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Enviado por admin, 22/06/13 10:11:00 AM
Fabio Rodrigues Pozzebom / ABr
Brasil-il-il…

O título aí em cima me pareceu bacana, quando pensei nele, no começo das manifestações desse outono-inverno tupiniquim (a primavera há de vir). Gosto de trocadilhos e afins. O trocadilho de que mais gostei recentemente estava num cartaz em meio ao povo: “Enfia esses 20 centavos no SUS”. O povo costumava rir para não chorar. Agora grita. E, quando chora, é por causa do spray de pimenta – que no olho dos outros costumava ser refresco, mas agora é combustível. Agora, o título me parece besta, mas continuo concordando com a ideia contida nele em relação ao movimento popular em curso: não matem (e não machuquem, não quebrem); cobrem e mostrem a pauta, e sigam cobrando e apresentando novas reivindicações. Se tiver pau e pedra, é o fim do caminho. É com uma participação popular pacífica (não passiva) e ao menos um pouco propositiva que encontraremos novos e melhores rumos para o Brasil. Assim, quem sabe, sei lá, evitaremos que esse movimento todo não seja como um fogo de artifício molhado, que acende as esperanças por um belo espetáculo, mas não estoura como deveria – só faz barulho, e, às vezes, ainda machuca quem está por perto.

Não mata! Parte dos “vândalos infiltrados” nas manifestações, os autores do quebra-quebra, parecem ser filhinhos de papai com neurônios de menos e hormônios demais. Outros parecem aproveitadores ignorantes que querem tirar uma lasquinha em meio ao fuzuê. Mas parte das manifestações violentas parece ter motivações muito mais elementares e proporcionalmente mais difíceis de conter: desespero, ódio, ódio desesperado. É gente que sente fome, frio e medo. São os vira-latas de uma sociedade desigual, de um mundo cão, em que alguns nascem com pedigree e outros não. Talvez eles não aceitem mais ver os outros babando ração de qualidade enquanto eles roem o osso – o que afia seus dentes. Talvez eles tenham resolvido deixar de andar de quatro e virar mais do que latas, talvez eles queiram mostrar que são pessoas que trabalham (ou veem seus pais trabalharem) o máximo e não ganham nem o mínimo, enquanto outros trabalham o mínimo e ganham o máximo superfaturado, talvez eles estejam gritando em coro: “perdeu”. E perdemos todos, e o movimento por uma boa mudança perde, porque a grande parcela moderada da população, aquela que fica em casa assistindo às manifestações e só torcendo pelo sucesso do clamor das ruas, começa a ficar contra a “baderna”, começa a querer “ordem”. E isso pode ser bem mais perigoso do que os “vândalos infiltrados” – às vezes, a “ordem” não é seguida de progresso, mas de regresso. É preciso conter o vandalismo, claro. É preciso reprimir os arruaceiros, óbvio. Mas que se tenha muito cuidado. Estamos em campo minado. Caminhemos com cautela.

Cobra e mostra a pauta! O preço da passagem do transporte público baixou. Boa! E agora? Qual é a pauta? Em excelente artigo, o presidente da OAB Paraná, Juliano Breda, escreveu que a pauta é única: cumprir a Constituição. É fato. Mas também é fato que boa parte dos nossos governantes continua tratando a Carta Maior como literatura menor, uma ficção meio fantástica, meio baseada em fatos reais. Por isso, é melhor deixar bem claro para eles do que se está falando, o que se está pedindo. Porque, se pedirmos que eles cumpram a Constituição, é capaz de ouvirmos a resposta: “não dá para escolher outro livro mais fácil, de preferência com desenhos?”. É preciso desenhar? Infelizmente, parece ser. Basta dizer que eles precisam ver milhões de pessoas saindo às ruas para perceberem que algo está errado. Enfim, creio que, para o movimento ser concentrado e mais eficiente, deve ter objetivos definidos, ou há o risco de tudo se transformar apenas num “esquenta” (tão quente que pode queimar) para a balada. Ninguém pede um plano plurianual da manifestação popular (até porque tais planos, propositadamente complicados, costumam ficar engavetados), mas outros e mais ou menos claros “vinte centavos”: pró reforma política, contra a PEC 37, o que mais? Com a pressão adequada, cunhou-se uma brilhante moeda de vinte centavos. Será triste se ela sair de circulação. É preciso pensar bem no molde da próxima.

*-*-*

Agudas

- Hoje, 22 de junho, é dia de São Tomás More, o padroeiro dos políticos e governantes. Por conta disso, há exatamente dois anos, escrevi neste blog um texto intitulado O padroeiro dos políticos e o rebanho sem santo, em que afirmava que São Tomás More (Thomas Morus) “deve ter muita ‘dor de auréola’ com seus apadrinhados brasileiros”. Imaginem agora a quantidade de preces oriundas do Brasil que o santo deve estar recebendo…

- Aliás, nesse mesmo texto sobre o padroeiro dos políticos, citei uma passagem que vivi com meu avô – e que me voltou à cabeça diante das recentes manifestações. Eu era criança. Estávamos na fazenda dele e o gado estava sendo marcado a ferro quente. De repente, um dos bois se desvencilhou e deu uma cabeçada no botijão de gás, jogando-o longe. Eu fiquei preocupado: “Como o boi é forte! Se todos eles se juntarem, eles não podem machucar a gente, vô?”. E o meu vô respondeu: “Para nossa sorte, eles não sabem a força que têm”. Hoje, para nossa sorte, o povo parece ter deixado de se comportar bovinamente e percebido que tem força. Mas a grande porteira do curral em que estamos ainda é aberta a cada dois anos, nas eleições: “para sairmos por ela, é preciso que votemos de maneira consciente. Ou todos nós continuaremos a ser ferrados, como uma ignorante e submissa tropa de gado”.

Enviado por admin, 12/04/13 11:50:00 AM
Jenny Rollo / Sxc.hu
Mãos ao alto, seu panaca cheio de panca!

