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A investigação de um outro sujeito

Ana Paula Maia mais uma vez se cerca de personagens masculinos que fazem o trabalho “sujo” e se mantêm quase invisíveis, em Carvão Animal

Da esquerda para direita: Ana Paula Maia diz não estar particularmente interessada no universo feminino; Verônica Stigger trabalha em sua primeira novela, Opisanie Swiata |
Da esquerda para direita: Ana Paula Maia diz não estar particularmente interessada no universo feminino; Verônica Stigger trabalha em sua primeira novela, Opisanie Swiata
 
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A investigação de um outro sujeito

Contra qualquer possibilidade de estereótipo, a escritora carioca Ana Paula Maia destrincha universos masculinos marginais em sua prosa seca, desde sua estréia literária, em 2003, com O Habitante das Falhas Subterrâneas, quando ainda escrevia sob o impacto da leitura de O Apanhador dos Campos de Centeio, de J. D. Salinger.

Muito depois, ao encerrar a Saga dos Brutos, neste ano, com a publicação de Carvão Animal (Record), já liberta das primeiras influências, a carioca se detêm sobre homens cujas profissões geram desprezo e sequelas – e que se mantêm semi-invisíveis na ordem social.

É o caso dos abatedores de porcos, que os distribuem para frigoríficos e se entretêm apostando em rinhas de animais na novela pulp Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos (primeira parte da trilogia), ou dos lixeiros, desentupidores de esgotos e quebradores de asfalto mal pagos que povoam os capítulos de O Trabalho Sujo dos Outros (a segunda parte). “Como um sujeito aguenta fazer isso? Quem é esse sujeito que faz isso”, costumava se indagar a autora.

Ana Paula mesmo responde a essas perguntas ao longo de seus livros, que se constituem de aguçadas investigações do cotidiano desesperançado dos outros – seres o mais distante possível da realidade dela.

Não é diferente com os protagonistas de Carvão Animal. Na companhia de Ernesto Wesley, conhece-se o lado menos vibrante do dia a dia de um bombeiro: o contato repetido com o fogo que tatua queimaduras no corpo, o risco de morte contínuo e as visões disformes de pessoas carbonizadas fundidas com metal sob altas temperaturas. “É tão real que fica no abismo do absurdo”, reconhece a autora, e confessa ter se assustado com o que escrevia. “Houve imagens que custei a esquecer.”

O método de trabalho de Ana Paula comporta uma pesquisa extensa sobre cada assunto, o que faz de suas descrições desconcertantemente realistas. É a opção de quem dispensa a retórica, as digressões e os adornos poéticos em favor da brutalidade crua do real. Reduzidos os corpos a blocos disformes ou a pó, o que sobra entre os destroços de humor negro, em seu livro, é o desamparo humano.

A autora aprendeu em vídeos e manuais que encontrou na internet como se dá a cremação dos mortos, com riqueza de detalhes (“Enquanto um corpo é carbonizado, as extremidades se contorcem e encolhem”, escreve). E leu no jornal sobre a explosão de um forno crematório. Juntou, assim, as informações necessárias para criar o outro protagonista de Carvão Animal, Ronivon, irmão de Ernesto e operador do forno crematório de uma cidade onde já não há espaço para os mortos no cemitério. “Essa é uma realidade para o futuro”, prevê.

Ana Paula pesquisa porque não gosta de inventar. “A ficção é um bom lugar para eu entender melhor o mundo ao meu redor. É um ensaio sobre a vida, a minha e a dos outros, principalmente. Geralmente uso a ficção para extrapolar a realidade, para ir além dos limites perceptíveis”, diz.

Se seus protagonistas são invariavelmente homens, é porque já tentou escrever do ponto de vista feminino e falhou. Sem o distanciamento que o outro gênero exige, não se sente capaz de retratar personagens. Ela conta que leu pouca literatura feita por mulher – e, com o que leu, não vislumbra possibilidade de diálogo literário. Suas referências passam antes por Salinger e Campos de Carvalho.

“O universo feminino, por ser o meu universo habitual, rotineiro, não gera em mim nenhum interesse em desbravá-lo. Gosto do outro na ficção, na investigação. O outro é também o outro gênero, ou seja, o masculino. A exploração de um território que não é o meu, mas a literatura me permite aproximação e entendimento. Não gostaria de ser um homem, mas adoro narrar a vida de homens através da literatura. Quando me aproximo dos outros, aproximo-me mais de mim mesma”, sintetiza.

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