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O que temos a aprender com ‘O Sul é o Meu País’

Crédito da foto: Giuliano Gomes
Crédito da foto: Giuliano Gomes

Quem mora em uma cidade grande/média da região Sul e saiu de casa no último sábado (7) talvez tenha trombado com uma urna de votação branca e azul desajeitada pela rua. Era o movimento “O Sul é o meu país” tentando estimular gente a responder (em uma consulta sem qualquer valor legal) se Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul devem se separar do resto do Brasil. À primeira vista, o “plebiscito” pode parecer algo meramente folclórico, uma piada de internet. Mas, em tempos de uma crise política sem precedentes em Brasília e da ascensão do espírito separatista pelo mundo, essa é a pior abordagem para o assunto.

Embora seja complicado falar sobre números da votação, afinal, são os próprios organizadores que os compilam e divulgam, eles ajudam a explicar um pouco a dimensão do movimento. Pelos dados de apuração atualizados no site do grupo, pouco menos de 400 mil pessoas participaram da consulta, bem abaixo das 620 mil registradas em consulta similar feita no ano passado. Dos 343.141 votos computados até as 11h51 desta segunda-feira (9), 330.386 (96,31%) votaram a favor da separação e 13.295 (3,87%) contra. Até aí, nada sensacional.

A informação que salta aos olhos é o alcance do número de municípios em que houve a votação. Segundo o movimento, as urnas se alastraram por dois terços das cidades dos três estados (cerca de 800 de um total de 1.191). E o número de voluntários triplicou.

Trocando em miúdos, existe sim uma determinada parcela de brasileiros (pequena, mas não desprezível) que assume sem constrangimento a ideia de que fazer parte do Brasil é um problema. Se ela necessariamente cresceu nos últimos anos, é difícil aferir. O que é fácil de garantir é que o lodaçal político brasileiro somado à era da pós-verdade nas redes sociais é um terreno fertilíssimo para espalhar soluções simplistas para problemas complexos.

Não à toa, uma sondagem recente do Paraná Pesquisas mostra que 43% dos brasileiros (puxados principalmente por jovens) defendem a intervenção militar como solução para a crise política. Ambos os casos, separatismo ou ação das Forças Armadas, soam para muita gente como uma espécie de remedinho que nos ajudaria a dormir e acordar curados de toda baderna nacional. São ideias péssimas, mas não se atenha à superficialidade: o sentimento de desolação do brasileiro é mais do que legítimo.

A onda de pessimismo precisa ser mapeada/estudada/tratada para não se transformar, em curtíssimo tempo, em uma maré desenfreada de oportunismo. Fazer galhofa dos separatistas (por mais que seja divertido e até uma estratégia racional), só aumenta a percepção de que não há mais jeito. Ideias ruins precisam ser combatidas com argumentos decentes.

No final das contas, o Sul não vai se separar. O que não significa que a tese não possa ser substituída por outra que alguém consiga fazer colar. Diálogo é o melhor caminho (que o diga a Catalunha).