Há tempos, ao sair para uma reportagem, parado num semáforo, notei uns adolescentes sendo abordados por policiais. Fiquei atento, pois poderia render alguma matéria. Mãos na parede, pernas abertas, mas tudo conduzido de maneira educada, sem quaisquer agressões e até com pedidos de “por favor” por parte das autoridades. Os policiais nada encontraram de irregular e dispensaram os adolescentes: “circulando!”. O motorista do carro em que eu estava, fã de programas policiais, comentou: “os elementos deviam estar em atitude suspeita”. “Se estão em atitude suspeita, é melhor dar uma conferida mesmo”, respondi. E o motorista, com a sabedoria típica dos profissionais da boleia, que observam atentamente a vida passar pelo para-brisa e por todos os espelhos retrovisores, completou: “A verdade é que, com a panca daqueles moleques, qualquer atitude é suspeita”.

Lembrei-me da única vez em que eu sofri uma abordagem policial. Foi em São Paulo, em 1999, enquanto eu chegava ao Anhembi para assistir ao show mais aguardado da minha vida: Metallica, com o Sepultura abrindo os trabalhos. Eu tinha 16, quase 17 anos. Estava acompanhado do meu irmão e de alguns amigos, integrando uma excursão saída de Cascavel. Eu não tinha exatamente aquela panca capaz de despertar a atenção das autoridades (era um CDF com uns pelos descoloridos no queixo e brinco na orelha esquerda… talvez tivesse panca, sim), mas um amigo meu era a panca em pessoa: cabeludo, jeans rasgado, correntes, meio Axl Rose do velho Oeste, tudo isso revestindo um espírito bonachão (mas o espírito não se vê na panca, infelizmente). E eu estava ao lado dele quando, atravessando uma rua próxima ao local do show, fomos parados por uma baita camionete da polícia. Quatro policiais enormes, com pancas de G.I. Joes, saíram do veículo, armados até os dentes, como se fossem prender um terrorista. “Vocês dois, mão na viatura”, um Joe disse para nós. “Sim, senhor”. Revista básica, com um pouco de truculência, mas sem agressões. “Documentos”, continuou o policial. Abrimos as carteiras, mostramos as identidades – a minha era de quando eu tinha onze anos, com cara de campeão das Olimpíadas de Redação. “Tirem tudo das carteiras”. Tiramos até as sementes de romã do réveillon. Ele nos olhou severamente. Tive medo de que a nossa panca nos rendesse umas pancadas. Mas ganhamos apenas um sonoro “circulando!”.

Segundo o dicionário Michaelis: “Estar na panca: estar bem vestido, elegante. Só tem panca esse sujeito: só tem pose, só tem aparência ou ostentação”. A panca engana, e, em parte, está nos olhos de quem a vê. “No primeiro dia de aula, a caminho da universidade, percebi um cara mal-encarado no ônibus. Era grande, usava um cavanhaque estranho, uma boina de revolucionário, roupa folgada e brinco. Quando desci no ponto próximo à universidade, o mal-encarado também desceu. Entrei no campus, e o cara me seguindo. Entrei no prédio do meu curso, e lá veio o grandão estranho. Apressei o passo, entrei na sala da minha turma e, pouco depois, o mal-encarado passou pela porta. Achei que fosse me assaltar. Era você.” Mais ou menos assim, um grande amigo me contou, tempos depois de nos conhecermos no curso de Jornalismo, sobre sua primeira impressão a meu respeito. Morávamos no mesmo bairro, pegávamos o mesmo ônibus, cursávamos a mesma faculdade. Antes de me conhecer, ele não foi com a minha panca. Ficou meu amigo depois que percebeu que o mal-encarado que parecia persegui-lo era, na verdade, um piá nerd do interior dando uma de panaca cheio de panca, tentando intimidar os bichos-papões da cidade grande, que tanto o intimidavam.

É triste isso, mas, em tempos tão violentos (talvez sempre tenham sido), quase todos nós suspeitamos das pancas alheias. É autoproteção, ou o que outro velho amigo chama de “estratégia da codorninha”, uma estratégia que repassou aos filhos e agora vai ensinar aos netos, mais ou menos assim: “A codorninha está sempre atenta aos predadores, move-se com cuidado, em alerta, preparada para agir. Precisamos usar a estratégia da codorninha, devemos estar sempre atentos às ameaças, aos perigos que nos cercam, prontos para fugir ou reagir”. As codorninhas entendem de panca, identificam seus predadores, mas talvez não saibam que alguns lobos se vestem em pele de cordeiro e que alguns lobos não são maus, que há meninas de chapeuzinhos vermelhos muito mais perigosas. Com isso em mente, tento não julgar outros panacas por suas pancas, mas é quase inevitável. Já levei broncas por atravessar florestas escuras e quase fui parar na barriga de alguns lobos. Então, como ninguém quer arriscar o final feliz, diria a mamãe: “Chapeuzinho vermelho, todos somos iguais, todos somos filhos de Deus, todos devemos respeitar os outros e não julgá-los, mas, por favor, sem dar pancada em ninguém, cruze para a outra estrada da floresta quando der de cara com um lobo de panca suspeita… Ah, e tire esse chapéu, porque ele te deixa com uma panca…”.

Enviado por admin, 05/04/13 2:30:00 PM
Tiffany Grant / Sxc.hu
Um emaranhado de fios de desonestidade amarram a nossa sociedade…

Você tem uma boa ideia, reflete sobre ela, trabalha, desenvolve-a com muita inspiração e ainda mais transpiração e… bingo! Fica rico? Não, alguém rouba o produto do seu esforço: “Quem mandou pensar? Quem mandou trabalhar?”. É claro que você se sentiria mal, vítima de uma injustiça, de uma safadeza, de um crime. Você, uma pessoa honesta, nunca faria algo assim; afinal, você não faz aos outros o que não gostaria que fosse feito a você, não é mesmo? Por exemplo, você não comercializaria ou compraria um CD ou um DVD pirata, nem baixaria ilegalmente pela internet o produto do esforço de outras pessoas, não é? Eu ouvi um “aí é diferente”? Por que é diferente? “Porque pagar R$ 50 pelo DVD original é muito caro”. De fato, não é barato. Mas… Primeiro, na esmagadora maioria dos casos, você só vai assistir ao filme uma vez. Então, por que não alugá-lo, em uma locadora que dá empregos, que paga seus impostos, por R$ 5, e ainda sair limpo dessa? Segundo, pagar R$ 50 pelo exemplar de um produto do gênio humano em que se investiu tanto, para tê-lo em casa e poder exibi-lo à vontade, não é tão caro. Uma dúzia de rosas custa isso. E as rosas não falam e ainda morrem. “Ah, mas a indústria cinematográfica já está muito rica…”. Não vou me alongar em relação à indevida generalização contida na tal “indústria cinematográfica”, mas uso um argumento mais prosaico: ok, o dono da pizzaria mais bacana da cidade também está rico, e nem por isso você vai lá roubar uma pizza; ao contrário, você vai pagar os R$ 50 pela pizza, vai comê-la assistindo ao filme e ela vai desaparecer, diferentemente do DVD. E, se fosse para roubar algo, que fosse a pizza, afinal, comer costuma estar à frente de se divertir na ordem humana de prioridades. Ou não? E ser honesto não entra nas prioridades?

