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Infância e adolescência

Eles foram meninos de rua

Peterson, Adílson, Rodolfo. Ex-moradores de projeto social falam do abrigo que se tornou farol para outras iniciativas do gênero

  • José Carlos Fernandes
Fernando de Góis carregado por egressos da Chácara de Meninos de 4 Pinheiros: a melhor parte do passado |
Fernando de Góis carregado por egressos da Chácara de Meninos de 4 Pinheiros: a melhor parte do passado
 
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Eles foram meninos de rua

Em 1986, o encontro casual entre um morador de rua e uma pesquisadora – na rampa do Edifício Dom Pedro II da UFPR – deu origem a uma das mais importantes iniciativas da América Latina em prol da infância e da adolescência. O mendigo era o ex-frade carmelita Fernando de Gois. A pesquisadora, Araci Asinelli da Luz, ligada ao Setor de Educação da universidade. A iniciativa é a Chácara dos Meninos de 4 Pinheiros, reconhecida pela Unesco, pelo Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, por tantos outros ativistas dos direitos humanos e por qualquer cidadão que ponha os pés no sítio de Mandirituba, na Região Metropolitana de Curitiba, onde o projeto se desenvolveu.

“De repente, apareceu aquele sujeito na minha frente, perguntando por algum professor que soubesse falar sobre Paulo Freire, Freinet e Makarenko. Esta pessoa era eu”, diverte-se Araci, satisfeita, tantos anos depois, por não ter tomado o desconhecido por um doido varrido que errara de porta. Recém-desligado do claustro, Fernando adotara as calçadas e as favelas como endereço, obediente à opção radical pelos pobres, pregada, então, sem meios tons pela Teologia da Libertação. Na ocasião em que trombou com Araci, programava um curso de educadores de rua e precisava da ajuda de estudiosos. Sim, ele já usava a sandália de borracha que lhe rendeu o apelido de “monge pé-de-chinelo”, mas esta é outra história.

“Depois daquele dia ganhei muitos olhos e corações”, emociona-se Araci, ao lembrar-se das divisas a que aquele encontro na rampa a levou. Passado o tal curso com o povo da rua, veio a descoberta do trabalho que Fernando fazia, na Comunidade Profeta Elias, da Vila Lindoia, com crianças e jovens pobres. Muitos deles viviam a todo vapor não o fim da “era disco”, mas a “era Pixote” – aquela em que o Brasil se deparou com chacinas feito a da Candelária. Foram os próprios meninos, aliás, que disseram no ouvido de Fernando que a salvação deles seria morar numa chácara, perto da natureza, dos bichos, em liberdade.

Para um sujeito que deixara o convento para varrer ruas e cortar cana, conseguir dinheiro para comprar terras soava como humor negro. Em 1993, uma doação da empresária Rosy Pinheiro Lima garantiu os alqueires que De Gois precisava. Foi quando tudo começou, levando Araci a tiracolo, depois sua colega de departamento Eliane Précoma, mais a pedagoga Marlene Daros. A lista da grande família que passou a formar a Chácara dos Meninos de 4 Pinheiros se multiplicou. Duas décadas depois, conta também com a turma dos egressos – os primeiros moradores, hoje adultos, que visitam a casa que os salvou da rua com a mesma naturalidade com que fariam à casa dos seus pais, experiência que muitos deles não sabem como é. O retorno à chácara – a exemplo do encontro ocorrido mês passado com ex-moradores, ex-meninos, ex-adolescentes vitimizados – é visto como um refrigério por Fernando. “Os que estão melhores na vida podem servir de esperança para os que ainda não estão”, resume, com a simplicidade habitual.

A presença desses jovens – não raro de braço dado com suas mulheres ou correndo atrás dos filhos, em meio aos 80 meninos que ali moram – é uma espécie de reconhecimento em cartório da chamada “pedagogia dos sonhos”. A expressão, misto do Freire, Freinet e Makarenko que Fernando procurava na universidade, é sua contribuição à causa. Nasceu da experiência e da persistência de seus muitos entusiastas. Ainda não está formalizada em pesquisas ou estudos acadêmicos. Mas já existe de fato. Basta conversar com os “ex”. São alvoroçados. Querem contar a quem se aproxima o melhor capítulo do que um dia viveram.

Relatos ajudam a entender drama das ruas

“Olhe, a gente ainda tinha cabelo”, grita um dos ex-meninos da Chácara de 4 Pinheiros, ao assistir a um filme caseiro, feito na época em que ali morava. Risadas no salão, seguidas de lágrimas. Para alguns dos egressos do projeto, a vida correu sobre trilhos. É o caso de Jonathan Gomes da Silva, cujo convite de formatura em um curso superior permanece colado à parede da instituição, qual um troféu. Outros, perderam-se depois dos 18 anos e seguiram seu caminho. Trazem histórias de drogadição, morte, dificuldades crônicas de reconciliação com a família. “Confesso. Muitas vezes me sinto injustiçado. Pergunto-me por que eu tão novo tive de sofrer tanto. Meu irmão veio comigo. Hoje ele não está mais entre nós”, diz Peterson do Amaral, 29.

“Estudar, respeitar normas, enfrentar o preconceito. A gente é julgado o tempo todo. Não sei como consegui”, comenta o assistente social Adílson Pereira de Souza, 34. Ele é das primeiras turmas da chácara, onde desembarcou após uma década nas ruas. Hoje casado, e à frente de uma ONG na Vila das Torres, é apontado não só como um caso de inserção social. Adílson devolve o que recebeu e entende como poucos a saga dos meninos. “Eu tinha vergonha de pedir ajuda na escola. Imagine o quanto isso me afetou”, comenta.

O nível de escolaridade dos ex-meninos não é dos maiores. Se o assunto é a vitória sobre a pobreza, o abuso, a drogadição e a exclusão escolar, os dedos são apontados para Rodolfo Monteiro de Sousa, 21 – sete anos de chácara. Seu primeiro sonho era ter uma família. Nunca foi adotado. O segundo, ser aviador. “Acho que era minha vontade de voar. Cheguei a fugir daqui de bicicleta”, diverte-se. O terceiro, nem é preciso dizer: Rodolfo cursa o quarto ano de Direito e atua como voluntário na obra criada por Fernando de Gois.

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