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Escoteiros participam de atividades ao ar livre | Pixabay
Escoteiros participam de atividades ao ar livre| Foto: Pixabay

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias anunciou que cortou as relações com o movimento escoteiro dos Estados Unidos, terminando uma tradição de mais de cem anos. O escotismo é um movimento fortemente integrado na vida religiosa dos meninos dessa religião.

A Igreja dos Mórmons, como é mais comumente conhecida, disse em anúncio que tem sentido a necessidade de criar e implementar um programa uniforme de liderança e de desenvolvimento da juventude que sirva globalmente a seus membros. As duas organizações determinaram em conjunto que, a partir de 31 de dezembro de 2019, a igreja não será mais um parceiro preferencial dos escoteiros. 

A decisão irá afetar centenas de milhares de meninos mórmons em 30,5 mil congregações espalhadas por todo o mundo. 

Por 105 anos, o relacionamento entre os escoteiros e os mórmons foi importante para os dois grupos. Qualquer menino integrante de uma congregação mórmon tornava-se, automaticamente, integrante do escotismo. A Igreja Mórmon tem sido o maior participante no escotismo nos Estados Unidos. Ela é responsável por cerca de 20% dos 2,3 milhões de escoteiros. 

Mudanças no escotismo

Membros da igreja não citaram as mudanças no escotismo que causaram o rompimento, mas os dois grupos tem divergido sobre valores nos últimos anos, particularmente após a decisão do ramo masculino dos escoteiros decidir incluir líderes de tropas homossexuais. 

O anúncio coincide menos de uma semana após os Boy Scouts’, como é chamado o grupo nos Estados Unidos, anunciar a mudança do seu nome para Scouts BSA, promovendo sua decisão no ano passado de receber meninas no programa pela primeira vez. 

Apesar de a Igreja Mórmon não ter estabelecido objeções quando os escoteiros começaram a admitir gays em 2013 e transgêneros no ano passado, ela afirmou lamentar a decisão dos Boy Scouts em remover a barreira a líderes gays em 2015. Os líderes dos mórmons chegaram a admitir a possibilidade de romper com a organização. 

Mas os escoteiros disseram que, apesar de proibir a discriminação na contratação de funcionários, deixaria às tropas e conselhos individuais a escolha de líderes que refletissem seus próprios valores. Os líderes da Igreja Mórmon decidiram manter os laços com o grupo, embora o relacionamento não durasse muito tempo. 

Saída gradativa

A igreja começou a reduzir a sua participação no movimento escoteiro em 2017, quando anunciou que iria cortar laços com programas escoteiros voltados para adolescentes no ensino médio, enquanto mantinha o engajamento de meninos de oito a 13 anos nos Cub Scouts e Boy Scouts.

A Igreja destacou que os programas voltados a adolescentes enfrentavam dificuldades históricas de implementação e, por isso, escolheu desenvolver seus próprios programas para adolescentes do sexo masculino. 

Effie Delimarkos, uma porta-voz dos Boy Scouts nos Estados Unidos, disse ao Washington Post no ano passado que a decisão da igreja estava relacionada ao desejo de um programa que preparasse os adolescentes mórmons para as missões da igreja. “Lamentamos esta decisão, mas entendemos”, disse Delimarkos. “Simplesmente, não estamos nos alinhando com o que a igreja precisa.” 

A igreja mórmon se opõe a casamentos homossexuais, ensina que a homossexualidade é um pecado e permite que gays assumam papel de liderança na Igreja apenas se não manifestarem abertamente a sua homossexualidade. 

A assessoria de imprensa da igreja destaca que seus líderes estão conduzindo uma “profunda revisão” dos programas voltados aos jovens e indicando que a Igreja necessita “fortalecer as crianças e os jovens com experiências de aprendizado e de crescimento centradas no Evangelho.” 

Novo programa

O novo programa, previsto para ser lançado em janeiro de 2020 está “desenhado para apoiar as famílias em sua busca pelo desenvolvimento da fé em Jesus Cristo e construir o caráter”, destacaram os líderes em um comunicado. 

“A abordagem tem por objetivo ajudar crianças e jovens a descobrir sua identidade eterna, construir caráter, ser resiliente, desenvolver padrões de vida, participar em atividades externas e fortalecer suas habilidades para cumprir seus papeis divinos como filhos e filhas de Deus”, apontou a igreja. 

Lideranças dos mórmons atribuem as necessidades de mudança ao crescente aumento global do número de integrantes. Mais da metade dos 16 milhões de membros moram fora dos Estados Unidos e do Canadá. 

A Igreja planeja manter a parceria com os Boy Scouts para meninos na faixa entre oito e 13 anos de idade até o final de 2019, quando a transição para o novo programa terminar. 

Enquanto 70% das tropas escoteiras são patrocinadas por organizações religiosas, os meninos mórmons ainda poderão se juntar às tropas de escoteiros independentes de sua igreja.

Comunicado divulgado pelo Conselho dos Escoteiros da Grande Salt Lake City (EUA) aponta que planeja continuar trabalhando com parceiros e organizações da comunidade para oferecer opções a qualquer jovem que deseje ser escoteiro após o termino da parceria. 

Repercussão

“Vai ser um golpe”, diz Mark Griffin, presidente da entidade, destacou o “Desert News”. “Não podemos dizer que foi uma total surpresa”. Ele disse que saber que a igreja estava trabalhando em uma iniciativa global baseada nas necessidades de ter um mesmo programa em Paris, na França, assim como em Paris, Texas.” 

As reações à novidade foram diferentes entre os mórmons que cresceram no movimento escoteiro. Muitos expressaram o seu desapontamento, lembrando-se das experiências positivas e desafiadoras que tiveram em sua juventude. Outros deram boas vindas à novidade, criticando a burocracia e os custos dos programas relacionados ao escotismo e ressaltando a necessidade de criar um novo programa, que fosse mais flexível e atendesse às necessidades da Igreja. 

“Enquanto muitas pessoas se chocaram, para mim, a decisão não surpreendeu”, escreveu David Moore, um mórmon morador em Salt Lake City, no Facebook. “ O custo para a igreja tornou-se insustentável nas últimas duas décadas.”

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