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Rodrigo Constantino
Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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O que penso do que pensa João Doria

João Doria concedeu uma breve entrevista por mensagens de áudio para a revista Época, que deu o que falar nas redes sociais, especialmente entre os mais conservadores. O prefeito de São Paulo realmente deu uma escorregada em alguns tópicos, em minha opinião. Vamos às suas curtas pontuações, com os meus comentários em seguida:

O senhor é a favor ou contra a descriminalização do aborto?
Sou contra, exceto em casos em que mulheres estupradas devam ter o direito ao aborto. Fora disso, deve-se preservar a lei como está.

Concordo com ele. Como já expus no blog, o tema do aborto foi um dos que mais mudei nos últimos anos. A banalização da vida humana é algo extremamente perigoso, e é preciso valorizá-la desde o começo, em seu estágio mais frágil.

E das drogas?
Sou contra.

Como liberal, fico dividido. Acho que a “guerra contra as drogas” fez muito mal, mas não estou seguro de que simplesmente legalizá-las será muito melhor. As drogas destroem muitas vidas, e não é possível falar em liberdade de escolha diante de coisas tão viciantes e poderosas como o craque, por exemplo. Claro, o sujeito tem a liberdade de não experimentar, mas sabemos que na prática não é tão simples. Apesar das dúvidas, de uma coisa eu sei: essa não é a bandeira prioritária no momento. No dia em que formos um país de primeiro mundo, como Holanda ou até Portugal, quem sabe poderemos debater esse tema? Mas há tanto a ser feito antes, que considero desvio de foco falar em legalização de drogas hoje. 

O que o senhor pensa do casamento gay? E da adoção de banheiros livres para transgêneros?
Nenhuma objeção ao casamento gay ou à adoção de banheiros livres para transgêneros.

Nenhuma objeção ao casamento gay também, lembrando que o mais importante aqui seria o aspecto civil, já que o religioso cabe a cada religião decidir, livremente. Não devemos usar o estado para impor uma visão de mundo aos crentes. Banheiros para transgêneros é realmente uma pauta “progressista”. Só de essa pergunta ser feita, num país com tantos problemas graves como o nosso, demonstra a influência da esquerda no jornalismo. A melhor resposta, mas politicamente incorreta, seria: who cares?! E claro, não se pode deixar a questão da segurança das meninas de lado. Galalau que “se sente” mulher não pode usar banheiro feminino e ponto.

O senhor é a favor ou contra a liberação de posse de armas?
Sou contra.

Aqui foi o maior deslize, em minha opinião, e também o que gerou maior revolta na direita. Meu amigo Bene Barbosa, do Movimento Brasil Livre, foi categórico em seu desabafo: “Bom, para deixar claro e inequívoco, questão do desarmamento é conditio sine qua non e se assim não fosse eu trairia 20 anos de trabalho e luta. O Doria é favorável ao desarmamento, portanto, para mim, é carta fora do baralho. Minha posição é essa é ponto final. Fica aqui quem quer”. Entendo e respeito sua decisão. Essa é a causa de sua vida, afinal de contas. E também fico muito decepcionado com Doria. A resposta foi curta e grossa, e caberia mais discussão, para entender o que exatamente ele tem em mente sobre o assunto. Ser um desarmamentista talvez não anule completamente a possibilidade de receber meu voto, mas confesso que ela cai bastante. Também levo muito a sério o direito básico de o cidadão ter uma arma para se defender, se assim desejar.

Em que teóricos da política, da economia e da gestão pública o senhor se inspira?
Nenhum.

Entendo a estratégia da resposta, mas ela é non sense. No limite, passa arrogância. Doria não quis se comprometer dando nomes, o que teria mais ônus do que bônus. Mas claro que todos temos teóricos que nos inspira. Eu tenho vários! E não teria problema em dizê-los, se fosse o caso. Na política, por exemplo, Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Winston Churchill seriam três gigantes que eu citaria como referências de estadistas, do lado prático. Na teoria econômica, mencionaria Hayek, Mises, Milton Frieman. Na teoria política, Burke, Isaiah Berlin, Raymond Aron, entre tantos outros. Muitas influências talvez seja uma resposta igualmente escorregadia, mas melhor do que “nenhuma”.

O senhor concorda com a reforma da Previdência nos moldes em que o governo Temer propõe?
Concordo e acho de suma importância que ela seja aprovada pelo Congresso Nacional.

Nada a acrescentar. Quem se coloca contrário a essa reforma, muito aquém do que necessitamos, está contra o futuro do Brasil. Simples assim.

É necessária uma reforma trabalhista no país?
Muito importante que aconteça.

Novamente, a mesma coisa. Só fica contra a flexibilização da CLT sindicalistas e oportunistas, pois os trabalhadores e principalmente os desempregados necessitam dessas mudanças, para modernizar um pouco leis tão obsoletas e fascistas.