Agora, imagine que você é proprietário de uma casa de espetáculos. Paga seus tributos, dá empregos a diversas pessoas. Aí você contrata um artista famoso para fazer um show no seu estabelecimento. Custa caro: o cachê é alto (e ele merece, pois é um grande artista), é preciso alugar equipamentos, reforçar a segurança, contar com um número indevido de “meias-entradas”, etc. No dia do show, um bando de gente resolve abrir um buraco no portão e entrar sem pagar ingresso, de graça, na faixa. Dizem que não vão pagar nada porque o preço do ingresso é abusivo. Que têm direito à cultura. Oba-oba! Imagine o mesmo com um jogo de futebol, em que a torcida invade o estádio sem ingresso, ou com uma sessão de filme, em que parte do público entra pela porta dos fundos do cinema, sem pagar. E os honestos “otários” pagando, e alguém tendo prejuízo. Sacanagem, não é? Você não faria algo desse tipo, certamente. Nem em uma variação aparentemente “menos grave”, como “roubar” o sinal da TV a cabo, certo? Eu ouvi um “aí é diferente”? Não vou entrar nessa de novo. Não é diferente. É desonesto, para não usar a palavra mais adequada, ainda um tanto capenga por conta dos atrasos jurídico-legais: é crime. A esse respeito, ontem a Gazeta do Povo publicou que a “‘Gatonet’ tem 1 milhão de terminais no país”. Pobres dos gatos. Prefiro chamar essa rede de desonestidade de “Estelionet”.

Sim, todos nós temos direito à cultura, à informação. Mas quem é obrigado a fornecer meios para o exercício desses direitos é o Estado. E eles existem, ainda que possam ser questionados. Quer ver um show de graça? Tem lá na praça! Mas, para ir à casa de espetáculos, assistir ao show do pop-star, tem que pagar! E, se a grana está curta, paciência! Junte dinheiro e vá ao próximo! A TV fechada é…tchan-tchan-tchan-tchan…fechada! Quer entrar? Tem que pagar! Quer programação gratuita? Tem no ar, é só sintonizar! A pizza do restaurante bacana é cara? Você não rouba a pizza, você paga por um hot-dog da barraca da esquina. No final do mês, reúne os trocados e se esbalda num rodízio de pizza. Eu faço isso, a maior parte das pessoas faz isso. Gente honesta vive como pode, sem prejudicar os outros.

Infelizmente, muitas pessoas têm uma visão estreita e não percebem que estão prejudicando o próximo — e a sociedade. Não se colocam no lugar dos outros, no lugar, por exemplo, do compositor que tem a sua música pirateada e não recebe o devido por sua criação – pois os intérpretes ganham muito com shows, mas o inspirado compositor ouve sua música estourada e fica só no “show me the money”. Muitas pessoas não percebem a amplitude de suas ações. Se ninguém pagasse pela TV a cabo, ela deixaria de existir e não teríamos um monte de bons programas. Se ninguém visse filmes por meios legais e devidamente remunerados, boa parte das produções deixaria de ser realizada, já que ninguém trabalha de graça. Ao contrário, se todos pagarem, teremos mais produção, mais impostos recolhidos, mais empregos formais – e, quem sabe (oxalá), até menores preços.

De novo, o preço… Ser honesto pode custar caro, mas vale muito, não tem preço. Vamos nos basear na relação custo-benefício, temperada com honestidade. Por exemplo: supondo que a TV a cabo custe R$ 180 por mês, e, sendo conservador, o pai passe uma hora por dia na frente da tevê, assistindo ao programa esportivo, a mãe fique duas horas vendo os seriados, o filho fique três horas vendo desenhos animados. Por dia, essa família assiste a seis horas de programação de tevê fechada, por R$ 6, um real para cada hora de televisão. É caro? Por qual outro entretenimento você paga R$ 1 por hora? Cinema a um real? Show a um real? Onde? Não acho tão caro pagar a TV a cabo pelo que ela oferece. É claro que eu gostaria de pagar menos. Todo mundo quer pagar menos – mas quem pode reclamar é quem paga. O problema é não querer pagar. Quando não vale a pena comprar algo, não se compra, mas também não se tem – a não ser que se roube. Quando eu perceber que não estou aproveitando a TV a cabo adequadamente, que não está compensando pagar tanto por ela, deixo de assinar e fico com a TV aberta – e com a minha consciência tranquila. O mesmo vale, por exemplo, para o editor de texto em que escrevo estas linhas. Trabalho escrevendo, o programa de edição de texto é minha ferramenta profissional. Se eu fosse um mecânico honesto, compraria os alicates e as chaves de fenda para exercer meu ofício, não roubaria as ferramentas. Como sou um escriba honesto, compro o editor de texto, não o baixo ilegalmente. Simples assim.

O pior é que boa parte das pessoas que compra filmes pirateados, ou que baixa músicas ilegalmente, ou que assiste à tal “Gatonet” (ou melhor, “Estelionet”), é gente com condições financeiras de adquirir produtos originais e pagar pela TV a cabo. E pessoas que depois reclamam, indignadas, dos desvios dos governantes, dos gatos feitos pelos burocratas para desviar nosso dinheiro… Temos o que merecemos. Essa é a triste verdade. Enquanto todos nós não nos tocarmos de que tudo está relacionado, de que “gatear” o sinal da TV a cabo é errado, de que comprar um filme pirata é errado, de que uma coisa leva à outra, enquanto tiver gente orgulhosa de sua “esperteza”, enquanto ser honesto for sinônimo de ser “otário”, estaremos condenados ao atraso. E seguiremos vivendo numa sociedade amarrada por um emaranhado de fios de desonestidade, num país “gateado”.

