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José Carlos Fernandes

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José Carlos Fernandes

Candinho e o melhor dos mundos

Em 1944, o interventor Manoel Ribas viu um rapazote se alistando para a Campanha da Itália. Tsc, tsc. Disse-lhe que não fosse. Que aqui era melhor. O moço acatou e fez o que pôde

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Cândido Batista de Souza tem “92 anos, 24 dias e 12 horas”. Sua mulher, a plácida Izabel Arrebola, é 10 anos, 1 mês e 25 dias mais nova do que ele. Candinho, como o chamam, é assim – dado a detalhes. Dita a escalação de um time de futebol de 1900 e outrora como se os craques jogassem pelada no seu quintal. Ao falar de Getúlio, deixa a im­­pressão de que o Estado Novo começou semana passada. Cho­­ra a morte de Francisco Alves, ainda ontem, em 1952. Tem lá seus caprichos: antes de dormir, repete uma infinidade de sobrenomes portugueses inspirados na flora. Seus cordeirinhos da insônia são Carvalhos, Grisólias e Pereiras. “Tenho mania de exercitar a mente”, avisa a versão local de “o homem que calculava”, célebre personagem de Malba Tahan.

O único exercício no qual Candinho se embanana todo é o do número de empregos que teve na vida. Chuta baixo: “Se­­riam 40?” Sabe que o primeiro registro em carteira veio em 15 de agosto de 1937, em Cornélio Procópio, quando Paulo Mourão, o dono do armazém, o convocou para o batente. E que hoje, 73 anos depois, faz frila como autor de um livro “sobre tudo”, escrito ao pé de sua janela, de frente pa­­ra o Hospital Evangélico. A obra, batizada de Contrastes e opostos, faz analogias entre o preço da batatinha e o salário do Schu­­ma­­cher. Voltaire puro. Quero ler.

Nas três horas, 23 minutos e 15 segundos de conversa com o veterano tentei contabilizar por quantas firmas ele passou, desde os tempos de Ubá, nos rincões de Santo Antônio da Platina. Fal­­taram-me ticos e tecos na cabeça. Foi cozinheiro de tropa, vendedor de cigarros, locutor da emissora ZYR5 do Norte Pio­­nei­­ro, mas­­cate, vereador... Lembra os ossos do ofício, uma boa piada e aqueles com quem dividia a carga. Com Mário D’Amberti fez serviço de alto-falante. Na Rádio Sociedade ficou amigo de Rei­­naldo Sheibe. Com Dias Gui­­ma­­rães camelou na rodoviária de Cornélio. “Uma vez, em 1958, o Reinaldo Carazzai me telefonou...”

O Candinho é assim – um sujeito em download constante. Se eu ficasse mais uma hora na escuta, sua folha corrida renderia o maior passivo trabalhista do Ocidente. Mas a essa altura, já sabia do essencial – o que levou nosso doce anarquista a trocar tanto de fardo, de chefe, de cidade: “Eu queria ganhar dinheiro, ué”. Hã?

A filha Etel Frota – poeta, compositora e ativista cultural – também tem suas dúvidas sobre esses instintos capitalistas. Compara o pai àqueles caras dos programas de auditório que trocam um maço de dólares por um feixe de feno. Ou seja, seus préstimos duravam o tempo do encanto. Num emprego, ficou 11 dias – “o patrão era integralista e muito chato”. Noutro, 20 anos, mas saiu sem pensar na aposentadoria que já batia na porta. Izabel balança a cabeça. Me vejo diante de Campos Lara e Maria Rosa de O Feijão e o Sonho, de Orígenes Lessa.

Um dia, caiu-lhe a ficha. Ti­­nha mais de 60 anos, tornara-se o popularíssimo Candinho, mas contava uns tostões furados e um histórico escolar de dar pena. Como ainda queria dar certo, voltou a estudar. Fez madureza, supletivo, curso por correspondência. Passou no vestibular de Direito da Univer­­si­­dade Estadual de Londrina. Mas como seu certificado de ensino mé­­dio não ficara pronto, perdeu a vaga. Tentou de novo. Passou de novo.

O canudo veio aos 70 anos – o fato virou reportagem do Fan­­tás­­tico, o formando ganhou placa de bronze dos colegas. O ho­­mem que lia a Barsa, que tinha um fraco por curiosidades e que não parava no serviço encontrara enfim a sua turma – para a qual, claro, fez muito trabalho de graça.

Como certa vez lhe disse um conhecido: “O Candinho não é especializado em nada. Mas sabe tudo”. Inclusive a trocar dinheiro por um feixe de feno. Ele vive no melhor dos mundos.

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