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José Carlos Fernandes

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José Carlos Fernandes

O autoexílio de Gustavo Fruet

Depois da ressaca eleitoral de 2016, ex-prefeito se desintoxica com a leitura de livros, bons filmes. Paralelo, faz balanço sem rodeios de sua gestão

  • jcfernandes@gazetadopovo.com.br
 | Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima
Foto: Henry Milleo/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima
 
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O ex-prefeito de Curitiba Gustavo Fruet, 54 anos, costuma se divertir com um ato falho repetido por quem está a sua volta. Nem uma nem duas vezes, a se referirem a ele, há quem o chame pelo nome de seu pai, Maurício Fruet – advogado, jornalista e popularíssimo prefeito da capital em outras eras geológicas. Bochechas ficam rosadas de vergonha. Menos a dele. “Fico feliz. Recebo o engano como um elogio”, afirma, na contramão do que dizem as más línguas: Gustavo seria incapaz de imprimir estilo, daí a sombra paterna. “Foi a crítica que mais doeu. Deve ter vindo do Luiz Geraldo Mazza”, ironiza.

A confusão com o nome do pai e do filho confirma que Maurício não foi esquecido, mas não é indicativa de que Gustavo é um homem invisível. O tempo dirá. No mais, ele próprio se encarrega de manter a memória do pai em alta. No último andar do edifício de sua família, o Colombo, na Praça Rui Barbosa, montou um museu em homenagem ao patriarca. É pequeno, doméstico, porém caprichado. “Meu puxadinho”, brinca. Gavetas e mais gavetas guardam não só documentos sobre o legado político de Maurício, morto em 1998, como apetrechos símbolos da época em que fez a sisuda Curitiba cair de amores por ele.

É possível, por exemplo, encontrar exemplares de camisetas da campanha Diretas Já, nas quais está escrita a frase que marcou uma geração: “Eu quero votar pra presidente”. Como a que havia lá em casa cumpriu o destino das camisetas – virou pijama, depois pano para limpeza das janelas, até acabar enleada no rodo – dá para imaginar a trabalheira que deu encontrar esses e outros objetos. Está ali até a camiseta com os dizeres: “Eleição indireta, grandes merdas”, atribuída ao padre libertário Paulo Botas. “Dei uma dessas de presente para o Teotônio Vilela Filho.”

Fruet filho desconversa sobre seus méritos na coleção. Antes, agradece aos amigos e admiradores confessos de Maurício, que lhe deram uma ajudinha para tirar do limbo cada chaveirinho, botton e flâmula. Está ali uma cadeira confeccionada por Salomão Guelmann, antes mesmo de se tornar o magnata da indústria de móveis. Nela Maurício sentava. A sala de trabalho está lá, remontada tal e qual, mas sem cerimônia: quem quiser girar no assento pode.

É comum encontrá-lo em lançamento de livros ou cruzando um shopping qualquer. Sempre a postos para um papo

Em se tratando de documentos de família, outro parque de diversões. No momento em que abre os muitos álbuns de fotografias, Gustavo se revela, digamos, um guri curitibano típico, desses que repetem sem disfarces “o pai”, “a mãe”, “o vô”. Só falta falar dolé, raia e dizer que as vizinhas são dadas a putiar. Em nada pode ser apontado como um rapaz tímido, à sombra do pai amado, salve-salve. Tira da cartola crônicas hilárias sobre os Bonato, um dos ramos de sua família, “mais centrados” que os incendiários Fruet, pontificados por Maurício, mas com concorrentes em todas as gerações. Fala com vagar do avô eleito prefeito em Santo Antônio da Platina, em 1947. Das fichas do pai no Dops, durante o regime militar. Da coleção de caricaturas que os jornais dedicaram ao velho Fruet. Culmina com o tio Afonso, que tinha uma loja de discos na XV. Guarda bolachões, com selo do comércio, para ilustrar. Por instantes, ao ouvi-lo, assim, tão paroquiano, dá para esquecer que é um homem cosmopolita, com longo estágio nos corredores perigosos de Brasília. Em vez de um político escorregadio, revela-se um nativo às voltas com micro-histórias de imigração.