P.S.: Sim, eu também já comprei CD pirata, também já baixei filmes da internet, mas não faço isso há um bom tempo. É preciso ser honesto, não apenas com os outros, mas consigo mesmo. É preciso ter humildade para reconhecer nossos erros e procurar corrigir nossas condutas. A sociedade só vai evoluir quando cada um de nós evoluir. E a evolução começa por coisas simples, a roda começa a girar na direção certa com esforços aparentemente pequenos, como quando desligamos um cabo indevidamente conectado.

Enviado por admin, 22/03/13 7:30:00 AM
Gavin Spencer / Sxc.hu
Deus nos ouve de Sua janela…

Eu ouço a mãe gritar com a filha.

“Você não me ouve!”

Eu ouço a mãe chorar em seguida.

“Ela não me ouve…”

Eu ouço a janela se abrir.

Tosse. Tosse. Tosse.

Eu sinto o cheiro do cigarro subir.

“Onde foi que eu errei com essa menina?”

Eu é que sei?

“Meu Deus, você me ouve aí em cima? Só falta o Senhor não me ouvir também…”

Ele, eu não sei. Eu, infelizmente, ouço.

“Vou falar mesmo assim…”

Fala que eu te escuto. Ainda que eu não queira.

“Eu queria uma luz…”

E eu queria dormir.

“Ela me irrita…”

Você me irrita.

“Acho que é porque somos muito parecidas… Vejo meus defeitos nela.”

Eu ouço os seus defeitos. E sinto o cheiro deles.

“Grito muito com ela…”

Grita mesmo.

“Às vezes, acho que ela me odeia…”

Ela não é a única.

“Mas ela é minha filha, e eu a amo tanto!”

Eu ouço a mãe chorar.

“Somos só nós duas, o pai dela foi embora, o Senhor sabe…”

Ele deve saber, eu não sabia.

“E é tão difícil criar uma filha sozinha…”

É… E sei como é difícil ser criado sozinho também.

“Às vezes, penso em desistir…”

Todos nós pensamos.

“Às vezes, sinto que não tenho forças…”

Eu sinto o peito apertado. Vou para a janela respirar.

“Me dá um sinal, meu Deus, de que as coisas vão melhorar…”

Se eu fosse Ele, daria.

“Por favor, qualquer coisa, Pai do Céu…”

Uma lágrima escorre pelo meu rosto e cai.

“Preciso saber que o Senhor está aí, que me ouve…”

Minha lágrima cai sobre o cigarro da mãe, apagando-o.

A mãe se assusta, olha pra cima.

Eu me escondo rapidamente. Acho que ela não me viu.

A mãe começa a chorar novamente, mas de um jeito diferente: ela chora e ri.

Eu ouço a mãe bater numa porta.

“Filha, filha, abre, meu amor…”

Eu ouço uma porta se abrir.

“Filha, perdoa a mãe. Eu te amo.”

Eu ouço um choro infantil agora, deve ser a filha.

“Eu também te amo, mãe. Desculpa…”

Os dois choros se confundem. Acho que se abraçaram.

“Nós vamos ficar bem, filha. Deus está com a gente. Ele nos ouve…”

Eu começo a rir e a chorar. Deus nos ouve.

Enviado por admin, 15/03/13 11:48:00 PM
Joakim Buchwald / Sxc.Hu
Poesia…

O último dia 14 foi Dia Nacional da Poesia. Valeu a comemoração. Mas todo dia é dia de poesia, não é, Dona Maria? E nem precisa da rima, não é, Dona Julieta? Todo dia é dia de poesia – mesmo os dias cheios de problemas rendem versos e poemas. Por falar nisso…

Dia desses, fuçando em um baú de tesouros pessoais, voltei no tempo ao esbarrar em um livrinho mágico, feito à mão. Numa etiqueta colada à capa de cartolina revestida de papel aveludado, escrito com letra de professora, destaca-se o título da obra: “Livro de poemas – Vinícius – 3ª Série – Profª Eliane Hungaro – 1991”. Confesso que tenho apenas uma vaga lembrança da professora Eliane – nem recordo se a chamava de “profe” ou de “tia”. Mas nunca me esqueci do primeiro poema que escrevi (talvez o primeiro digno, ou não tão indigno, de alguma lembrança), cumprindo uma tarefa passada pela professora. Eu tinha oito ou nove anos, provavelmente nove, já que sou nascido em maio e o poema trata da Independência do Brasil. Desde então, sempre tive o poeminha, intitulado “Pátria amada, Brasil”, na ponta da língua:

“Ó pátria amada,
que por D. Pedro I,
no dia 7 de setembro,
teve sua independência proclamada.
E que ainda é amada.
Mesmo com suas crises,
continua idolatrada.
Salve, salve, meu Brasil,
que tem o céu cor de anil.
A mesma cor tinha a espada varonil,
que cometeu tal ato, tão nobre,
a Independência do Brasil.”

Como se lê, por certo não foi a qualidade do material que me estimulou a memorizar o poema. Nem foi o ufanismo inocente, que eu já deixava àquela época – o “mesmo com suas crises, continua idolatrada” logo virou “você tem tantas crises que deveria ser internada”. Também não ponho a culpa pela lembrança na minha habilidade para decorar, que só foi boa naqueles tempos de catequese, de muito Creio e Salve Rainha. Na realidade, os versinhos nunca saíram da minha cabeça porque eu me encantei pela possibilidade de poetizar a vida. Mesmo que eu não tenha evoluído muito (como poeta, hoje não me distancio tanto do piá do primário que rimava Brasil com anil), o despertar para a poesia, para o olhar poético, foi fundamental. Devo isso à professora Eliane, que reuniu os poemas (entre eles, o meu) da turma da 3ª Série do Colégio Marista de Cascavel, de 1991, no tal livro que encontrei. Com o capricho da boa professora, ela datilografou os poemas e montou os livrinhos, um para cada aluno, prendendo as páginas com um laço de fita. Com a própria obra-prima “publicada” em livro, que guri não se encantaria? Encantamento. Eureca! Coisa de criança. Coisa de poeta.

