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Ilustração mostra a nave Cassini acima do hemisfério norte de Saturno. Lançada em 1997 e terminando com o mergulho na atmosfera de Saturno neste 15 de setembro, a missão Cassini-Huygens mudou a compreensão científica do planeta mais exótico do sistema solar e de suas luas misteriosas | NASA/JPL-CALTECH/NYT
Ilustração mostra a nave Cassini acima do hemisfério norte de Saturno. Lançada em 1997 e terminando com o mergulho na atmosfera de Saturno neste 15 de setembro, a missão Cassini-Huygens mudou a compreensão científica do planeta mais exótico do sistema solar e de suas luas misteriosas| Foto: NASA/JPL-CALTECH/NYT

A espaçonave Cassini, que orbitou Saturno pelos últimos 13 anos, pesaria 2.125 quilos na Terra e, com quase sete metros de altura, é um pouco mais longa e larga do que um caminhãozinho de mudança ligeiramente inclinado para trás. Repleta de câmeras, antenas e outros sensores, a espaçonave é um dos robôs espiões mais sofisticados já lançados no espaço interplanetário. 

Nesta sexta-feira (15) de manhã, o mundo todo ouvirá os últimos momentos da Cassini. 

No Laboratório de Propulsão a Jato, na Califórnia, os cientistas da missão Cassini vão conduzir sua criação para o abismo, nas profundezas de Saturno. Eles receberão dados sobre a composição das nuvens cor de caramelo que rodeiam o planeta, até que a espaçonave não resista mais ao calor e à pressão da entrada na atmosfera e se transforme em um meteoro em seus momentos finais. 

Assim chegará ao fim uma jornada de maravilhas e descobertas que já dura mais de uma década. 

missão Cassini-Huygens, como é oficialmente conhecida, saiu do papel nos anos 1980, em parte para fortalecer os laços entre a NASA e a Agência Espacial Europeia e, em parte porque não existe lugar mais interessante do que Saturno no Sistema Solar. Com anéis misteriosos e hipnotizantes, além de uma série de pelo menos 62 luas estranhas, Saturno foi durante muito tempo o planeta mais distante, antes do descobrimento de Urano, Netuno e Plutão. 

Quando foi lançada em 1997, a espaçonave era composta por duas partes: um módulo orbital, construído pela NASA, e uma sonda capaz de pousar, a Huygens, construída pela Agência Espacial Europeia para explorar a maior lua de Saturno, Titã. Os nomes eram uma homenagem à era de ouro da renascença astronômica na Europa. 

Giovanni Domenico Cassini foi um astrônomo de olhos atentos do século XVII que reconheceu pela primeira vez um vão escuro nos enigmáticos anéis de Saturno e, então, encontrou quatro luas. Christiaan Huygens descobriu Titã e reconheceu os anéis de Saturno pelo que realmente são.  

O módulo orbital e a sonda chegaram em julho de 2004 como dois turistas curiosos para conhecer Saturno, seus mistérios e seus anéis. Pouco depois, em dezembro de 2004, a sonda Huygens se soltou da nave mãe e fez a primeira aterrissagem na lua de outro planeta, indo parar nos montes de hidrocarbonetos congelados de Titã três semanas depois. 

Mas Cassini estava só chegando para sua longa estadia, dando voltas em torno de Saturno como um incansável paparazzo interplanetário. 

A lua Encélado, que orbita Saturno, em uma imagem feita pela espaçonave CassiniNASA/JPL-CALTECH/NYT

A lista dos seus maiores sucessos incluiria filmes de uma tempestade de seis lados que encobre todo o polo norte do planeta; vistas detalhadas dos anéis dourados, tecidos como teias de aranha, com tranças e nós causados pela gravidade de incontáveis satélites naturais; além da descoberta de colunas de fumaça que se parecem com máquinas jorrando neve sobre a superfície da lua Encélado. Sem falar nos cartões postais dos lagos e oceanos de Titã. 

A NASA, que não tem vergonha de compartilhar suas conquistas, divulgou recentemente uma série de números resumindo a missão: 7,9 bilhões de quilômetros rodados, 294 órbitas ao redor de Saturno, 2,5 milhões de comandos executados, 635 gigabytes de dados científicos coletados, 453.048 imagens coletadas, 3.948 artigos científicos publicados, 27 países envolvidos e dois oceanos descobertos. 

