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Sabe a cartilha homofóbica do supermercado Hirota? Nem é “cartilha” nem é do Hirota

Parecia um caso prosaico de um dono de uma pequena rede de supermercados que utilizou seu comércio para proclamar suas crenças homofóbicas. Só que é algo bem mais profundo, aquele tipo de coisa que nos Estados Unidos é motivo de debate na Suprema Corte, como a gente viu aqui na Gazeta do Povo dias atrás.

As agências de notícias mais credenciadas dessa pátria de chuteiras, esse delicioso sarapatel de coruja que chamamos de Brazyl, um país laico, asseguraram sem sombra de dúvidas que os supermercados Hirota haviam produzido uma cartilha homofóbica no dia da família, 8 de dezembro, contra a união homossexual e a favor da vida desde a concepção. O Ministério Público chegou a notificar o mercado para que encerrasse a produção das tais cartilhas. São servidores públicos de excelência, com salários altíssimos, que se informam à exaustão antes de agir, certo? Errado.

NÃO EXISTE CARTILHA DO SUPERMERCADO HIROTA, BRAZYL. Isso mesmo, simples assim. Estamos diante de um outro caso, completamente diferente, muito mais próximo desse do confeiteiro cristão dos Estados Unidos.

Os supermercados Hirota simplesmente contribuíram para a impressão e resolveram distribuir em suas lojas exemplares de uma publicação tradicional da Igreja Presbiteriana do Brasil, o devocional Cada Dia Família, produzido pelo Reverendo Hernandez Dias Lopes, da Luz Pelo Caminho, fundada em 1976, em Campinas.

Um devocional é um plano de leitura da Bíblia para os que nela crêem, uma forma de encontro da espiritualidade com a vida cotidiana, um direito constitucional garantido em todo Estado Laico: professar livremente sua fé em todo espaço público e privado 24 horas por dia ou não ter nenhuma fé.

Ali não se questiona casamento entre pessoas do mesmo sexo como um direito legal garantido pelo Estado brasileiro. A César o que é de César. A Deus o que é de Deus. É um devocional da Igreja Presbiteriana do Brasil que fala das cerimônias de casamento religioso realizadas na Igreja Presbiteriana do Brasil, que não têm valor legal.

A questão da vida desde a concepção não é questionada juridicamente, mas é um dogma de fé dos fiéis da Igreja Presbiteriana do Brasil, que têm liberdade de credo.

O ponto a ser discutido pela sociedade é se o dono da rede Hirota pode ou não ter a liberdade de professar sua fé livremente em um Estado Laico ou se há limites. Quais são exatamente esses limites? Eu li os documentos do Ministério Público do Trabalho e não consegui entender as regras. Se há regras, que sejam claras.

O devocional traz 31 passagens bíblicas para um mês de reflexões diárias. Há muito mais do que casamento gay e aborto em discussão. Por exemplo:

11. Família, cuidado com o dinheiro! “Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé…” (1Tm 6.10). O dinheiro é mais do que uma moeda, é um ídolo. Jesus chamou o dinheiro de “senhor”. Ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e às riquezas.

12. Família, cuidado com as drogas – “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32). As drogas são hoje o grande pesadelo das famílias. Pessoas de todas as classes sociais, de todos os graus de instrução, de todas as faixas etárias e de todos os segmentos religiosos são atingidas por esse flagelo. Álcool, maconha, cocaína, crack e outras drogas que geram dependência física e psíquica são a causa de mais de cinquenta por cento dos acidentes de trânsito e dos crimes passionais. As cadeias estão lotadas de suas vítimas e os cemitérios repletos daqueles que tombaram vencidos por esse vício maldito.

13. Pais, não provoquem seus filhos à ira – “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira…” (Ef 6.4a). É sabido de todos que criar filhos não é brincadeira. A formação dos filhos passa pelo aspecto negativo e positivo. Antes de tratar do aspecto positivo da formação dos filhos, a palavra de Deus alerta os pais sobre o aspecto negativo. Os pais não podem provocar os filhos à ira nem irritá-los para que não fiquem desanimados. A autoridade deles sobre os filhos não pode ser inconsistente nem despótica.

15. Pais sejam espelho para seus filhos – “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; e tu as inculcarás a teus filhos…” (Dt 6.6,7). Os pais são como espelho para os filhos. Essa figura enseja-nos algumas lições. Primeiro, o espelho não discursa, demonstra. Os pais ensinam mais pelo exemplo do que pelas palavras. Os filhos observam mais a nossa vida do que o nosso discurso. Albert Schweitzer, disse com razão: “O exemplo não é uma forma de ensinar, mas a única forma eficaz de fazê-lo”.

16. Pais, protejam seus filhos – “Ou é pelo teu mandato que se remonta a águia e faz alto o seu ninho? Habita no penhasco […] em lugar seguro” (Jó 39.27,28). Os filhos precisam de proteção. Há muitos perigos aos quais nossos filhos estão expostos. Não vivemos num paraíso, mas num terreno minado, cheio de armadilhas. Os predadores, com sutilezas perigosas, com propostas sedutoras e com armas letais espreitam nossos filhos na porta das escolas, nas festas de confraternização, nos relacionamentos de amizade e até nas redes sociais.

23. A comunicação na família – “… todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar” (Tg 1.19). A comunicação é o oxigênio dos relacionamentos. Sem ela, a morte mostra sua carranca. A palavra de Deus diz que a morte e a vida estão no poder da língua. Podemos dar vida ou matar nossos relacionamentos dependendo da maneira como nos comunicamos. Na epístola de Tiago há três princípios para uma comunicação saudável. Primeiro, devemos ser prontos para ouvir. A palavra grega “pronto” é a mesma que usamos para “taxi”, um carro que está à nossa disposição quando o chamamos. Deus nos fez com duas conchas acústicas externas e apenas uma língua amuralhada de dentes, ensinando-nos o princípio: ouça mais, fale menos.

31. Família, lugar de cura e restauração – “Suportai-vos uns aos outros, perdoa-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem…” (Cl 3.13). A família é o melhor refúgio que possuímos neste mundo. (…) Maridos agridem a esposa, esposas ferem o marido, pais agridem os filhos e filhos atacam os pais. Não é esse, entretanto, o projeto de Deus. A família deve ser lugar de cura e aceitação.

O lar deve ser o território do perdão e da restauração. Mesmo quando há deslizes e quedas, a família deve ser o lugar do recomeço para aquele que caiu.

Não deixa de ser polêmico saber se o patrão pode impor ao empregado a tarefa de distribuir devocionais com a sua fé sem sabermos se o empregado está de acordo. Mas que se coloquem as coisas em seu devido lugar.

O devocional completo está nas fotos aqui:

 

 

 

 

 

 

(Agradeço aqui o olhar atento da Edneia Cerqueira, da Igreja Presbiteriana de Mogi-Guaçu, que reconheceu o devocional imediatamente e, seguidora de longa data, me avisou. Valeu!)