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ENTREVISTA

A leitura de boca em boca

Há pouco mais de uma década, o nome do paulista Galeno Amorim virou sinônimo de boas histórias a favor do livro

  • José Carlos Fernandes
Galeno Amorim, presidente da Biblioteca Nacional, e personalidade da leitura no Brasil: rede gigantesca de interessados |
Galeno Amorim, presidente da Biblioteca Nacional, e personalidade da leitura no Brasil: rede gigantesca de interessados
 
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Em 2007, já escolado na difícil tarefa de promover a leitura, o jornalista e escritor Galeno Amorim deu início a um blog. Natural para quem tinha criado uma feira do livro em sua cidade natal, Ribeirão Preto, SP; passado pela Secretaria Municipal de Cultura e se firmado como uma autoridade no assunto: nada menos do que 80 bibliotecas nasceram de sua ação. O que não esperava era que um assunto tão distante do futebol ou da violência fosse criar uma rede de arrasar o quarteirão. "Quando a gente começa, mal imagina onde vai parar", diverte-se, ao se referir ao Observatório do Livro e da Leitura, hoje na casa dos 100 mil usuários.

Um dos maiores méritos do "Blog do Galeno" – além de fomentar políticas para o setor – é provocar os leitores com pequenas histórias sobre gente que faz. Fica-se sabendo ali dos brasileiros cheios de boa vontade que colocam o livro em capelinhas ou banquinhas de feira. É saboroso. Tanto que seu idealizador já perdeu a conta dos leitores que encontrou mundo afora, prestes a lhe bater nas costas e puxar conversa sobre a página da internet.

Certa feita, numa palestra em Lisboa, identificou quase uma centena de seguidores em além mar. Uma glória – o Brasil sendo festejado pelos livros. "Criei [o Observatório...] porque achava que era uma forma importante de compartilhar aquelas coisas que tinha aprendido. As pessoas sentiam falta de funcionar como uma grande rede...", conta Galeno, 50 anos, atual presidente da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Em entrevista à série Leitura na Prática, o homem que na última década se transformou na "personalidade do livro" reitera o poder das iniciativas simples. Precisamos de índices? Diz que sim. Mas principalmente precisamos tornar visível a mudança que a leitura opera na vida de quem a ela se entrega. Confira trechos da conversa.

Em seu blog, conhecido como o Blog do Galeno, você costuma mapear pequenas iniciativas de leitura surgidas no país – em peixarias e padarias, por exemplo. É possível precisar o alcance da atuação de gente anônima, que abraça a seu modo a divulgação do livro?

Iniciativas como essas são fundamentais num país de dimensões continentais como o Brasil. Pessoas das mais diferentes partes, e de profissões diferentes, acabam criando formas de promover a leitura. Claro – é papel do Estado garantir projetos e programas de leitura, mas a demanda de formar leitores e permitir acesso é bastante complexa, dada a própria formação nacional, em regiões, em segmentos tão distintos e tão diversos. Só se torna possível vencer essa situação se o cidadão comum toma iniciativas...

Segredo de Tostines – as iniciativas de leitura cidadãs já existiam e a gente não percebia. Ou vice-versa: falar da leitura trouxe o tema à baila, provocando seu renascimento...

Dá para dizer que nos últimos dez anos houve um aumento de iniciativas em prol da leitura. Muitas já existiam, é claro. Mas aumentou a repercussão e o interesse das pessoas, de empresas, de entidades. Leitura virou assunto de associação de bairros, sindicatos, igrejas, escolas, de qualquer um que goste de ler. Meios de comunicação têm tratado mais o tema. É uma semeadura que vem existindo há mais de 50 anos. De repente, floresceu. Acho que estamos na década mais importante para esse tema no Brasil. Foi uma virada. Há 15-20 anos, dava para contar essas histórias no dedo da mão. O prêmio Vivaleitura, criado em 2006 para detectar iniciativas de leitura, já identificou 13, 14 mil projetos diferentes...

Em que esses grupos acertam e em que erram?