Aliás, já que foi (é e sempre será) dia de poesia, quero melhorar a qualidade do produto para a freguesia. Vamos de “Os poemas”, de Mário Quintana.

“Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…”

E já que o Dia Nacional da Poesia é uma homenagem ao nascimento do poeta Castro Alves (em 14 de março de 1847), encerro com um trecho de uma obra dele, “Sub Tegmine Fagi”:

“Amigo! O campo é o ninho do poeta…
Deus fala, quando a turba está quieta,
Às campinas em flor.
— Noivo — Ele espera que os convivas saiam…
E n’alcova onde as lâmpadas desmaiam
Então murmura — amor —

Vem comigo cismar risonho e grave…
A poesia — é uma luz… e alma — uma ave…
Querem — trevas e ar.
A andorinha, que é a alma — pede o campo
A poesia quer sombra — é o pirilampo…
Pra voar… pra brilhar.”

***

P.S.: Para abrir o livrinho da nossa turminha, a professora Eliane escolheu um poema intitulado “Minha Professora”, de um colega meu chamado Rafael. Começa assim: “Tia Eliane, minha querida, Tu és parecida com uma margarida. Ou serás com uma rosa? Uma rosa milagrosa.” E seguia: “Eliane tu és bela, bela como a Cinderela”. Adiante: “Eliane é nossa paixão, uma paixão do fundo do coração. Eliane, uma mensagem, para o Céu já tem uma passagem”. Como escrevi, não me lembro se ela era parecida com uma margarida ou com uma rosa, mas, só por nos ter aberto as portas da poesia, merece a passagem para o Céu.

Enviado por admin, 08/03/13 12:27:00 PM
Mario Alberto Magallanes Trejo / Sxc.hu
Agora é que são elas…

- Bom dia, meu bem! Já fui pra academia, tomei banho, dei café pras crianças…

- Bom dia, amor! Ai, que sono… Você preparou o lanche delas?

- Claro! Agora vou levá-las para a escola e depois vou para o trabalho. Tenho uma reunião no final da tarde e só devo voltar à noite. Você pega as crianças?

- Pego, amor. Você não vai voltar muito tarde, né?

- Acho que não! Às nove horas, no máximo.

- Não vai sair com o pessoal do escritório, né?

- Não, claro que não. É só reunião de trabalho mesmo.

- Tá… Vou preparar um jantar especial para nós, então…

- Não se preocupe com isso, amor! Eu posso trazer alguma coisa! Assista à sua novela, descanse, vá ao salão cortar o cabelo, brinque com as crianças…

- Eu estava pensando em deixar as crianças com os meus pais e fazer um jantarzinho romântico para nós… Que tal?

- Hummm… Estou gostando disso… Mas… É alguma data especial?

- Você deveria saber…

- Ai, amor, me perdoa… Você sabe que eu ando com a cabeça cheia de trabalho…

- Tudo bem… Mas é o seu dia!

- Meu dia? Meu aniversário foi há um mês!

- Pensa bem…

- Ai, meu bem, não me enrola… Preciso ir trabalhar!

- Hoje é dia da mulher! E você é a mulher mais especial de todas!

- Ah… Obrigada pela lembrança, querido… Agora eu vou, estou atrasada. Você pega as crianças na escola, depois, né?

- Pego, pego! Mas não se atrase para o nosso jantarzinho! Vou preparar o seu prato favorito!

- Que chique! Meu marido está até cozinhando! Pode deixar que eu lavo a louça, então! Tchau, meu bem!

- Feliz dia da mulher…

- Obrigada! Preciso ir! Tchau, amor! E não se esqueça de pegar as crianças! Se não der, me avisa que eu dou um jeito!

*-*-*

Ah, as mulheres…

Dia desses, fui chamado a fazer uma entrevista para a edição especial do mês da mulher do Jornal da Ordem – da Seccional do Paraná da Ordem dos Advogados do Brasil. Topei: “E quem será a entrevistada?”. “Entrevistadas. Não será apenas uma, mas cinco mulheres, advogadas. E todas ao mesmo tempo”, responderam-me. Topei mais ainda. Eu sempre quis participar como mediador do Saia Justa. Preparei-me bastante, elaborei várias perguntas muito bem fundamentadas. Mostrei-as para a minha esposa. Ela apenas disse: “Cinco mulheres juntas? Você não vai precisar perguntar nada!”. De fato. Abri a boca duas vezes durante quase uma hora de papo, quando acontecia de elas todas pararem para respirar ao mesmo tempo. Mesmo assim, sem eu conseguir perguntar quase nada, elas responderam a todas as perguntas que eu havia elaborado. Foi um interessante e divertidíssimo bate-papo – elas ficaram no papo e eu fiquei no bate palmas.

As mulheres são mesmo incríveis. Elas conseguem fazer, com raras exceções, tudo o que os homens fazem e, também com raras exceções, muito mais bem feito. Elas têm os cinco sentidos mais aguçados do que os dos homens e ainda tem um sexto e infalível sentido. E dão sentido à vida! E dão novas vidas à vida! E não deixam a louça suja!

Hoje é Dia Internacional da Mulher. Parabéns a todas as mulheres, hoje, ontem, amanhã, sempre! Todos os dias são de vocês!

Enviado por admin, 01/03/13 8:43:00 AM
"As provações de Moisés", de Sandro Botticelli / Domínio Público
“As provações de Moisés”, de Sandro Botticelli

Sou muito esquecido. Nem mesmo me lembro do que é que fiz para me lembrar desta história. Ai! Lembrei: gravei a história numas placas enormes de pedra, que acabam de cair no meu pé e esmagar o meu dedinho. Recordação dolorida. A dor é o lembrete mais eficiente, como se verá. Sou tão esquecido que, quando fui chamado ao alto da montanha, a voz me perguntou, entre fogo (não me lembro de ter acendido uma fogueira): “Você trouxe caneta e papel, como eu pedi”? Eu tinha me esquecido da recomendação. “Puxa, só tem pedra nessa montanha! Quer saber, é até melhor, assim você não esquece: grave nessas placas de pedra o que eu vou dizer. Pode colocar aquele título que havíamos combinado”, disse-me a voz. “Que título?”, perguntei. E a voz: “Não é possível… Preciso melhorar a memória de vocês na próxima versão. Vou colocar um HD maior na cachola dos próximos. Lembre-me disso… Deixa pra lá, eu amarro um laço no dedo. Então, talhe aí, na pedra, o que eu vou ditar…”.

