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Angus

A carne que chegou como lanche do McDonald’s e ganhou status de churrasco de grife

Case de sucesso da pecuária nacional, raça nobre cresceu mesmo em épocas de vacas magras, e não foi pouco

Divulgação Entrada do Angus no McDonald’s ajudou a impulsionar o consumo da carne e a criação da raça no Brasil. | Divulgação

Entrada do Angus no McDonald’s ajudou a impulsionar o consumo da carne e a criação da raça no Brasil.

  • Flávio Bernardes

No início da década, a clássica combinação de “dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num pão com gergelim” ganhou uma companhia até então discreta no cardápio de uma das maiores redes de fast food do planeta.

O McDonald’s passou a vender um sanduíche com hambúrguer de Angus, raça bovina que, à época, já era figurinha carimbada lá fora, mas pouquíssimo conhecida no Brasil.

A novidade fez sucesso (tanto que passou sete anos na rede) e pavimentou o nome - e a grife – Angus no Brasil. “Houve uma explosão de mídia, o que deu visibilidade a esse tipo diferenciado de carne junto ao consumidor”, pontua Fábio Medeiros, gerente nacional do programa de certificação da Associação Brasileira de Angus.

De origem europeia, a raça tem um teor mais elevado de marmoreio, a gordura entremeada nas fibras que aumenta o sabor, a maciez (e o preço). Os cortes de Angus custam até 30% mais que os de Nelore, que é o gado mais popular no Brasil.

Mas, ao contrário do que se poderia pensar, o valor não afastou o consumidor, apesar da forte recessão econômica que derrubou o consumo de carne vermelha no Brasil a partir de 2014. “A gente tem crescido em média de 20% a 25% em termos de volume comercializado”, diz Medeiros.

Controle do processo

Uma das explicações para o crescimento, segundo o gerente, foram parcerias como a do McDonald’s, que ajudaram a vender Angus por um preço mais acessível. Outra foi o forte trabalho de certificação, que começou em 2003, conta hoje com 50 profissionais em regime de dedicação exclusiva e permite acompanhar cada etapa da cadeia produtiva, “do campo à embalagem, seja ela qual for, da caixa de hambúrguer à embalagem a vácuo”.

Eduardo Rocha/Divulgação (Associação Brasileira dos Criadores de Angus)

Atualmente, são cerca de 5 mil criadores cadastrados que trabalham com a raça, em praticamente todo o país.

O resultado é que, se em 2003, cerca de 20 mil animais eram abatidos por ano, hoje são 500 mil. No mesmo período, a venda de carne Angus cresceu nada mais nada menos do que 13.400%, passando de 200 toneladas para 27 mil toneladas. Atualmente, são cerca de 5 mil criadores cadastrados que trabalham com a raça, em praticamente todo o país. Conforme a associação, metade das inseminações em vacas no Sul e em Mato Grosso é feita com genética Angus. Isso representa mais de 4 milhões de doses de sêmen, um avanço de 700% desde 2005.

Embora os números impressionem, olhando de cima, a participação da raça no rebanho total ainda é relativamente pequena: 7% dos 45 milhões de bezerros que nascem no Brasil. “Nosso mercado potencial é muito vasto, poderíamos ampliar em até seis vezes, exclusivamente falando no mercado interno”, afirma Medeiros.

Novas estratégias

A façanha da cadeia produtiva do Angus no Brasil é grande, porém, é preciso pontuar que esse crescimento percentual tão elevado se deu sobre bases “modestas”. Para continuar avançando, além de aumentar o rebanho, o setor se movimenta na outra ponta da cadeia, diretamente com o consumidor, que, afinal, é quem come e paga a conta.

E foi comendo que um grupo de quatro curitibanos - sem vivência no campo, mas com apetite de sobra – decidiu transformar o Angus em negócio.

“Tudo surgiu no ano passado. No começo eram três sócios, eles estavam com a ideia de montar um negócio e consumiam muita carne”, lembra o jornalista – e agora empresário - Eduardo Aguiar, o último a entrar na parceria. “Viajando para Santa Catarina, conheceram um pequeno produtor de Angus e compraram carne para comer lá mesmo. Gostaram tanto que trouxeram de volta uma quantidade muito grande e acabaram vendendo para os amigos.”

Andre Donadio/Divulgação Angus Young

Uma das opções de kit oferecidas pela Angus Young.

De amigo em amigo, a ideia virou um clube de assinatura exclusivo de carne Angus, o Angus Young, com 125 assinantes e uma loja física num dos shoppings mais badalados de Curitiba. No clube, o cliente recebe um kit com até sete cortes diferentes, que variam mês a mês. “Compramos os animais inteiros, com tabela de rastreio, e nós mesmos desenvolvemos os cortes, as embalagens e montamos o kit. Cada kit tem o nome do produtor, da fazenda, a data de abate e a idade do boi (só compramos de 16 a 18 meses, são novilhos mesmo)”, explica Aguiar.

Para ele, aliás, a garantia de procedência é o fator que mais tem sustentado o crescimento, mesmo com os escândalos que o setor atravessou em 2017. “É a garantia de origem e carne fresca”, explica o empresário. “E a procura está bem positiva. Esperamos fechar 2018 com 500 assinaturas”, reforça.

Filé da pecuária, case Angus já deveria ter sido copiado

O “Angus Brasileiro” é um caso de sucesso dentro do maior rebanho comercial do mundo, com quase 220 milhões de cabeças. Tanto que, para o coordenador do Laboratório de Pesquisas em Bovinocultura da Universidade Federal do Paraná (LapBov), professor Paulo Rossi, o case já deveria ter sido “copiado” por outros pecuaristas. E há muito tempo.

“Essa questão da certificação não se aplica só às carnes nobres, mas a qualquer uma. Isso melhoraria muito o produto”, defende. “O consumidor da carne nobre sabe o que quer comprar. O problema é que a população não sabe ‘exigir’ e por isso a certificação ficou para trás. Quem não tem dinheiro também tem que ter essa certeza.”

O entrave, de acordo com Rossi, é esforço acima da média para ter controle da cadeia toda. Mas o benefício seria grande, e não só para a clientela. “O fato de não ter [certificação] nos deixa ‘capengas’ para exportar e vender lá fora. Nós conseguiríamos um valor diferenciado. Esse é filé do mercado”, completa.

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