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A perigosa tentação das teorias da conspiração

Humanos sempre tentam conferir significado a tudo o que lhes ocorre. Acontecimentos que não têm explicação deixam um vazio na cabeça, que prefere preenchê-lo com algo que faça sentido

  • fernandor@gazetadopovo.com.br
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Mal a notícia da morte do relator da Lava Jato no STF, Teori Zavascki, havia sido confirmada e a internet já estava tomada pela “certeza” de que ele havia sido vítima de um atentado. Obviamente, os motivos da queda da aeronave têm de ser investigados. Pode até ser que descubram uma sabotagem. Mas até o momento todos os elementos indicam que houve apenas um acidente. Ainda assim, muita gente prefere acreditar no contrário (frise-se: acreditar, não apenas desconfiar).

É a sedução provocada pelas teorias da conspiração – precursoras dos tempos da pós-verdade em que cada um acredita no que quer. Isso é ruim. Mas tende a aumentar.

Existem várias explicações sobre os motivos que levam as pessoas a acreditar tão facilmente nas teorias da conspiração. Do ponto de vista psicológico, é uma reação a fatos aparentemente sem explicação racional. Humanos sempre tentam conferir significado a tudo o que lhes ocorre. Acontecimentos que não têm explicação deixam um vazio na cabeça, que prefere preenchê-lo com algo que faça sentido.

A visão simplista de mundo também estimula as teorias da conspiração

A morte talvez seja o evento na vida humana que mais careça de explicações de sentido. O caso de Teori é emblemático: logo o relator da Lava Jato? Acreditar que foi uma conspiração é muito mais “explicativo” – preenche mais gavetas vazias do cérebro – que crer no imponderável, um desastre aéreo.

Outra explicação para a aceitação sem grandes questionamentos das teorias da conspiração é o viés de confirmação – a tentativa de usar um acontecimento para reforçar a crença na qual já se acredita. Também é o que ocorre no caso de Teori. Dependendo do gosto ideológico do freguês, o “mandante” da sabotagem do avião varia: ora à esquerda, ora à direita.

A visão simplista de mundo – de que existem a verdade e a mentira absolutas; o certo e o errado definitivos e inquestionáveis – também estimula as teorias da conspiração. Para quem enxerga a realidade em preto e branco, sem nuances, a verdade e a falsidade são evidentes. Por esse raciocínio, se a verdade (na qual a pessoa acredita) não vem à tona rapidamente, há necessariamente alguém que conspira para deixar o mundo na ignorância.

É o que também tende a ocorrer no caso de Teori. A investigação de acidentes aéreos costuma demorar. Mas não vai tardar para surgirem os rumores de que “estão escondendo” as reais causas da queda do avião.

Naturalmente, existem conspirações das mais variadas naturezas – e eventualmente elas são descobertas. Mas o ponto aqui não é este. A questão é a facilidade com que se acredita em algo sem evidências ou fatos minimamente sólidos.

Isso é um problema para a democracia – sobretudo nesses tempos em que a informação e a desinformação se espalham na velocidade de um clique.

Do mesmo modo que se acredita facilmente na sabotagem do avião de Teori sem que haja elementos concretos nesse sentido, pode-se crer em frágeis rumores infundados no meio de uma eleição – o que pode alterar o resultado do pleito com base em suspeitas que nunca se concretizam.

O fenômeno do viés de confirmação comum às teorias de conspiração também se constata nas redes sociais, em que os algoritmos tendem a colocar em contato pessoas com gostos e pensamentos semelhantes. Não haveria problema se uma das bases das democracias não fosse a discussão racional e respeitosa de pontos de vista divergentes. O resultado dessa tendência contemporânea, porém, são bolhas de verdades definitivas quase impenetráveis, em que os fatos pouco importam. Em uma palavra: dogmatismo.

O fato é que a verdade é mais difícil de ser encontrada do que se pensa. E exige trabalho e um pouco de esforço.

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