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Denúncia

Corpo em decomposição põe IML sob suspeita

Familiar relata que cadáver foi entregue em mau estado; funcionários de funerária e do órgão dizem que falhas nas geladeiras são frequentes

  • Vinicius Boreki
Tarcisio Reis da Silva diz que o corpo de seu primo estava conservado quando o reconhecimento foi feito, mas que chegou em decomposição ao velório |
Tarcisio Reis da Silva diz que o corpo de seu primo estava conservado quando o reconhecimento foi feito, mas que chegou em decomposição ao velório
 
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Em seu velório na Bahia, o corpo de José Gilberto Alves Reis, de 33 anos, estava com a barba por fazer. A aparência não se deve à escolha da família ou à preguiça dos funcionários da funerária, mas ao estado do cadáver quando retirado do Instituto Médico-Legal (IML) de Curitiba (o corpo foi transferido após esses procedimentos). Seu primo, o empresário Tarcisio Reis da Silva, de 24 anos, assustou-se ao encontrá-lo em decomposição, no último dia 6. Na foto apresentada para o re­­conhecimento, Silva disse que o corpo de seu parente estava perfeito: “Até parecia vivo”. Ao vê-lo, no entanto, foi impossível não reparar em suas condições atípicas: o tom de pele escurecido e o odor de carne em fase de apodrecimento.

“Achei estranho o corpo estar naquele estado, mas sou leigo. Foi quando o funcionário da funerária afirmou que estava em decomposição”, relata. Conforme Silva, o funcionário apresentou duas suposições para a situação: o corpo teria ficado fora da geladeira que abriga os cadáveres no IML ou o equipamento estaria avariado. Membro da diretoria da instituição, Antônio Caccia admite que houve problema em um dos equipamentos no início do ano. “A câmara fria estava em degelo e não sabíamos. Percebemos o problema no dia 5 e foi imediatamente solucionado. Só que o corpo desse rapaz realmente estava nesse local”, afirma.

Oficialmente, o IML nega a ocorrência de casos semelhantes. A reclamação de Silva, se­­gundo Caccia, foi a única a chegar. “Não houve queixa formal e informal de qualquer outra pessoa”, diz. Presidente do Sindicato do Serviço Funerário do Estado do Paraná, Gelcio Miguel Schi­bel­­bein adota a mesma postura do diretor do órgão: desconhece qualquer tipo de problema parecido. Segundo Schibelbein, as funerárias consultaram seus funcionários e não ouviram re­­clamações nesse sentido. Nos bastidores, contudo, conversas com colaboradores de funerárias e do próprio IML apresentam outra versão sobre o fato.

Funcionário de uma das funerárias da capital, Afonso (nome fictício) afirma que falhas nas geladeiras e câmaras frias são frequentes. Quando um cadáver é encontrado em decomposição, o órgão avisa a funerária e as famílias podem escolher uma urna vedada, impedindo a saída do cheiro. Nos casos em que não existe o alerta, as empresas levam caixões simples, e o odor atrapalha o transporte e os velórios. “Os putrefeitos vão direto para os cemitérios. Muitas vezes, a pessoa chega para recolher um cadáver normal, e acaba encontrando o corpo em estado de decomposição”, aponta Afonso. O problema não é diário, mas seria mais comum do que argumenta o órgão.

A questão se acentua no verão, quando as temperaturas sobem, acelerando o processo de decomposição. Um dos oficiais atuantes no IML confirma a informação. “Os corpos chegam a ser entulhados em uma câmara fria por falta de geladeiras. Há número de equipamentos suficiente, o problema é a manutenção”, avalia Geraldo (nome fictício). Segundo ele, em muitos casos, os cadáveres permanecem nos corredores do instituto, com o forte cheiro impregnando o ambiente. “Em um plantão, eu encontrei um jeito para guardar três ou quatro corpos na câmara fria porque estavam expostos”, diz o funcionário.

O próprio livro de ocorrências do IML mostra a necessidade de reparos estruturais, como nos exaustores (equipamentos responsáveis pela troca de ar do ambiente). “Solicito que seja realizada a manutenção nos exaustores da sala de necropsia e da sala de putrefeitos”, diz uma das reclamações, datada de 22 de novembro do ano passado. De acordo com Caccia, os consertos ocorrem assim que o problema é relatado ou percebido. “Não há mais nada dessa queixa do dia 22. Quando a gente nota algo de errado, o problema é resolvido em seguida”, garante.

Caccia lembra que todos os órgãos estão sujeitos a situações que podem causar dificuldades no dia a dia. “Às vezes acontece de cair a luz, várias possibilidades que ocorrem diariamente e que podem se transformar em uma grande dificuldade”, argumenta. Apesar de garantir que as manutenções são feitas com regularidade, o diretor admite a existência de falhas estruturais. “O prédio atual foi projetado em 1974, para uma população. O índice habitacional se multiplicou por dez nesse período, e o tamanho do IML continua o mesmo”, diz.

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