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Entrevista

Escrever sem regras e pelo prazer

Edvaldo Pereira Lima, jornalista, professor e escritor

“Quando escrevemos, procuramos nosso arsenal de impressões e experiências, e uma forma de alimentar é abrir os sentidos para a captação de estímulos do ambiente, como uma boa música ou um bom filme.” |
“Quando escrevemos, procuramos nosso arsenal de impressões e experiências, e uma forma de alimentar é abrir os sentidos para a captação de estímulos do ambiente, como uma boa música ou um bom filme.”
 
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Pegue uma folha de papel branco e esqueça de todas as convenções e regras. Comece a escrever, o mais rápido possível, sobre qualquer coisa que vier à sua imaginação. Não importa o que: nuvem vira castelo de princesa, cachorros podem falar e cidades imaginárias são criadas. Liberar a criatividade e recuperar o prazer de escrever, independentemente da profissão, é o que ensina o jornalista, professor e escritor Edvaldo Pereira Lima, que ministra o curso “Escrita Total – Turbinando o Prazer de Escrever”.

Doutor em Ciências da Comu­­nicação pela Universidade de São Paulo (USP), professor aposentado da mesma universidade e Pós-Doutor em Educação pela Univer­­sidade de Toronto, Lima publicou diversos livros como Escrita Total e Páginas Ampliadas: O Livro-Repor­­tagem como Extensão do Jornalismo e da Literatura. O método Escrita Total, desenvolvido por Lima, tem natureza intuitiva e se baseia em teorias como a dos Hemisférios Cerebrais, de Roger Sperry, no Jornalismo Literário, na Psicologia Junguiana, nos conceitos mitológicos de Josehp Campbell e em leituras contemporâneas sobre criatividade.

Discípulo de Gay Talese, um dos maiores expoentes do jornalismo literário, e fã do ganhador do Nobel de Literatura deste ano, Mario Vargas Llosa, o professor ensina a principal regra para escrever melhor: esquecer o senso crítico por alguns instantes. “Escreva pelo prazer de escrever e não se preocupe com quem vai ler. Brinque de colocar no papel as suas ideias, sem medo do ridículo.”

Confira trechos da entrevista que Edvaldo Pereira Lima concedeu à Gazeta do Povo, em passagem por Curitiba:

Qual é a principal trava que impede que as pessoas consigam escrever um texto criativo?

A trava principal chama-se senso crítico. Introjetamos um julgamento pessoal rígido desde a escola que começa a incorporar muitas normas e exigências externas para nos direcionar. Na medida em que nos tornamos adultos, outras exigências vão nos embotando a capacidade natural de criar. Quando nos damos conta, já temos isso muito enraizado. Temos de dar um jeito de aliviar o senso crítico para que a criatividade desponte. Associa­­do, existe um outro entrave. A expectativa de como os outros vão ler. Ficar preocupado com isso é inibidor em vários níveis, desde quem escreve carta de amor até um jornalista. O terceiro fator é o hábito de confundir o escrever com o editar. Há uma falha involuntária em muitos processos educacionais de exigir que o jovem faça uma redação e a escreva conforme as normas ortográficas e padrões linguísticos válidos. Quando colocamos as normas fora de hora, inibimos o texto criativo. Escrever é soltar a inteligência e criatividade. Óbvio que, para se comunicar, tem de adequar depois, mas isso deve ser feito em uma etapa seguinte.

Como o senhor chegou à criação do método Escrita Total?

Nasceu da seguinte forma: na pós-graduação da USP, desde o começo, trabalhei com livro-reportagem e jornalismo literário. Os alunos gostavam muito e apreciavam a aposta. Mas, na hora de produzir um texto mais solto, tinham dificuldades. Por isso pensei que seria interessante desenvolver uma técnica para destravar esses alunos e passei a estudar os caminhos para isso. Estudei fora do país e, na época, viajava muito para os Estados Unidos e comecei a ver algo de ponta que existia em criatividade para texto e descobri a teoria dos hemisférios cerebrais, que se mostrou aplicável em vários campos, inclusive na educação e criatividade. Travei contato com outros profissionais que estavam experimentando formas de liberação na escrita e adaptei para a realidade do brasileiro. Funcionou com meus alunos, isso na década de 1990, e então resolvi testar com o público fora da universidade depois de 1993. Seria uma pena ficar restrito na universidade e passei a dar cursos livres para todos os tipos de pessoas, desde poetas até pessoas que não tinham a escrita como profissão. Ampliei mais o leque até dar aulas para professores de redação do nível médio e fundamental, que adaptaram o método para seus alunos e vieram contar resultados maravilhosos.

