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Rodrigo Wolff Apolloni

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De romanos e chineses

Tanto os romanos quanto os chineses sabiam perfeitamente da existência de um poderoso “império do lado de lá”

 | World Imaging/Wikimedia Commons
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Em minhas andanças de sonho pela história, sempre fiquei curioso quanto às relações entre dois dos maiores impérios da história, o romano e o chinês. Fato é que, em determinado momento – 300 anos ao redor do século 1.º da Era Comum, no equivalente à “Paz Romana” ou, então, à ascensão da Dinastia Han –, ambos os impérios espalhavam tentáculos por boa parte do mundo. Minha questão, enfim, sempre foi saber se, em algum momento, dois povos tão autocentrados foram bafejados pela existência de sua potencial nêmese.

Graças a Alexandre, os gregos conheciam os territórios e culturas da Índia, como podemos comprovar ao ver as estátuas helenizadas de Buda da tradição Gandhara, no Afeganistão. Ou, então, o busto do “centurião budista”, em armas e com o corte de cabelos característico dos adeptos da religião, exposto no Museo Nazionale Romano.

Roma gastava fortunas com seda chinesa nos melhores dias do império

Para além disso, porém, para o entusiasta não especialista parecia haver pouca informação, pelo menos até a leitura recente de Roma e o Oriente Distante, livro escrito pelo historiador irlandês Raoul McLaughlin. Foi nele que descobri, por exemplo, que tanto os romanos quanto os chineses sabiam perfeitamente da existência de um poderoso “império do lado de lá”, cuja grandeza era revelada quase sempre por detalhes ou, então, por contatos quase insólitos de tão esporádicos como o travado entre o imperador Sun Quan (182-252) e um certo “Lun”, mercador romano, no ano de 226. Esse encontro foi eternizado no Liang-shu, registro burocrático que também identifica Roma como “Da Qin” ou “Grande China” – nada mais, nada menos do que “a China do outro lado”, o império-espelho daquele cujas elites julgavam o verdadeiro centro do mundo.

Os contatos só não foram mais prolíficos para além do campo econômico – Roma gastava fortunas com seda chinesa nos melhores dias do império – por causa das dificuldades geográficas e geopolíticas. Aparentemente, os chineses amavam vender seus produtos e faziam disso uma arma, mas não manifestavam intenções expedicionárias. Já os romanos, que gostavam de aventura, enfrentavam duas barreiras formidáveis: a primeira, a rota marítimo-terrestre entre o Egito e a China, sempre excruciante; a segunda, representada pelo império parta, que, situado entre as áreas de influência dos dois impérios (no atual Irã), impediu a expansão militar romana para o leste.

Desse encontro (ou desse “não encontro”, se você preferir) nasceu um imaginário oriental que só viria a ser confrontado 12 séculos depois, com a chegada dos jesuítas à corte Ming, no século 16. E o resto, para ter uma frase de fechamento desta breve crônica (poderia escrever um livro sobre o assunto), é a própria história.

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