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Giovani Ferreira

Preocupação agrária e crise política no Paraguai

Publicado em 25/06/2012 |
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Com uma produção de grãos próxima a 10 milhões de toneladas, não é apenas a relação política internacional e de Mercosul que preocupa na destituição do presidente Fernando Lugo, no Paraguai. Apesar de uma produção relativamente pequena na comparação com o Brasil e até mesmo com o Paraná, nos últimos anos a agricultura passou a responder por parcela significativa e fundamental na manutenção e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Aliás, uma economia agrícola altamente dependente, seja em tecnologia, logística, mercado ou mão-de-obra, insumos e conhecimento garantidos principalmente pelo Brasil, pelas empresas, cooperativas e agricultores brasileiros.

São os chamados “brasiguaios” os grandes responsáveis pela introdução da agricultura de escala empresarial em solo paraguaio. O movimento de imigração teve início na década de 60, com pecuaristas. E mais tarde, nas décadas de 70, 80 e 90, com os agricultores. Mas foi somente na última década que o país começou a despontar como um importante player do comércio de grãos. Com a agricultura estabelecida, o Paraguai experimenta produtividades similares à brasileira, se consolida como exportador e contribui sobremaneira para a liderança da América do Sul na oferta mundial de soja, a commodity agrícola com maior liquidez no comércio mundial de grãos.

Com produção acima de 8 milhões de toneladas de soja na safra 2010/11, os agricultores “brasiguaios” consolidaram o Paraguai como o 4º exportador mundial de soja.

O temor, então, é que a instabilidade política leve à instabilidade econômica. Mudança de governo normalmente vem acompanhada de mudanças de pensamento, princípios e diretrizes, reformas econômicas e sociais, que no momento em que vive o Paraguai tem tudo a ver com a terra. É importante considerar que o mérito da discussão pode até ser outro, mas o estopim que culminou na destituição do presidente Fernando Lugo foi agrário. A operação desastrosa de reintegração de posse, com a morte de 18 pessoas, foi o que deu motivo e munição para o congresso deflagrar o processo que terminou na condenação sumária e fulminante do mandatário.

Se foi golpe de estado ou se a Constituição foi cumprida à risca, fica aberta a discussão. As opiniões e interesses divergem das ruas do Paraguai, aos países do Mercosul e líderes mundiais. De imediato, o que preocupa é instabilidade, a insegurança e a tensão que aumenta no campo. Bem ou mal, o ex-presidente Lugo pelo menos tentou manter a ordem no campo. Mesmo sendo um defensor dos pobres e dos movimentos sociais, entre eles os carpeiros, como são chamados os sem-terra paraguaios, em várias ocasiões ele garantiu os direitos dos agricultores brasiguaios. Nas regiões mais suscetíveis ao conflito, era comum a colheita de grãos em terras de brasileiros ocorrer sob escolta das forças armadas.

E agora, qual será a orientação do governo para com os sem-terra e com os produtores brasiguaios? São vários os fatores que devem influenciar essa relação, inclusive a posição do governo brasileiro sobre o novo comando do Paraguai. Em nota oficial, o Itamaraty condenou a maneira o como o impeachment foi conduzido e convocou o embaixador brasileiro em Assunção para consultas em Brasília. A presidente Dilma Rousseff deve avaliar nesta semana posições e sanções como forma de retaliação ao vizinho do Mercosul. A Argentina, outro importante parceiro paraguaio no agronegócio, foi mais dura e mais rápida que o Brasil e retirou seu embaixador do Paraguai.

Como líder nato da América do Sul, qualquer posicionamento do governo brasileiro deve encontrar eco não apenas no Mercosul como em outros países que mantêm relações diplomáticas e comerciais com o Paraguai. Espera-se então que qualquer discussão ou ação que possa vir a ser tomada não considera apenas questões políticas e macroeconômicas, como a sociedade na binacional Itaipu, mas demandas econômicas e sociais, que inspiram acima de tudo segurança ao cidadão brasileiro que vive no Paraguai, que produz ou trabalha em terras paraguaias. E se existe um assunto entre os movimentos sociais que o Brasil conhece bem, suas bandeiras e objetivos, assim como o uso indevido da causa, é a questão agrária, que também está entre as de maior risco e insegurança social.

O agravante do Paraguai está na concentração das terras agricultáveis. Os dados divergem, mas estima-se que 80% das áreas férteis do país estejam sob o controle de apenas 2% da população. O dilema, por outro lado, é que o Paraguai sozinho não teria tecnologia, know-how e competência para alavancar o agronegócio do país. Do ponto de vista dos movimentos sociais os agricultores brasileiros podem até não ser bem-vindos. Mas para a geração de emprego, renda e fortalecimento da economia eles não são apenas essenciais, como vitais ao desenvolvimento do país.

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