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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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O encanto dos “intelectuais” e da imprensa com o modelo chinês

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O jornal O Globo de hoje tem uma enorme reportagem sobre a China, em várias páginas. É o “China Watch”, que pretende entender melhor as mudanças na segunda maior economia do planeta. Até aí, tudo bem. Mas o que chama a atenção mesmo, ao menos a minha, é o tom bajulador a um regime opressor, ditatorial e centralizador, que não demonstra respeito algum por liberdades individuais, minorias ou pelo clima, bandeiras que os “progressistas” costumam adorar.

Sim, é verdade que a China vem crescendo bastante. Isso começou com Deng Xioping e seu pragmatismo, resumido na frase “não importa a cor do gato desde que ele pegue o rato”. A China começava a se abrir para o mundo, para a globalização, e a permitir mais capitalismo interno. Após décadas de socialismo, de planejamento central, de estado monopolizando os meios de produção, o enorme país começou a deixar aquela miséria toda para trás, e enriquecer. É o “milagre” que o capitalismo costuma fazer mesmo.

Mas calma lá! O que funcionou foi justamente a parte que mudou, em direção ao capitalismo. E o que continua ruim é a herança socialista, o grau de intervenção estatal que ainda existe e que é responsável pela alocação ineficiente de capital, por bolhas especulativas, por “cidades fantasmas”, por províncias repletas de dívidas fora do balanço, por problemas gravíssimos que ainda vão cobrar seu preço. Curiosamente, é essa parte que parece atrair tanto os “intelectuais” e jornalistas.

Eles pensam que os modelos democráticos ocidentais se esgotaram, e que a solução pode estar numa liderança firme, centralizadora, por meio do estado. A tara da intelligentsia por regimes centralizadores, ainda que (ou preferencialmente) opressores, é um caso de divã. O desejo de remodelar o mundo como se fosse um tabuleiro de xadrez, uma tábua rasa, sem ligar para essas chatices de democracia e mercado, parece irresistível para esses “pensadores”. Não é coincidência que Keynes tenha considerado o nacional-socialismo alemão bem adequado para implementar melhor suas ideias.

Vejamos alguns detalhes dessa grande matéria sobre o modelo chinês, a começar pelo desafio: encontre Wally na imagem abaixo, Wally sendo, claro, qualquer minoria pelos padrões chineses, incluindo… mulheres:

Parece uma missão impossível, não? Só vemos clones como os Smiths de “Matrix”. São todos homens, vestindo a mesma roupa, numa faixa etária relativamente similar. Não há uma só mulher para oferecer um toque diferente ali. E claro, o símbolo da foice com o martelo em mega destaque, bem ao centro, que é para lembrar que a China ainda é comunista, que o PCC controla a nação com mão de ferro, que existem súditos em vez de cidadãos. Mas é justamente esse centralismo remanescente que encanta tanta gente:

Essa coisa de divisão é muito chata! Conviver com opiniões divergentes, com partidos conflitantes, com visões de mundo contrastantes? Que inferno! Muito mais divertido e eficiente abraçar um modelo único de visão, centralizado no grande líder, não é mesmo? Xi é o gênio que teve a “grande visão global”, e agora vai executá-la, vai tornar “um mundo novo” possível. É comparado até ao “grande timoneiro”, Mao Tse-Tung, o responsável pelo “Grande Salto” (que lançou o país no abismo) e pela “Revolução Cultural” (que transformou crianças em monstros assassinos). Mas tem mais:

O grande sucesso do socialismo! E como há o aspecto nacionalista também, não seria o caso de descartar a expressão nacional-socialismo para descrever o modelo, seria? E quem defendia um nacional-socialismo também? Ah sim, Stalin! E aquele outro do bigodinho, claro, o tal de… Hitler! Sim, eram os comunistas e os nazistas que queriam concentrar todo poder no estado centralizado, para socializar o mundo com sua visão coletivista, que não deixa espaço algum para… o indivíduo, a menor minoria de todas. Mas não acabou:

Nossa, que fofo, que cara fantástico, realista, sincero, honesto, que “toca a real” para o povo! Ele merece nada menos do que ser o “líder mundial”, sem dúvida. O que são vários casos de abafar rebeliões com repressão total perto de tanta honestidade ao admitir que não será fácil revolucionar o planeta todo? Precisamos deixar um grande líder desses agir, sem amarras democráticas, sem preocupações burguesas com “direitos universais”. Afinal de contas, qual a alternativa? Aquele bufão idiota que foi eleito pela mais sólida democracia do mundo?

Nada disso! Trump é republicano, fala em reduzir o estado, em fortalecer o mercado, em combater os ditadores comunistas, e em retirar verbas públicas de movimentos ambientalistas. Em suma, é o demônio em pessoa! Temos que ridicularizar um sujeito desses, e enaltecer Xi, o grande líder, mesmo que a China esteja “destruindo o planeta” em proporção bem maior do que os Estados Unidos, mesmo que o ditador controle um povo sem liberdades básicas.

A China viveu sob o comunismo por décadas, e como resultado colheu apenas miséria e opressão. A parte que mudou foi justamente permitir a entrada de um pouco de capitalismo e abrir seu mercado para o mundo. O resultado foi tirar milhões da miséria. Mas não pensem que os “intelectuais” e jornalistas enaltecem essa parte, que é obviamente bem maior nos Estados Unidos, e que Trump quer fortalecer. Não! O que encanta essa gente toda é a parte socialista mesmo, é o poder central que o PCC ainda preserva, é a “união” em torno de um grande líder, até porque se discordar muito vai preso.

A tara dos “intelectuais” por um tirano é mesmo algo que só Freud explica…

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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