.

4) Você é o máximo. Nada, desde Paulo Francis, é tão contestador quanto seu site, seu zine ou sua coluna no jornal. Quando for conversar com amigos fora de moda, dispare um monte de nomes de bandas que você conhece. Não precisa ter escutado não. Se não lembrar, invente uma com nomes bacanas. Faça combinações do tipo: “Ah cara, o Kings of a System e o SuperHot são tudo. Como você não conhece?”. Se seu amigo replicar com bandas que você nunca viu e nem ouviu mais gordas, não desanime. Um “acho que eles precisam amadurecer o som” ou um “ah não sei, acho que estão entrando num lance muito comercial” pode resolver. Seja um racista musical e chame de estúpido qualquer um que não conheça suas bandas preferidas. Lembre-se de clichês do tipo “pagode fede” e “Tiririca é coisa de gente burra”.

5) Seja amigo dos músicos. Essa é uma das mais importantes. A camaradagem com bandas é essencial. Distribua elogios, rasgue seda, diga que as bandas da sua cidade são realmente ótimas. Se a baixista bonita daquela bandinha indie te deu um fora, não pense duas vezes; chame o grupo de medíocre, comercial, o que for. Se ela te deu bola, o discurso muda e a menina pode se candidatar ao cargo da Kim Gordon.

6) Pratique a crítica útil. Chute cachorro morto e dê vivas aos novos gênios da nossa música. Se a gravadora não te mandou aquele cd bacana, meta bala. Se mandou, não custa dar uma ajudinha. Entre no esquema sem medo. Vá nas coletivas, nas apresentações de discos, encha a cara e dê tapinha nas costas dos figurões, produtores, engenheiros de som. Na hora de escrever, copie os releases e assine a matéria. Seja gente boa com o pessoal das rádios. Numa dessas eles falam de você durante as transmissões. O que importa é a amizade. Ter alguém com quem tomar cerveja depois do expediente é fundamental.

7) Prepare-se para um mundo de glamour nas redações. Existe espaço de sobra para crítica musical. Você pode inclusive resenhar um cd depois de fechar aquelas oito matérias policiais. Seu chefe vai adorar. Coloque os cds em volume alto. Todos vão amar. Afinal de contas, você é um crítico musical, cabeça, cool e descolado. Peça tempo para escrever sobre shows. Não ligue para prazos e exija que derrubem o espaço do noticiário de política para sua matéria que, afinal de contas, é arte. Você não precisa bolar legendas, nem fazer títulos e nem diagramar. Não no seu plantão, pelo menos

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