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Fernando Martins

Manual filosófico do eleitor, parte 1

A filosofia por vezes parece distante do cotidiano. Mas ela fornece ferramentas úteis para descobrir falácias – raciocínios que, a despeito de parecerem verdadeiros, são equivocados. Numa campanha eleitoral como a que está começando, os argumentos falaciosos se multiplicam na boca de candidatos e de seus apoiadores. No livro Filosofia (Editora Zahar), o britânico Stephen Law elenca uma série de falácias clássicas. Algumas parecem cair como uma luva no discurso dos políticos brasileiros. Conhecê-las ajuda o cidadão a ter espírito crítico.

Falácia genética: pressupõe que a origem de alguém ou de algo determina se essa pessoa, ideia ou proposta é boa ou ruim – o que não é necessariamente verdade. Mas, durante a campanha, candidatos vão explorar o fato de serem filhos ou afilhados políticos de personalidades com reputação reconhecida, como se isso lhes garantisse um “atestado de qualidade”. Adversários eventualmente vão tentar desqualificar a família de seus oponentes para atingi-los. A mesma falácia pode ocorrer com as promessas eleitorais. Especialistas renomados vão ser apresentados como “pais” de projetos para solucionar os problemas da cidade. É preciso cuidado nesta hora: pessoas ou ideias têm atributos individuais (bons ou ruins) que independem de onde vieram. O segredo está em reconhecê-los.

O falso dilema: com o acirramento da disputa eleitoral, serão comuns os boatos, espalhados intencionalmente, para colocar o eleitor diante de dilemas que não existem. O mais corriqueiro nas campanhas é insinuar que, se determinado candidato vencer, a cidade não vai conseguir fechar parcerias com instâncias governamentais administradas por partidos adversários. Outro rumor que costuma circular é que os bons programas irão acabar se houver mudança na gestão. A prática demonstra, com algumas exceções, que não é isso que ocorre. O eleitor, ao se sentir forçado a escolher entre duas opções, tem de verificar se elas realmente são as únicas alternativas possíveis.

Falácia relativista: “Isso pode ser falso para você, mas é verdade para mim.” Quando alguém está perdendo uma discussão, esse é um comentário comum. Mas pode estar fundamentado numa falácia. Existem realidades que de fato são relativas. Ou seja, dependem de pessoa para pessoa. O frio para um carioca é um clima agradável a um curitibano. Ambos estão certos. Mas nem tudo é relativo. Dizer que alguém pode pular de um prédio e sair voando não é verdade, mesmo que alguém acredite nisso. Confundir crença com fatos e recorrer ao relativismo para justificá-la é um equívoco corriqueiro nas eleições, quando o debate político fica mais apaixonado.

Na próxima semana, mais falácias eleitorais.

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