O Fruet versão nostalgia está ótimo. Pedala. Caminha. Vê filmes a granel. Dorme seis horas por noite. Observa. E pensar que esteve à beira de um ataque de nervos. Bastava dar uma chuva, uma confusão nas UPAs, e pronto. “Tento me desintoxicar.” Os motivos da pane que o fez até botar gente para fora do gabinete são públicos e notórios. Bastava-lhe ouvir a palavra “transporte” para que se visse sujeito às mais lancinantes urticárias, dessas que só curam se coçadas com cacos de telha. Melhor se curar rindo das anedotas em torno do “carneiro afrodisíaco”, receita de Fruet pai, feito com 12 maracujás e “especiarias do Vêneto”, à venda nas barraquinhas do Mercado Municipal. “Um segredo de família”, defendeu-se, ao ser questionado por italianos sobre as tais ervas. O importante é que o carneiro não só funciona como já salvou o caixa de instituições beneficentes, incluindo as religiosas, que servem o prato sem cerimônia, assim que a despensa vai à falência.

“Adoraria ser prefeito de novo, mas com mais dinheiro e sem Facebook. Ainda bem que minha mãe não tem acesso às redes sociais”, brinca, a cada vez que lhe cai no colo uma pergunta sobre as agruras de sua administração, terminada em dezembro passado, com Gustavo quase beijando a lona. A derrota na eleição municipal, ainda no primeiro turno, o tirou dos trilhos. O enfrentamento dos problemas do trânsito – com a implantação da Via Calma –, o impulso à bicicleta e projetos inventivos e baratos, como o equidade na educação, para citar alguns, parecem não ter chegado aos ouvidos da cidade. Vingou, em vez disso, o tal do bougisme, a insana ilusão de que era possível voltar ao passado, como se não houvesse um milhão a mais de carros nas ruas e uma dezena de homicídios a cada fim de semana. Pois é.

O massacre destinado a Gustavo Fruet, ou “Maurício”, como muitos distraídos insistem em chamá-lo, seria o bastante para que qualquer mortal se mandasse para Quixeramobim. Ou que no mínimo não botasse tão cedo o nariz na porta. No começo, as investidas do prefeito eleito (“ele encarnou em mim”) e a ressaca do fim de mandato bem que ajudaram a reforçar as fechaduras da casa. “Vi filmes. Adorei Chocolat. E Frida”, diz, em meio à lista de longas atrasados. De outras feitas, esbaldou-se em biografias. Ou em livros cabeça, como A grande degeneração, de Niall Ferguson, adjutório para entender o ponto em que estamos. Até se dar conta de que não tinha por que se esconder. Seu crime? Era o homem certo na época errada.

De uns dois meses para cá, anda à solta pelas ruas. É comum encontrá-lo em lançamento de livros ou cruzando um shopping qualquer. Sempre a postos para um papo. Está cada vez mais, digamos, Maurício. Seus trajes são os de um parlamentar em férias – ou com maus bofes junto ao guarda-roupa. “Sou esculhambado”, resume. Usa sapatênis, calça jeans, acompanhado de camisas sociais de mangas compridas, em tons de azul clerical, retiradas de algum terno. O cabelo rareado, para trás. Tem o celular à mão e, meio sem norte, faz o tipo que pode pisar nos pés de alguém, a quem não tardará em pedir desculpa como o mais polido dentre os bem nascidos. A vítima, se quiser, vai encontrar com quem conversar.

O cardápio de assuntos é coisa fina. Fruet prepara um dossiê com acertos e erros, resultado de seu esforço em entender a vida pública em tempos raivosos. “Listei 48 itens. Fui prefeito num momento de negação da política”, repete. O menino dos Fruet não ganhou bolinho nem refresco nem abraços das senhorinhas do Rancho das Flores. Desejava planejar Curitiba para daqui a 30 anos, sua especialidade, mas os dias eram consumidos por uma agenda de crises infernais. Quase endureceu, mas por sorte ainda resta um pouquinho de ternura em CWB.

Em nome do pai

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