Foi assim que recebi os 10 Mandamentos do Relacionamento Amoroso – For Dummies. Eu estava na pior, depois de levar um pé nos fundilhos duma ex-namorada, tentando lembrar onde é que eu tinha errado. Tinha afogado as mágoas, estava meio alto. E do alto veio a voz que me ditou as leis da felicidade amorosa. Desde então, as tenho seguido à risca e posso dar meu testemunho milagroso: graças aos mandamentos, eu, mal-acabado, amarrei e tenho conseguido segurar a mulher mais maravilhosa que pôs os pés na terra desde que as mulheres deixaram de ser costelas e ganharam um esqueleto completo. Vou compartilhar convosco os mandamentos, mas vos recordo que a mulher mais maravilhosa já é minha e ninguém tasca – o nono mandamento é claro quanto a isso. Aos mandamentos, então.

10 Mandamentos do Relacionamento Amoroso

1 – Amar a ela sobre todas as outras.
2 – Não errar seu nome, hein, não!
3 – Guardar seu aniversário e preparar as festas.
4 – Honrar o pai e a mãe dela.
5 – Não a matar.
6 – Não cometer adultério.
7 – Não se furtar a mimá-la.
8 – Levantar falso testemunho (quando for para agradá-la: essa roupa não a deixa gorda, você está linda, querida).
9 – Não desejar a mulher do próximo (mesmo quando ele estiver longe).
10 – Não cobiçar as “coisas” alheias (mesmo quando as “coisas” alheias estiverem à mostra).

Seguir à risca esses mandamentos não é tão simples quanto parece. No geral, eu tenho conseguido, com algum sucesso. E é bom conseguir; caso contrário, as pedras das leis podem cair “acidentalmente” na minha cabeça, né, amor? Mas já fui fraco e falhei. Isso aconteceu há alguns anos, pouco antes de eu me casar. Confesso: quebrei o terceiro mandamento, esqueci-me do aniversário da minha mulher. Eu escrevi que sou esquecido, mas não justifica. Camaradas, não façam isso em casa. O Ministério da Saúde Emocional adverte: esquecer o aniversário da mulher pode dar dor de cabeça.

Brincadeiras à parte, o meu esquecimento foi triste. A pobrezinha passou o dia todo abatida. E o idiota esquecido, aqui, perguntando, a cada cinco minutos: “O que foi, amor? Está tudo bem?”. Não estava. E ela deixou isso bem claro à noite, quando finalmente respondeu. Ouvi muito. Fiquei mais triste do que ela. E prometi que nunca mais me esqueceria de nenhuma das datas importantes, os dias das nossas vidas: o dia em que nos conhecemos, o dia em que demos o primeiro beijo, o dia em que a pedi em namoro, o dia em que nos casamos, e, claro, o dia do aniversário dela. Ela me perdoou, levando em consideração uma peculiar atenuante: a minha cabeça não estava acostumada à sua data de aniversário. Explico: no primeiro ano de namoro, comemoramos o aniversário dela em uma bela festa, no dia 1º de abril; tempos depois, ela me contou que, na verdade, seus pais haviam demorado um mês para registrá-la, de modo que sua data de nascimento no dia da mentira era uma… mentira. Mais tarde, eu mesmo fiz o processo judicial de retificação, corrigindo a data: 1º de março, dia de nascimento do amor da minha vida, minha esposa, Veronica. É hoje. E, para não esquecer, deixo registrados meus votos de saúde, paz e felicidade: Parabéns por seu aniversário, amor!

"O Nascimento de Venus", de Sandro Botticelli / Domínio Público
No nosso caso, podia ser “O nascimento de Vero”.

*-*-*

Agudas

- Outra coisa que contribuiu para eu ter me esquecido do aniversário da minha esposa é o fato de fevereiro ter 28 dias. Isso sempre me confundiu. Eu acho que é dia 30 de fevereiro e, quando vou ver, já é 2 de março. Como diria o jornalista Flávio Gomes: quando eu for imperador do mundo, vou mudar esse calendário.

- É verdade que hoje, com o Facebook, fica mais fácil se lembrar dos aniversários. Mas não recomendo confiar nisso no caso do aniversário da própria esposa. E se a rede cai? A casa cai junto!

- Segundo o Wikipedia, o dia 1º de março era o Ano Novo no Império Romano e também marca o retorno bem sucedido à Europa da expedição de Cristóvão Colombo à América (1493), o retorno de Napoleão Bonaparte à França, depois de seu exílio na ilha de Elba (1815), o fim da Guerra do Paraguai (1870), a realização das primeiras eleições diretas para presidente da República do Brasil (1894), o lançamento do álbum “The Dark Side of the Moon” pelo Pink Floyd (1973). A trilha sonora do dia já está definida.

- Também nasceram no dia 1º de março: o pintor italiano Sandro Botticelli (1445), o compositor e pianista polonês Frédéric Chopin (1810), o ex-presidente do Brasil João Goulart (1919), o ex-primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin (1922), o cantor britânico Roger Daltrey, do The Who (1944), o cantor e compositor Jorge Aragão (1949), o apresentador Leão Lobo (1954), o ator espanhol Javier Bardem (1969), a modelo Ana Hickmann (1981) e o cantor canadense Justin Bieber (1994). Como se vê, algumas safras de 1º de março são muito melhores do que outras.

- Como não quero ficar expondo muito minha bela esposa à cobiça alheia (lembrem-se do nono mandamento), ilustro este texto com imagens de outro “aniversariante” do dia, o pintor italiano Sandro Botticelli. As mulheres por ele retratadas, por sinal, parecem-se muito com a minha amada Veronica – especialmente a do quadro Primavera.

