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As palavras de Churchill, no famoso discurso de Zurique, propondo a criação dos Estados Unidos da Europa, em 1946, constituíram reconhecido precedente da construção integracionista, a contribuir tanto para a criação da Comunidade do Carvão e do Aço, em 1950, como para o Tratado de Roma, em 1957. No entanto, o Reino Unido não aderiu nem a um e nem a outro projeto. Não apenas pelas dificuldades derivadas da necessária partilha de soberania, tão cara aos ilhéus, máxime pela objeção francesa: de fato, por reiteradas vezes o Reino Unido foi impedindo de ingressar na então CEE. Primeiro, em 1961; depois, novamente, em 1967, sempre com a oposição gaullista. Apenas ao fim dessa era, já no governo de Pompidou, em 1973, é que ocorreu a adesão britânica, no primeiro alargamento da incipiente Europa que nem sequer usava tal expressão. Não foi processo fácil, de ambos os lados do Canal da Mancha, pois já em 1975 o povo britânico era consultado, com 67,2% de votos favoráveis à permanência na CEE.

Um dos argumentos para aquele “sim” histórico foi a necessidade de superar a crise que abalava a economia britânica de forma sistêmica, além dos perigos da Guerra Fria e das promessas de manutenção do way of life e pertencimento à Commonwealth e seus mistérios.

O Reino Unido nunca esteve com os dois pés assentes em Bruxelas

Saindo à inglesa

Empobrecimento e enfraquecimento são dois dos devastadores efeitos econômicos e políticos que uma retirada britânica pode fazer eclodir

Leia o artigo de Jorge Fontoura, professor de Direito Internacional

Superada a crise econômica, com o fortalecimento da libra e a recusa à moeda comum, já no início dos anos de 1990, com o Tratado da União Europeia, os britânicos redescobriram a curiosa formula de ser e não ser, como recorrentes ambiguidades acerca da plena adesão ao pacto europeísta. É possível que se tenham, afinal, realizado as insuperáveis incompatibilidades com os rígidos regramentos comunitários, desde a ideia basilar da supremacia das normas comunitárias sobre o direito interno, o que significava extinguir a alma inglesa, subsumida na ideia da superioridade inegociável de seu Parlamento.

Se a modernidade vinda do continente, com inovações supranacionais de Bruxelas e sua burocracia, vingou por algum tempo, é claro que não poderia vingar por todo o tempo. Como poderia o brocardo “o Parlamento pode tudo” – pedra angular da aura britânica, de João sem Terra a Elizabeth II – seguir vigendo face à normatividade vista como estrangeira, a subverter corações e mentes de tantas e de tão imponderáveis tradições?

Com a saída agora apoiada por lideranças de todas as tendências, inclusive por seis ministros de Cameron, não há como dissimular os velhos e novos dilemas, além do orgulho insular britânico. Como por exemplo a dramática questão dos refugiados, embora os britânicos tenham sempre recusado o espaço de Schengen e a política social comum. Com os perigos da avalanche de imigrantes que se confundem no imaginário europeu com o terrorismo, não há como evitar dizer “não” à integração plena e suas inevitáveis consequências.

Se parece claro que o Reino Unido nunca esteve com os dois pés assentes em Bruxelas, sua saída agora não constitui trauma insuperável, como ato de hostilidade. Ao contrário, livre para enfrentar seus dilemas, o Reino Unido, em outro momento histórico, poderá finalmente fortalecer-se e exercer seus plenos poderes, seja como membro do G7, seja como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, o que ao fim e ao cabo redundará em prol do combalido Ocidente e da própria Europa.

Elizabeth Accioly é professora da Universidade Lusíada de Lisboa.
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