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Confissões quaresmais (IV)

A maioria de nós não tem consciência disso, mas vive exatamente como se fosse seu próprio deus

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Veja como são as coisas. Estamos há semanas procurando Deus pela leitura das Confissões de Santo Agostinho e não é que Ele estava aqui no meio de nós esse tempo todo?! Semana passada, apareceu na Justiça Federal de Brasília, pedindo para que lêssemos mais a Bíblia para ninguém citar seu nome em vão. Comovente. E já está prometida nova aparição e será aqui em Curitiba, com rumores não confirmados de que Inri Cristo virá para se encontrar com “ó pâi” – e virá de pedalinho pelo Rio Iguaçu. Imperdível.

Parece loucura e é, mas não somos muito diferentes, não. A maioria de nós não tem consciência disso, mas vive exatamente assim, como se fosse seu próprio deus. Essa é a maior religião do mundo atualmente, aliás, a do “eumismo”. E é democrática, aceitando ateus e integrantes de outras religiões, sem preconceito, tendo um único mandamento: amar ao próximo como a ti mesmo.

Agostinho era assim, antes de se converter de vez ao catolicismo. Nada ele amava mais do que o poder do seu intelecto. Ele já era catecúmeno (quem recebia instrução preliminar em doutrina e moral para ser admitido entre os fiéis), mas, ainda assim, prezava mais seu intelecto, como ele mesmo confessou: “Na oração, eu ainda não implorava teu socorro, mas meu espírito achava-se ocupado em investigar e inquieto por discutir”.

Se a vontade de conversão é sincera, Deus não desampara

Eis aí toda a diferença entre a vontade de se converter e a conversão propriamente dita. É bem comum hoje em dia na Igreja Católica, aliás. Se você conhece alguém que recentemente se converteu, repare. Talvez o tipo mais comum seja o sentimental, aquele que precisa “sentir” Deus, erguer as mãos para o céu e bater palminhas nas missas. Ama o sentimento mais do que tudo, seja a alegria ou a tristeza; sem sentimento, não há Deus. Outro tipo é o do católico “tradição é meu pastor e nada me faltará”, que por encontrar um universo de obras para ler, de santos para conhecer, de teologia para absorver, mergulha nisso com toda a fé, mas muita mesmo. E fica bêbado desse conhecimento, literalmente, nem percebendo que está a moldar sua personalidade com base mais em regras, normas, do que na pessoa de Jesus Cristo. Não que não reze, não devesse conhecer tudo isso etc., não é disso que estou falando, estou falando de amar a Deus sobre todas as coisas. Já fui assim, sei como é: nada eu amava mais do que o conhecimento. Amava conhecer Deus, mais do que o próprio Deus. Entendeu por que me interesso tanto por Santo Agostinho?

Mas, se a vontade de conversão é sincera, Deus não desampara. Em algum momento essa vontade de poder (seja de poder sentir, seja de poder entender) será humilhada, vendo-se impotente, insuficiente. Nas Confissões, uma das passagens que mais nos ensina é aquela em que Alípio, discípulo e amigo de Agostinho, crente no poder de sua força de vontade, deixa-se levar por amigos a um combate de gladiadores, dizendo: “Mesmo que arrasteis para lá meu corpo, e o retenhais ali, podereis por acaso obrigar minha alma e meus olhos a contemplar tais espetáculos? Estarei ali como ausente, e assim triunfarei deles e de vós”. Resultado? Não deu cinco minutos e Alípio estava aos berros torcendo, gritando “Fora Temer” e por aí vai.

Agostinho sabia que não era diferente, enxergava em si o mesmo problema: “Por isso eu suspirava, acorrentado não com os ferros de uma vontade estranha, mas por minha férrea vontade”. Era chegada a hora de ficar de joelhos e implorar por socorro e assim ficaremos também até a semana que vem, porque é o mínimo que a história da conversão dele merece.

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