Qual o grau de prioridade de uma reforma tributária?
Ela deve vir na sequência da previdenciária, trabalhista e política. Estas, sim, são prioritárias.

A tributária é igualmente prioritária. Reduzir e simplificar impostos é questão crucial em nosso país.

O estado brasileiro precisa privatizar mais ou já fez o suficiente?
Não fez o suficiente, pode fazer mais.

Concordo. Tem que privatizar todas as estatais! Não há motivo para o estado ser empresário.

Os bancos oficiais, notadamente o BNDES, devem financiar grandes empresas, como fizeram no governo Dilma? Ou devem ser mais comedidos?
Não há mal que façam isso, apenas é preciso muito cuidado, muito zelo com o dinheiro público. Mas a política de apoio a empresas brasileiras, principalmente às voltadas à exportação, é uma boa política.

Discordo. Há mal sim, e grande. Esperar cuidado e zelo é ingenuidade. Mais importante é retirar os mecanismos perversos de incentivos. O BNDES não deveria existir. Foi um equívoco de Roberto Campos, e ele mesmo chegou a reconhecer. A melhor política industrial do governo é não ter nenhuma e deixar o mercado em paz.

Empresas estatais devem ser sujeitas a nomeações políticas?
Não. Podem ter nomeações formuladas ou sugeridas por políticos, mas de nomes técnicos, ficha limpa e com currículo adequado para as funções às quais estão sendo indicados.

Empresas estatais sequer deveriam existir, ponto final. Devem todas ser privatizadas, e aí não tem mais nomeação política alguma.

O senhor é contrário ou favorável à redução da maioridade penal?
Sou favorável, para 16 anos. A razão é que hoje um jovem de 16, 17 anos já tem um comportamento adulto, diferentemente de dez ou 15 anos atrás. Hoje, ele já tem atitudes, pensamentos e comportamentos de um adulto, portanto, ele pode ser penalizado como um adulto diante de um cometimento de crimes.

Concordo, e vou além: podemos reduzir ainda mais! Como nos Estados Unidos e outros países de primeiro mundo: pune-se o crime. Claro que uma idade muito reduzida pode ser atenuante, mas à medida que o sujeito já é capaz de separar o certo do errado, deve ser punido pelos crimes que comete. O fato de a esquerda pregar o voto de adolescentes, o sexo cada vez mais precoce, até mesmo a mudança de sexo com base no conceito fajuto de “identidade de gênero”, mas depois não aceitar que marmanjos assassinos sejam responsabilizados como adultos por seus crimes hediondos comprova que a esquerda é criminosa, incoerente, imoral.

O senhor é favorável ou contrário ao financiamento público de campanhas?
Favorável a que parte do financiamento seja pública, parte privada. E que a parte privada seja feita com controle, transparência e limites. Quando o país tiver uma condição financeira, estabilidade e recursos suficientes, aí sim se poderá pensar num financiamento 100% público.

Como é que é?! O financiamento deveria ser zero por cento público e 100% privado! Não tem cabimento algum forçar o trabalhador a pagar pelas campanhas de partidos com os quais ele está totalmente em desacordo. Forçar um cristão a bancar a campanha de ateus abortistas? Forçar um liberal a pagar pela campanha de comunistas? Isso é absurdo, simplesmente absurdo. Os partidos devem se sustentar unicamente com a adesão voluntária de seus simpatizantes, ou então não merecem existir. Sabemos que vários “partidos” não passam de legendas de aluguel, como as delações da Odebrecht comprovam, justamente porque podem oferecer como moeda de troca tempo de televisão e o fundo partidário. Ambos devem ser abolidos.

Políticos e autoridades em geral precisam ter direito ao chamado foro privilegiado, a prerrogativa de serem julgados apenas em Tribunais Superiores?
Não, igualdade para todos em qualquer tipo de julgamento.

Boa! Igualdade perante as leis, uma das bandeiras mais estimadas pelos liberais.

O que o senhor acha da Operação Lava Jato?
De fundamental importância para o país, para o presente e sobretudo para o futuro da nação.

Boa, especialmente quando vemos certos tucanos e jornalistas ligados aos tucanos detonando Sergio Moro e até defendendo indiretamente Lula, só para poupar os seus companheiros.

Conclusão: uma entrevista com respostas muito resumidas impede uma análise mais profunda, mas o que temos é um misto de um gestor eficiente com uma mensagem antipolítica e um tucano em cima do muro que bebe de fontes “progressistas”. Um liberal em economia (pero no mucho), com bandeiras mistas em comportamento.

Doria continua sendo uma das lideranças interessantes que surgiram no Brasil nos últimos anos, uma promessa para quem está cansado do PT e também do próprio PSDB dos velhos caciques. Mas acho que precisa afinar melhor seu discurso, e rever alguns conceitos importantes, migrando mais para a direita. 

Rodrigo Constantino

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Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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