Detalhe de "A Primavera", de Sandro Botticelli / Domínio Público
No nosso caso, podia ser “Prima Vero”.

- Last, but not least. Antes que alguém me apedreje por brincar com os Mandamentos da Lei de Deus, faço questão de esclarecer: sou cristão e tento seguir à risca os Mandamentos. Acho até que os sigo. Mas acho também que Deus não faz caso e até gosta de brincadeiras sem maldade. Deus é bem humorado. A prova disso é o ornitorrinco.

Enviado por admin, 22/02/13 11:56:00 PM
Arquivo pessoal
Entre seus pais, Márcia e Gilmar (vestidos de Mestre Yoda e Darth Vader, respectivamente), meu primo Rafael “Trooper”, guri que escolheu o lado bom da Força.

No último dia 20, eu e os Dias da minha vida comemoramos o sétimo aniversário do mais jovem Dias das nossas vidas, meu primo Rafael. O Rafael é a primeira pessoa cujo desenvolvimento eu, já adulto, tenho a oportunidade de acompanhar de perto. E que oportunidade. É fantástico ver um ser humano crescer física e, sobretudo, intelectualmente. Como bem escreveu o pai do Rafael, meu querido tio Giba (em uma bonita homenagem ao filho, publicada no Facebook) o Rafael não vem sendo meramente moldado de acordo com as vontades de seus pais, como uma miniatura de gente: com os devidos ensinamentos de sua família, o Rafael fez, ele próprio, seus sete anos, tomando as suas decisões, crescendo em idade, tamanho e atitudes. De fato, bem orientadas, as crianças aprendem a construir seus próprios caminhos. E também ensinam muito. É preciso prestar atenção às lições que os pequenos nos dão, de maneira sublime, às vezes por meio de um sorriso, às vezes por meio de uma atitude aparentemente desimportante, como a escolha de uma fantasia para a festa de aniversário.

Filho de um dos casais mais divertidos que conheço, o Gilmar (Giba) e a Márcia, as festas de aniversário do Rafael são eventos legais até para quem geralmente não tem paciência para festinhas infantis. A do ano passado foi sobre Star Wars. Não sou grande conhecedor do universo de Guerra nas Estrelas, mas quando soube que o Rafael havia escolhido o tema, perguntei se ele iria vestido de Darth Vader ou de Mestre Yoda. Porém, para minha surpresa, ele respondeu que se fantasiaria de Rex Trooper, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Vá lá que eu não seja especialista, mas sei que existem dezenas de personagens mais famosos em Guerra nas Estrelas do que o tal do Rex. Meio frustrado com a escolha do Rafael, quis saber dele o porquê de não escolher o Darth Vader ou outro personagem principal. E ele respondeu: “Porque eu acho o Rex mais massa, e ele é do bem”. A minha frustração virou admiração: sem ligar para hierarquias baseadas em poder, grife, sobrenome ou pedigree, escolhendo com o coração, baseado no que sentiu que é melhor, não no que se convencionou como melhor, o guri escolheu o lado bom da Força. Que a Força esteja sempre com ele.

Enviado por admin, 15/02/13 3:39:00 PM
Montagem sobre fotos de Nadia Szopinska e Sias Van Schalkwyk / SXC.HU
A víbora e o jornal.

Dia desses, meu pai encontrou uma gravação de áudio em que eu, aos quatro anos, dou uma de repórter e narro a ocorrência de um acidente aéreo, empostando a voz infantil e comunicando minuciosamente a notícia, tudo registrado em uma fita cassete – com dois “s”, piazada, não é palavrão, é uma fita magnética em que os dinossauros gravavam seus sons jurássicos. Também encontrei outro registro, esse em vídeo (fita VHS, a avó do Blu-Ray), em que eu (aos oito anos) e meu irmão (aos seis) seriamente apresentamos à câmera uma garra de gavião, como se fosse uma incrível descoberta arqueológica; ao final, encerrávamos a reportagem: “Vinícius e Guilherme para o National Geographic”. Eu era uma criança curiosa, lia muito, tinha sede de informação, um pequeno jornalista investigativo – como quase toda criança devidamente estimulada.

Acabei cursando a faculdade de Jornalismo, e, formado, trabalhei por quase seis anos como repórter da Gazeta do Povo. Fiz algumas reportagens bacanas, mas confesso que não recuperei o ímpeto de repórter da infância, quando tudo era novidade, tudo era notícia – as notícias pareciam novas. Não estou só. Muita gente se diz desestimulada a acompanhar o noticiário, pois os políticos, os escândalos, os desastres parecem sempre os mesmos. O Sarney, que mandava no país quando eu, aos quatro anos, noticiava o acidente de avião, ainda manda muito hoje, quando escrevo este texto, aos trinta. Quando eu tinha oito anos e brincava de reportar para o National Geographic, o Collor estava no poder; e hoje, onde ele está? Está lá, em outro Poder, mas segue podendo muito. E o impeachment não foi uma notícia inventada por uma criança. O que falar das inundações e deslizamentos causados pelas chuvas de verão? Todo ano tem. E brigas entre torcidas? Todo mês tem. E apreensões de droga? Toda semana tem. E mortes no trânsito? Todo dia tem.

Nada disso é novidade. Deve, então, o repórter parar de registrar tais fatos? Ao contrário. O repórter deve continuar incansável em seu trabalho, relembrando diariamente à população o absurdo da banalização de crimes, escândalos políticos, omissões do Estado… Porém, já que os fatos não são novos, o que deve mudar é a abordagem: é preciso encontrar novas formas de se contar velhas histórias, instigando a reação do público às garras dos gaviões cotidianos. Assim, quem sabe, numa edição futura, com a população mais formada, informada e capaz de se indignar com más “notícias”, tudo isso deixe de ser corriqueiro e passe a ser notícia de fato. Estaremos no caminho certo no dia em que nos chocarmos verdadeiramente com um ato de corrupção noticiado, como uma criança se choca com a notícia de um acidente aéreo.

