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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Noções fundamentais de Moeda, Dívida Pública e Inflação

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Por Adolfo Sachsida, publicado pelo Instituto Liberal

Definição 1: Inflação é o aumento generalizado e persistente do nível de preços.

Definição 2: Inflação é a perda do poder aquisitivo da moeda.

Se você aceita uma das duas definições acima, então existe uma única explicação para a inflação: excesso de moeda. Se você aceita uma das definições acima a consequência disso é que você deverá necessariamente aceitar que a inflação é SEMPRE um fenômeno monetário. Não há um único modelo teórico onde exista inflação, mas não exista moeda. Isso ocorre pois a ÚNICA maneira de TODOS os preços subirem (definição 1 de inflação) é o excesso de moeda. Além disso, a única maneira da moeda perder seu valor é em caso de um excesso relativo da oferta desta em relação a sua demanda (definição 2 de inflação).

Se o que disse acima está correto, então por que tanta gente diz que moeda não causa inflação? Ou ainda que existem outras causas para a inflação? A resposta é simples: a definição prática do que é moeda e de como medir a inflação gera essa confusão.

O que é moeda? Moeda é qualquer coisa que satisfaça três requisitos: a) reserva de valor, b) numerário (os outros bens são precificados em relação a essa coisa), e c) meio de troca. Qualquer coisa que satisfaça esses três itens é moeda. Por exemplo, no passado o sal era usado como moeda. Logo toda inflação vinha necessariamente do excesso de sal em relação a sua demanda. No passado, a moeda mais usada no mundo, por um período de tempo extremamente longo, foi o ouro. Toda inflação era resultado do excesso de ouro em relação a sua demanda. Alguns especialistas argumentam que existem modelos teóricos sem moeda, mas que geram inflação. Qual o truque? O truque desses modelos é que eles possuem uma “coisa” que tem as três propriedades acima, mas em vez de chamarem essa “coisa” de moeda, eles a chama de dívida pública. Ora tal como o sal e o ouro no passado, caso a dívida pública tenha as propriedades da moeda ela certamente poderá ser a origem da inflação. Mas isso não invalida o que afirmei acima (de que toda inflação é necessariamente um fenômeno monetário).

O pioneiro na análise da importância da dívida pública na economia foi Marco Antônio Martins, brasileiro que estudou em Chicago e publicou sua tese de doutorado no Journal of Political Economy. Outro pioneiro no estudo da importância da dívida pública sobre a inflação brasileira, termo tecnicamente conhecido por dominância fiscal, foi Tito B. Moreira que escreveu sua tese de doutorado sobre o tema ainda no começo deste século (curiosamente ambos são ignorados pela grande mídia). Recentemente, um texto de Mario Jorge Cardoso de Mendonca, Tito Moreira e Adolfo Sachsida analisa a possibilidade de ocorrência de dominância fiscal no Brasil.

Notem que coisa curiosa. Imaginem duas folhas de papel em branco. Na primeira o governo carimba os seguintes dizeres “R$ 5,00”, já na segunda o carimbo diz “Esse título da dívida vale R$ 5,00”. Os economista dirão que o primeiro papel gera inflação, mas o segundo não. Por mais estranho que isso pareça ao leitor, isso ocorre pois o primeiro papel satisfaz as características de moeda, enquanto o segundo não. Mas resta evidente que, na medida em que o segundo papel se assemelhe a moeda, poderá sim gerar inflação.

Resumindo, dívida pública pode sim gerar inflação. Mas isso não invalida o fato de que esse efeito ocorre necessariamente pela expectativa desse papel ser moeda (ou poder vir a se tornar moeda no futuro).

Aos que dizem que moeda não gera inflação, creio que deveriam também argumentar em favor da monetização da dívida pública (imprimir moeda e pagar a dívida do governo). Ora se moeda não gera inflação então por que o governo deveria emitir títulos públicos? Seria muito mais razoável emitir moeda (em vez de emitir títulos públicos e ser obrigado a pagar juros por eles).

Muitos citam a recente grande expansão monetária ocorrida nos Estados Unidos (conhecida por QE’s), sem o consequente aumento no nível de preços, como indício de que não existe uma relação tão direta entre moeda e inflação. Aqui, em minha opinião, o problema é outro: quando o governo aumenta a oferta de moeda nem todos recebem a mesma quantidade de moeda, e nem todos a recebem ao mesmo tempo. Além disso, você não gasta esse aumento de moeda de forma equânime (isto é, você não aumenta seu consumo de todos os bens proporcionalmente).

Por exemplo, se R$ 10.000,00 caíssem do céu na mão de cada brasileiro alguns iriam consumir mais feijão, outros mais gasolina, e outros fariam uma reforma em sua garagem. Mas é improvável que alguém que já se alimenta comesse mais feijão em decorrência desse dinheiro a mais. Logo, a demanda por feijão não aumentaria tanto como a demanda por carros usados por exemplo. Note que tal expansão monetária geraria um grande aumento no preço de carros usados, mas tal aumento dificilmente seria captado pelos índices de preço tradicionais. Por outro lado, tal excesso de moeda não teria muito efeito no preço do feijão. Note que neste exemplo o excesso de moeda não tem grande impacto na inflação se a mesma for medida pela cesta básica.

Novamente, de acordo com minha opinião, os QE’s que ocorreram nos Estados Unidos podem não ter impactado nas medidas tradicionais de inflação. Contudo, esse aumento de moeda acabou sendo direcionado para algum mercado específico (mercado imobiliário ou bolsa de valores, por exemplo) daí o fato dos índices de preço não capturarem o impacto do aumento da oferta de moeda sobre o custo de vida (tradicionalmente medido). No fundo, esse excesso de moeda acaba por criar bolhas em alguns mercados (essa explicação vem da Escola Austríaca de economia).

Comentário do blog: Recomendo a quem quiser se aprofundar nesse importante tema meu curso online “Bases da Economia“, que tem justamente um enfoque “austríaco” e lida numa das aulas (Aula 3: Moeda e Crédito) com essas questões.

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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