Aos quais é preciso acrescentar: 2,5 bilhões de dólares gastos para construir e lançar a Cassini e a Huygens, divididos entre a NASA, a Agência Espacial Europeia e a Agência Espacial Italiana, além de mais 1,4 bilhão de dólares para realizar as operações durante os 20 anos da missão no espaço.

"A vida que não conhecemos muito bem"

Como qualquer grande empreitada científica, a Cassini gerou tantos questionamentos quanto respostas. Por exemplo, o que está acontecendo nos oceanos de Titã e Encélado? 

Titã, a única lua do sistema solar com atmosfera densa – até mais densa do que a da Terra – agora também é o único outro corpo celeste que conhecemos no universo que conta com líquidos em sua superfície. O líquido não é água, mas metano e etano – hidrocarbonetos. O ar de Titã é composto quase exclusivamente por nitrogênio puro. Além disso, deve haver algum oceano de água ou de algum outro líquido abaixo da superfície. 

Se você acredita que "a vida que não conhecemos muito bem" poderia se basear em outros líquidos que não a água – uma possibilidade sugerida por Steven Benner, bioquímico da Fundação da Evolução Molecular Aplicada, na Flórida – Titã tem o potencial de carregar essas formas estranhas de vida. 

Visão global de SaturnoNASA/JPL-CALTECH/NYT

Outros astrônomos se referem a Encélado como o local onde é mais provável encontrar vida extraterrestre. As colunas de fumaça em erupção na região norte sugerem que existe um oceano de água salgada sob a superfície. E como todo mundo sabe, onde há água, pode haver vida. 

Micróbios podem ir de carona para o espaço à bordo dessas colunas de fumaça, e poderiam ser captados por uma espaçonave projetada para detectá-los. Infelizmente, a Cassini não foi feita para isso. 

Entretanto, a sonda Cassini passou por dentro de uma dessas colunas em outubro de 2015, encontrando evidências de que reações térmicas e químicas acontecem no fundo do oceano, gerando energia na forma de hidrogênio gasoso. Na Terra, ambientes similares – como as fontes hidrotermais – são um local ideal para o desenvolvimento de micróbios. 

Graças à Cassini, os mundos distantes de Saturno pularam para o topo da lista de lugares onde há chance de vida alienígena. Recentemente, a NASA publicou um chamado para projetos de futuras missões com destino a Saturno. 

Mas nada dura para sempre. 

O destino da Cassini foi selado no fim de abril. Usando a atração gravitacional de Titã, a Cassini mudou de curso ligeiramente, assumindo uma trajetória que a levaria a atravessar 22 vezes por dentro dos anéis de Saturno, por onde nenhuma espaçonave havia passado. 

A lua Rhea, que orbita Saturno, em uma imagem feita pela espaçonave CassiniNASA/JPL-CALTECH/NYT

Na segunda-feira, a Cassini deu mais um beijo de adeus em Titã, recebendo um empurrão gravitacional fatal em direção a Saturno. 

As câmeras serão desligadas nesta quinta-feira (14), depois de observar o ambiente que a Cassini chamou de lar pelos últimos 13 anos. Porém, a maioria dos instrumentos da espaçonave continuará funcionando, recolhendo e analisando amostras da atmosfera do planeta, enquanto ela mergulha em chamas na atmosfera. 

Os cientistas e a imprensa, em toda sua glória de mídias sociais, vão se reunir no Laboratório de Propulsão a Jato para testemunhar o fim da Cassini, que deve ocorrer na sexta-feira por volta das 7h54 da manhã na Califórnia. Na semana passada, a Cassini enviou o que Carolyn Porco, do Instituto de Ciências Espaciais de Boulder, no Colorado, líder da equipe de imagens do projeto, chamou de "últimas fotos bonitas de Encélado... a pequena lua com grandes possibilidades na órbita de Saturno". 

"Preparem-se, o fim está próximo", concluiu por e-mail.  

A notícia vai chegar para todos os que estiverem reunidos no local na forma de um silêncio repentino. A Cassini irá se quebrar e queimar como um meteoro, rasgando as nuvens com seus átomos incandescentes. Porco afirma que o ponto de entrada será visível da Terra, e alguns astrônomos amadores torcem para enxergar algum sinal da queda da Cassini. 

Isso, entretanto, é pouco provável, e a Cassini dará seu último adeus com um clarão que nenhum humano será capaz de ver.

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