Acho que o grande acerto dessas iniciativas é que conseguem perceber o nicho e o público-alvo que precisam trabalhar. O açougueiro sabe que atende diretamente seus clientes; o borracheiro quer atingir o entorno da área em que trabalha; a professora de Manaus pinta textos da literatura na camiseta dos alunos: seu público alvo são os meninos da periferia que não têm acesso aos livros. Os maiores problemas dessas iniciativas, penso, são do ponto de vista técnico. Não diria que erram. Diria que há uma deficiência em aprimorar os programas. O Estado, o governo federal, as sociedades privadas e ONGs que trabalham nessa área precisam melhorar técnicas de gestão. Os projetos precisam ser sustentáveis.

Em que ponto de vista o senhor se coloca – a internet aumentou potencialmente o número de leitores e o livro se beneficiou disso? Ou estamos vivendo o paradoxo da saudade? A sensação de que o livro iria "acabar" teria lançado muita gente na direção dele...

Vejo a internet como um instrumento e um aliado no acesso à leitura. Se você olha para um país como o Brasil, no qual as livrarias chegam só a 700 cidades – ou seja, são quase 5 mil municípios sem ponto de venda –, percebe que a internet permite o acesso a um livro. Basta um clique e em três dias, uma semana, o livro chega ao ponto mais distante do país. Não é desprezível. Os jovens, principalmente, têm uma interação muito forte com o mundo digital e estão recebendo um estímulo muito grande para a leitura. Mesmo que a gente tenha uma preferência pelo livro físico, é importante considerar que o mais importante de tudo é o ato da leitura, independente do suporte. O conteúdo pode estar em papiro, audiolibro, braile, no papel, no ebook. Pode estar gravado numa pedra. Se a internet e outros meios são capazes de promover o acesso a esse conhecimento, está valendo.

O senhor sente falta de um índice que comprove estatisticamente a relação entre fomento da leitura e desenvolvimento?

Existe uma percepção do impacto que os livros e a leitura têm na sociedade. Por outro lado, para muitas pessoas com poder de decisão, há necessidade de indicadores objetivos, sem os quais se torna arriscado ampliar os recursos. Há os que têm fé. E os que precisam ver o milagre para acreditar. Indicadores mais consistentes, que pudessem atrelar uma coisa à outra, certamente ajudariam a trazer mais investimentos à leitura...

O mundo da pesquisa caminha para ter esse "índice seguro"?

Acredito muito, embora não exista uma fórmula. É difícil satisfazer o racionalismo que muita gente defende como única maneira de comprovar o impacto da leitura. Mas penso que em breve teremos índices muito melhores do que os atuais. É o grande desafio. – ultrapassar a "constatação individualizada". Tenho impressão que em pouco tempo vamos criar critérios objetivos.

O brasileiro médio associa ler com solidão e recolhimento. Mas pode haver apropriação festiva do ato de ler. Tropicalização. O brasileiro lê de forma peculiar?

A leitura é um ato solitário, intimista. Nos países frios as pessoas enchem o carrinho de queijos, vinhos e livros. A leitura, claro, padece num país como o nosso, onde muitos estão na rua, conversando, no qual o encontro com o amigos aparece nas pesquisas como a atividade mais amada. Mas cada vez mais vemos a leitura acontecer em locais que reúnem grandes públicos. É o caso das feiras de livros. E dos festejados encontros com escritores. Estamos encontrando nosso próprio jeito de nos relacionar com o livro e a leitura. As pessoas começam a perceber que a leitura, além de ser uma maneira de aumentar conhecimento, de alargar a própria inteligência, e de um entretenimento, tem o poder de mudar uma vida. Esse poder de mudança passa pelo menino que amplia seu vocabulário, seu sentimento; que vence a timidez e arruma uma namorada. É uma situação concreta. Mudou a perspectiva. E tem aquele jovem que de repente leu um livro e ficou mais criativo, esperto, teve um upgrade profissional, ganhou um aumento salarial. E tem o leitor que conseguiu uma nova ocupação na sociedade, passando a atuar numa associação de moradores. Insisto – a percepção de que o livro pode mudar a vida é uma alavanca para aproximar as pessoas da leitura.

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