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Poluição

Efeito de vazamento vai além-mar

O derramamento de produtos químicos nos oceanos tem consequências nas atividades econômicas e na qualidade do ar que respiramos e dos alimentos que chegam à nossa mesa

Texto publicado na edição impressa de 07 de dezembro de 2011

A produção de petróleo no mar brasileiro duplicou nos últimos dez anos e deve dobrar mais uma vez na próxima década, expondo cada vez mais a costa nacional à possibilidade de desastres ambientais – como o recente vazamento de óleo provocado pela empresa norte-americana Chevron no litoral norte do Rio de Janeiro. Mesmo que ocorra a centenas de quilômetros do território paranaense, o derramamento de produtos químicos em alto-mar tem con­sequên­cias não só no equilíbrio ecológico, mas para atividades econômicas e na qualidade do ar que respiramos e dos alimentos que chegam à nossa mesa.

"Não se trata só de proteger a baleia, o coral e o peixinho. Algumas atividades, como a pesca e o turismo, podem ser afetadas também. E vivemos numa cadeia, em que um animal come o outro. Pode chegar até nós um peixe contaminado", explica a bióloga Leandra Gonçalves, da ONG Greenpeace. Quando vaza no mar, o petróleo mata instantaneamente algumas espécies no local do derramamento e à medida que vai se espalhando prejudica a qualidade da água e causa a morte lenta de animais e plantas. A toxicidade do petróleo e a diminuição do oxigênio na água causam graves danos ao ambiente marinho.

"Quando vemos a mancha no mar e encontramos aves que não podem mais voar ou peixes que não podem respirar, porque as brânquias foram cobertas, conseguimos enxergar o problema. Mas nem sempre a morte é imediata. Durante muito tempo esses produtos vão continuar contaminando os elementos marinhos. O óleo pode afetar os sistemas reprodutivo e imunológico, e o animal morre sem que a causa direta seja associada à poluição", afirma a bióloga Camila Domit, coordenadora do laboratório de mamíferos e tartarugas-marinhas do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

David Zee, que é oceanógrafo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), lembra que dos oceanos são tirados alimentos, que mais de 90% dos produtos que o Brasil exporta são transportados pelo mar e que metade da renovação do ar depende de microrganismos marinhos que promovem a fotossíntese. São os plânctons que primeiro padecem em caso de vazamento de petróleo. Ele destaca também que, em casos anteriores de derramamento, o óleo chegou à costa. "O Rio de Janeiro e o Espírito Santo têm forte vocação do turismo de paisagem. Como ficariam se fossem afetados?", questiona. No caso do vazamento da Chevron, o óleo está se afastando cada vez mais da costa, levado por correntes para as direções leste e sul.

Persiste a ideia equivocada de que o oceano tem uma capacidade ilimitada de diluição, enfatiza o professor César de Castro Martins, que coordena o laboratório de estudos de poluição marinha no Centro de Estudos do Mar da UFPR. Ele destaca que o derramamento de petróleo causa um problema agudo, mas pontual, enquanto o mar está sofrendo muito mais com o problema crônico do óleo existente no esgoto despejado frequentemente.

Brasil não está preparado para desastres

A falta de uma política severa de prevenção de acidentes e também de um plano de contingência – para acelerar as ações em caso de problemas – torna o Brasil mais vulnerável às consequências do derramamento de produtos químicos em alto-mar. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) não tem equipamentos e investe pouco para monitorar as atividades das 23 empresas que exploram petróleo no mar brasileiro.

A produção, que era de 394 milhões de barris por ano em 2001, fechou 2010 em 683 milhões. Dos R$ 8 milhões previstos no orçamento da ANP para fiscalizar as atividades de exploração e produção de petróleo em 2011, R$ 5 milhões foram gastos. Na média, o valor é de R$ 9 mil por poço de exploração. Já o Ministério do Meio Ambiente separou R$ 633 mil para prevenção e combate a danos ambientais causados pela indústria do petróleo, mas não gastou nada neste ano. Há previsão em lei de desenvolvimento de um Plano Nacional de Contingência, que começou a ser discutido em 2000, quando houve o derramamento de óleo na Baía de Guanabara, mas desde então foi abandonado.

David Zee, oceanógrafo que atua como perito da Polícia Federal no inquérito sobre o vazamento da Chevron, afirma que não há fiscalização adequada, rigor no licenciamento ambiental e um plano de ação em caso de derramamento. "É como dizer que há um Corpo de Bombeiros e na hora do incêndio não ter viaturas, pessoal treinado ou mangueira para jogar água", exemplifica. Hoje o oceanógrafo vai ao Senado para contar o que encontrou na área do vazamento.

Para Leandra Gonçalves, bióloga da ONG Greenpeace, a ação do Brasil no caso da Chevron prova que o país não está preparado para operar em águas profundas. "Os brasileiros podem perder muito mais do que ganhar com a exploração. Governos e empresas estão iludidos com esse bilhete premiado, como o pré-sal está sendo chamado, que estão esquecendo de compatibilizar os desafios ambientais", diz. Procurados por dez dias, a ANP, o Ibama e a Petrobras optaram por não conceder entrevistas sobre os procedimentos preventivos de desastres ambientais e os possíveis impactos de derramamento de óleo em alto-mar.

Efeitos se prolongam por décadas

O vazamento de petróleo em alto-mar causa vários tipos de impacto ambiental. Se a mancha de óleo se afasta da costa, o problema não some simplesmente porque está longe dos olhos. O oceanógrafo David Zee explica que cerca de 20% a 30% evapora, emitindo gases que geram o efeito estufa. Outra fração é solúvel em água e é a mais perigosa, porque contamina os organismos. Há também uma porção que é digerida por bactérias. O óleo que boia na superfície e não é recolhido (ou se decompõe) acaba misturando-se a outros elementos, como areia, e se transforma em pelotas mais densas do que a água, com a consequente precipitação no fundo do oceano e a poluição prolongada do ambiente.

No caso do vazamento da Chevron, cerca de dois mil barris de petróleo se dispersaram e a demora em agir fez com que a mancha se espalhasse demais, dificultando tentativas de recolhimento. Pelotas já se formaram. Para se ter uma ideia da extensão dos danos, duas décadas após o acidente com o navio Exxon Valdez, no Alasca, ainda existem resquícios do desastre ambiental, de acordo com estudos publicados nas revistas Nature e Science.

A bióloga Camila Domit, que na semana que vem embarca em um navio de pesquisa para analisar o impacto biológico na área em que o vazamento ocorreu, afirma que a indiferença das pessoas acaba alimentando a inércia dos órgãos ambientais. Zee também concorda, destacando que lapsos de tempo e distância contribuem para a ideia de que não foi algo relevante o que aconteceu.

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