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Como uma tábua de passar roupa (ou a falta dela) explica o Brasil

Países mais igualitários socialmente têm uma tábua de passar nos quartos de hotéis com frequência bem maior que os mais desiguais

 | Sulaco229/Free Images
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Desde já alerto: não se trata de nada científico. Está mais na linha da percepção individual. Alguns dirão: achismo. Mas, em minha defesa, tenho a dizer: é um achismo baseado em algumas evidências.

Feita a ponderação, vamos lá: o Brasil (ou ao menos um de seus principais defeitos) pode ser explicado pelo que há dentro dos quartos de seus hotéis. Ou melhor, pelo que não há: uma providencial tábua de passar roupa – e um ferro elétrico, obviamente.

Tive a oportunidade de viajar a diversos lugares do Brasil – profissionalmente e a passeio. E a um pequeno punhado de outros países. Nessas andanças, me hospedei em hotéis das mais variadas categorias. E a tábua de passar (ou falta dela) sempre me chamou a atenção.

Quem nunca precisou de uma ao tirar da mala uma camisa que parecia saída da goela do cachorro? É nessa hora que saltam aos olhos as diferenças entre as nações. Fora daqui, é relativamente comum encontrar uma. Bênção dos céus para os arrumadinhos. Em nossas paragens, contudo, é raridade. Fazer o quê? Manda passar no hotel mesmo. E paga. Ou sai daquele jeito, digamos, despojado.

Quem se hospedava tinha algum dinheiro. Portanto, não passava roupa. Mandava passar

Mas não. O defeito do Brasil não é a roupa amarrotada. Antes fosse. Por linhas tortas, há na tábua uma lei: países mais igualitários socialmente têm uma nos quartos de hotéis com frequência bem maior que os mais desiguais.

Nas minhas divagações dentro dos quartos de hotel, concebi duas explicações para a lei da tábua. As duas – uma sociológica e outra econômica – levam à mesma conclusão.

Primeiro, a sociológica. Não é nenhum segredo que o Brasil tem uma forte herança escravocrata. Ser rico (ou ao menos remediado) significou durante muito tempo não pôr a mão na massa, não trabalhar. Para quem estava no andar de cima, sempre havia uma mucama (primeiramente) ou uma empregada doméstica (mais recentemente) para lavar, passar, cozinhar.

Nesse sentido, os hotéis só reproduziram a desigualdade nacional. Quem se hospedava tinha algum dinheiro. Portanto, não passava roupa. Mandava passar. Colocar uma tábua no quarto seria tão inútil quanto tentar vender picolé para esquimós. E, mesmo com as várias mudanças sociais pelas quais o Brasil passou, o padrão da hotelaria nacional se manteve.

Por outro lado, em países menos desiguais, passar roupa é uma atividade que a maioria faz por conta própria. Os hotéis só atendem a essa demanda.

Agora, a explicação econômica. Passar roupa é um serviço cobrado pelos hotéis. Não colocar uma tábua no quarto, portanto, seria um jeito de o estabelecimento hoteleiro ganhar um extra, além da diária.

Mas, mesmo que assim seja, é possível que haja um importante fator de desigualdade social embutido aí. Nos países mais igualitários, a diferença salarial entre quem exerce trabalhos braçais não é tão grande em relação ao serviço intelectual. A mão de obra é cara. E, talvez, não seria economicamente viável para o hotel manter um funcionário à disposição dos hóspedes para passar suas roupas. Custaria muito. E ninguém iria pagar. Melhor colocar uma tábua no quarto e que cada um se vire.

No Brasil, porém, a mão de obra braçal é relativamente barata – fruto da brutal desigualdade de salário que grassa por aqui. E cobrar pelo serviço compensa para o hotel. Tem quem pague.

Seja como for, por motivos sociológicos ou econômicos, a constatação é a mesma: não costumamos ter uma tábua de passar salvadora nos quartos de hotéis porque somos desiguais.

Seria melhor, muito melhor, que as tivéssemos. Melhor para o país. Ou simplesmente para sairmos às ruas, durante nossas viagens, mais ajeitados.

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