O senhor afirma que o método se aplica não apenas para profissionais da área de texto. Qual o resultado para pessoas de outras áreas?

Eu testei o método com adolescentes na escola, e os resultados são surpreendentes. Fui contratado por uma mãe em São Paulo. O filho dela estuda em uma das melhores escolas e tinha sido reprovado em redação. Ela pediu um reforço, tive um encontro de dois dias e depois a mãe me contou da aprovação. Outro caso que me deixou comovido foi uma das primeiras vezes que levei o curso para fora da universidade e uma das alunas era uma advogada aposentada, que se sentia engessada ao escrever. Passou pelo curso e depois soube que ela havia escrito a historia da família. Uma prova de que ela tinha criatividade, mas precisava do incentivo adequado para se soltar.

Uma das técnicas utilizadas pela metodologia é a escrita rápida (que consiste em escrever sobre qualquer assunto que ocorra no momento, o mais rápido possível). Como esta restrição de tempo ajuda?

É o combate ao senso crítico, que interfere na produção no mo­­mento que estamos escrevendo. É um “diabinho” interno que já põe um julgamento e uma crítica inicial. Por isso, quando a pessoa escreve muito rápido, o senso crítico não acompanha o ritmo e, em algum momento, desiste. Com isso, sua capacidade interna vai aparecendo de uma forma muito espontânea e vivaz. Para quem corre contra o relógio, é uma técnica promissora e significativa, adequada para os tempos em que vivemos.

Por envolver diversas áreas de conhecimento, entre elas a Psicologia, o curso acaba trazendo contribuições além do texto?

O método auxilia a pessoa a travar um contato profundo com questões internas e capacidades adormecidas. Tem um certo traço terapêutico e de autoconhecimento. Ao fazer a pessoa mergulhar mais profundamente e trazer textos de sua fonte interna, não há separação entre técnica e pessoal. Na medida que trava contato com potenciais adormecidos, há uma elevação da autoestima , além de despertar qualidades camufladas. O método pode provocar efeitos transformadores na pessoa, por conta da característica da espontaneidade, e porque está apoiado em áreas de conhecimento como a psicologia.

É importante que se tenha um ritual antes de escrever?

Sim, mas vamos entender o ritual como uma forma de acionar capacidades que estão adormecidas na psique. O ritual pode ser algo simples: quando sentar no computador em casa, coloque perto uma foto de uma paisagem que visitou e tenha gostado. A imagem vai inspirar. Lembrar de um autor e agradecer a sua inspiração, é um ritual ou fechar os olhos e desejar que aquele texto seja útil para alguém. É importante cultivarmos rituais, eles ajudam a colocar a criatividade em ação.

Quais são as dicas gerais para melhorar o texto e ser mais criativo?

A primeira é não se preocupar muito com as regras num primeiro momento. A outra é escrever pelo prazer de escrever, e não se preocupar com quem vai ler. Brinque de colocar no papel as suas ideias sem medo do ridículo. Se parecer um pouco estranho, tire um sarro de si mesmo, não se leve demasiadamente a sério. Não se deve ter receio que apareça a emoção. A emoção é o que nos torna humanos a dá força ao texto. Se não tiver uma certa dose de emoção, não vai chegar no leitor. Quando escrevemos, procuramos nosso arsenal de impressões e experiências, e uma forma de alimentar é abrir os sentidos para a captação de estímulos do am­­biente, como uma boa música ou um bom filme. Se a pessoa gosta de dançar, dance com mais gosto ainda e depois escreva. Coloque no papel e veja o que acontece.

E para o senhor, como é o processo de escrever?

Há momentos em que as coisas fluem muito. Em outros, enfrento um bloqueio ou outro, e fica mais moroso e sofrido. Mas, na maioria das vezes, não. Tenho de entrar num estado adequado. O meu é escrever sem interrupção e sem presença de pessoas em volta. Tenho um apartamento alugado que só eu entro, nem a minha mulher vai lá (risos). Quando entro neste estado de entrega total ao processo, as coisas fluem muito. Evidente­mente, como há diversas demandas e atividades, escrever se torna mais complicado. Quan­­­do isso acontece, uso as técnicas da Escrita Total.

Serviço:

O livro Escrita Total está disponível para compra nos sites: www.clubedeautores.com.br e www.agbook.com.br.

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