Escrevo isso hoje porque me antecipo (vício de jornalista): amanhã, 16 de fevereiro, é Dia do Repórter, o mais importante elo da corrente da imprensa, mais importante do que o editor, do que o chefe de reportagem, do que o diretor de jornalismo, do que o dono do jornal. Quem disse isso não fui eu, mas Joel Silveira, considerado o maior repórter brasileiro – e quem disse isso não foi ele, mas o poeta Manuel Bandeira. Até dias atrás, eu pouco tinha ouvido falar sobre Joel Silveira. Até assistir ao documentário “Garrafas ao mar: a víbora manda lembranças”, o primeiro produzido pela Globo News. A víbora em questão é o próprio Joel Silveira, apelido pelo qual era chamado por seu chefe Assis Chateaubriand (que o mandou cobrir a Segunda Guerra Mundial, sua grande experiência jornalística), por conta do estilo agudo do repórter sergipano. Dirigido por Geneton Moraes Neto, outro grande repórter, o documentário me fez sentir a paixão jornalística dos meus tempos de criança, fascinando-me pelas presas da víbora, que destilava seu veneno em textos intoxicantes. Falecido em 2007, Joel Silveira reportou como ninguém a vida nacional ao longo do século XX, ou, como ele mesmo disse no documentário: a víbora viu a banda passar.

Enfim, junto às felicitações a todos os repórteres que continuam mostrando os dentes às injustiças, aos desvios, aos escândalos, e continuam mostrando a realidade (infelizmente dura e repetitiva) à população, deixo a dica: o documentário “Garrafas ao mar: a víbora manda lembranças” será reprisado no canal Globo News, no sábado e no domingo da semana que vem, dia 23/02, às 15h30, e dia 24/02,às 20h30.

Enviado por admin, 08/02/13 6:35:00 AM
Antônio More/Gazeta do Povo
Carrinho de Lincoln em Bottinelli pode ter lesionado seriamente o argentino

É triste ver alguém se machucar. Não importa se é o pai, o vizinho, o pedestre desconhecido ou o jogador do time adversário. A dor de um vivente dói na gente. Senti dor ao ver a imagem do Dario Bottinelli, jogador argentino do Coritiba, quebrando o tornozelo em uma disputa de bola com seu colega de clube, o Lincoln, durante um treino. O registro, em termos de fotojornalismo, é excelente – meus votos de congratulações ao fotógrafo Antônio More, da Gazeta do Povo. A cena, em termos de sensibilidade humana, é horrível – meus votos de pronta recuperação ao Bottinelli.

Porém, o que chama mais a atenção no caso não é o esperado sofrimento do agredido, mas a dor do agressor: quando percebeu a gravidade do ferimento que causou em seu companheiro de time, Lincoln sentiu o baque, divulgou uma nota oficial afirmando se tratar do “incidente mais triste” de sua carreira, visitou o Bottinelli no hospital, pediu-lhe desculpas, chegou a pensar em não jogar no dia seguinte. Mais ainda, chama a atenção o julgamento dos carrascos de plantão sobre o Lincoln: houve até gente dizendo que o jogador teve intenção de machucar seu colega. Menos, muito menos. O Lincoln pode ter sido imprudente ao disputar a bola com tanta rispidez em um treino, mas não cabe julgar seu caráter por um lance de futebol. Por outro lado, talvez seja necessário treinar com vigor; afinal, o adversário não costuma ser gentil em disputas de bola. Aliás, se o jogador treinasse de maneira diferente, os corneteiros o acusariam de fazer “corpo mole”. Mole é julgar os outros.

Noventa e noves fora, uma coisa é certa: nos campos da vida, não é incomum machucarmos alguém, não raramente pessoas próximas a nós. Basta um lance. Em quantas ocasiões, com palavras, atos ou mesmo omissões, damos carrinhos violentos, irrefletidamente? Às vezes, nem percebemos que escorregamos desembestados com as travas das chuteiras em direção ao tornozelo de alguém. Há tempos, por exemplo, publiquei algo no Facebook que atingiu um casal de amigos queridos. Fiz quase de brincadeira, uma indiretazinha provocativa sobre uma controvérsia de opiniões. Escrevi apenas uma frase, sem qualquer palavra de baixo calão, sem qualquer referência a eles, nada radical, nada agressivo: uma entrada talvez firme, mas leal, sem maldade, numa disputa de bola, visando à esfera do debate amigável, não ao tornozelo da convicção inquestionável. Eles tomaram o meu comentário como uma injustificável e violenta agressão pessoal. Fui dar na bola. Sem querer, acertei o tornozelo.

Como escreveu o Lincoln em sua nota sobre a contusão do Bottinelli, aquele foi o “incidente mais triste de toda a minha carreira” nas redes sociais. A amizade foi parar no hospital dos relacionamentos. Faço minhas as palavras do Lincoln: “Ali, no calor do momento, nunca pensamos no pior, já que não conseguimos ter a mínima noção do que realmente aconteceu. Já vi jogadas mais ríspidas e fortes do que essa em que, apesar da dor no instante da pancada, o jogador teve condições de voltar a campo e se movimentar normalmente. Nesse caso, por uma infelicidade tremenda, não foi o que aconteceu (…). Não sou e nunca fui um jogador violento, muito pelo contrário. Contudo, o sentimento de remorso bate forte nessas horas”. Como o jogador do Coritiba, fiquei “muito triste e abatido com toda essa situação, pois em momento algum quis machucá-lo(s)”, tentei pedir desculpas ao casal atingido, passei um tempo longe dos campos virtuais, mas até hoje a fratura que causei não sarou e eu, o agressor, sou quem claudica e sente dor.

No fundo, somos todos jogadores nos campos da vida e temos que jogar com vontade, sem medo das divididas, mas com prudência e lealdade. Se, mesmo assim, alguém se machucar, o que acontece, a regra do bom jogo é clara: pedem-se desculpas, assumem-se as consequências dos atos, aprendem-se as lições. Quando a ferida não cicatriza, não há banco de reservas onde se refugiar: com ou sem dor, é bola pra frente.

***

- P.S.: Acabo de ver que, na Gazeta do Povo de hoje, o colunista Leonardo Mendes Jr., muito mais letrado do que eu em matéria de futebol, faz análise sobre o caso Lincoln-Bottinelli. Recomendo a leitura.

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