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Rodrigo Constantino

Um blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda “politicamente correta”.

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Uma análise mais abrangente dos selfies que os policiais tiraram com bandido preso

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A boa notícia da prisão de Rogério 157, um dos bandidos mais procurados no país, ficou até ofuscada por conta do debate e da revolta que os selfies tirados pelos policiais com o marginal, como se fosse uma celebridade, produziram nas redes sociais.

Alguns alegaram que foi a euforia do momento, uma empolgação justificável pela alegria da missão cumprida. Outros acham que tudo é absurdo, e um crime em si mesmo. Sentimentos conflitantes, portanto, tomaram conta da sociedade:

A Polícia Civil não viu com bons olhos o comportamento dos agentes. O delegado Gabriel Ferrando, que comandou as investigações que levaram à prisão do traficante, reprovou a atitude dos policiais. “Não acho certo. Todos os excessos cometidos serão corrigidos na Corregedoria da Polícia Civil”, disse. Na sequência, o próprio delegado fez mea-culpa. “Os policiais estavam numa ‘explosão’, numa comemoração por essa vitória.”

Membros de entidades defensoras dos direitos humanos também se manifestaram em relação aos registros fotográficos. “Por um lado temos que compreender a euforia, a tentativa de ter o trabalho reconhecido –ainda mais diante das atuais condições da polícia do Rio”, diz Ariel de Castro Alves, integrante do Movimento Nacional de Direitos Humanos.

“Por outro lado, isso [tirar fotos com o criminoso detido] é abusivo, não deve acontecer.” Ariel aponta dois problemas no ato, uma “glamorização” do crime. “Um grande traficante tratado como celebridade é um crime por si só, por ser apologia ao crime, e incompatível com a própria atividade policial”, diz, referindo-se ainda ao possível estímulo em jovens excluídos.

O que penso disso tudo? Quando vi a primeira imagem, com quase todos os policiais mais sérios, segurando suas armas, com o bandido no meio igualmente sério, não vi nada demais e entendi que era um momento de felicidade e busca por reconhecimento, num país que costuma demonizar tanto a polícia e enaltecer os marginais. Cheguei a comentar:

Mas depois, quando vi as outras fotos, especialmente aquela em que a policial aparece toda sorridente ao lado de um bandido que também está rindo, fiquei bem incomodado.

Mas após alguma reflexão, cheguei à conclusão de que estamos diante de um fenômeno muito maior e mais abrangente. Não são policiais glamourizando o criminoso, tratado como celebridade; são os próprios policiais buscando seu momento de fama e celebridade.

Vivemos numa era estranha, narcísica, em que todos querem seus 15 minutos de fama. Com a tecnologia disponível, adotamos uma postura voluntária de hiper-exposição, que geraria calafrios nos liberais do passado, preocupados com a privacidade do indivíduo. Não é mais preciso um Big Brother para extrair informações das pessoas; elas fornecem tudo nas redes sociais por conta própria.

Vemos gente tirando selfies em enterros, ou ligando a câmera do celular para filmar agressões públicas, até estupros, em vez de ir ajudar a vítima. A vulgaridade salta aos olhos, a insensibilidade virou a regra, e muitos querem apenas aparecer, ganhar “likes”, ver seus posts viralizarem, serem compartilhados. Até mesmo atentados terroristas poderiam ter essa explicação parcial: o maluco consegue, ali, seu momento de fama! Ele deixa de ser um “Zé Ninguém” para ser alguém importante, mesmo que do mal.

Escrevi um longo texto sobre a série Black Mirror, em especial o episódio que trata dessa obsessão por “curtidas”. Trata-se de uma prisão, mas uma prisão em que o indivíduo entra com os próprios pés e joga fora as chaves.

Se acho errado, então, o que esses policiais fizeram? Certamente. Foi exagerado, “over”, mancha a reputação da instituição e estragou um momento que era para ser só de festa. Mas antes de apontar o dedo para eles, que tal o leitor se olhar no espelho? Quantas vezes deixou o desejo de aparecer falar mais alto do que o bom senso?

Quase nunca publico em minhas redes sociais coisas pessoais. Procuro poupar minha família, meus momentos privados. Mas sei que, em boa parte, o autocontrole vem da necessidade, por ser figura pública. Não posso ser irresponsável e ficar expondo pessoas sem ligação com o meu trabalho, e minhas redes sociais servem para divulgar meu trabalho. Isso impõe uma disciplina em mim. Mas e se eu vivesse no anonimato, sem meus 200 mil seguidores? Será que teria a mesma postura? Ou será que a busca por alguns “likes”, alguma visibilidade, seria irresistível a ponto de eu me exceder às vezes?

Não sei a resposta. Sei que admiro aqueles que quase não postam nada pessoal nas redes. A privacidade é um valor liberal. A exposição excessiva, além de vulgar e brega, é prova de carência e narcisismo. Mas entendo que, em momentos de orgulho e felicidade, seja natural querer expor isso a todos. Se você posta a foto do filho com uma medalha, é complicado criticar tanto assim o policial que quer divulgar o ápice de sua carreira, quando prendeu o bandido mais procurado do país.

Mas isso não o exime de responsabilidade: ele faz parte de uma instituição e precisa seguir o seu decoro, até para preservá-la. Por mais que seja, então, um ato humano, demasiado humano, temos o direito de esperar e exigir mais de quem está lá para fazer as leis serem cumpridas, garantir a ordem. Não pega bem um policial fazendo selfie com bandido preso. Acho que aprenderam a lição…

Rodrigo Constantino

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Sobre / 

Rodrigo Constantino

Economista pela PUC com MBA de Finanças pelo IBMEC, trabalhou por vários anos no mercado financeiro. É autor de vários livros, entre eles o best-seller “Esquerda Caviar” e a coletânea “Contra a maré vermelha”. Contribuiu para veículos como Veja.com, jornal O Globo e Gazeta do Povo. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Liberal.

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